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Vi como se afiam facas na Índia e agora faço em casa: até lâminas velhas e gastas ficam afiadas como navalhas em apenas um minuto.

Pessoa a afiar uma faca em pedra de amolar na cozinha, com maçãs e toalha ao fundo.

A primeira vez que ouvi aquela estranha canção metálica, estava numa rua de Jaipur, preso no trânsito do meio-dia. O ar estava pesado de pó, cominhos, gases de escape e riquexós a buzinar. Depois vi-o: um homem com uma camisa azul desbotada, a pedalar uma bicicleta que já não era bem uma bicicleta, mas uma oficina ambulante de afiar em duas rodas. Faíscas saltavam da pedra a girar aos seus pés, brilhantes no meio do caos.

Trabalhava com calma, quase distraidamente. Uma mão firme na faca, a outra a guiar suavemente a roda. As pessoas saíam de portas estreitas com molhos de lâminas rombas: facas de cozinha, tesouras, até um cutelo enferrujado que parecia mais velho do que eu. Cada uma saía a brilhar e afiada em menos de um minuto.

Fiquei ali, a pensar: como é que ele faz isto tão depressa?

O que vi na Índia que mudou para sempre a forma como afio facas

Segui aquele homem durante meia rua, hipnotizado pelo som do aço na pedra. A roda era acionada pelos pés enquanto ele pedalava, e cada volta lançava uma nova chuva de faíscas sobre o passeio rachado. Crianças observavam das ombreiras das portas, a rir quando as faíscas mais brilhantes saltavam. As facas que ele levantava no fim pareciam diferentes, como se tivessem acabado de sair de um spa.

Não havia nada de alta tecnologia naquilo. Uma roda de pedra, uma armação metálica, um balde de água, um pano. Mas a eficiência era quase brutal. Uma faca, trinta segundos. Outra, quarenta e cinco. Nunca se atrapalhava, nunca conferia ângulos com aparelhos. Só olhos, mãos, ritmo.

Mais tarde, numa pequena banca de chai, o dono disse-me que estes afiadores móveis ainda fazem rondas em muitos bairros. As pessoas esperam por aquele assobio familiar e pelo chiar da roda como outras esperam pelo camião dos gelados. Disse que a maioria das casas não deita fora facas velhas; dá-lhes nova vida. Uma faca romba não está “estragada”, está só à espera do afiador.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que a pele do tomate não corta e apenas se esmaga tristemente sob a lâmina. Naquela banca em Jaipur, cortavam cebolas tão depressa que mal havia tempo para arderem os olhos. O vendedor de chai apontou para a sua própria faca de chef, gasta e marcada, e disse com um sorriso orgulhoso: “Dez anos. Ainda como nova.” Tudo graças a um rebolo ambulante numa bicicleta.

A ver aquele sistema a funcionar, algo fez clique em mim. Em casa, afiar costuma significar uma chaira esquecida numa gaveta, ou um afiador elétrico caro que juramos que vamos usar “um dia”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Entretanto, naquela rua, afiar era um ritual rápido e regular, integrado na vida quotidiana.

O verdadeiro segredo não era só a habilidade do afiador; era a abordagem. Passagens rápidas e simples. Ângulo consistente. Arrefecer a lâmina com água. Sem obsessão pela perfeição, apenas o objetivo prático: uma faca que corta. Foi exatamente essa mentalidade que trouxe para a minha própria cozinha.

O método simples em casa que “roubei” daquela rua indiana

De volta a casa, obviamente não tinha uma roda de bicicleta nem uma chuva de faíscas na sala. Tinha uma pedra de afiar barata, de dupla face, comprada na internet, um pano de cozinha dobrado, e aquela memória de movimentos confiantes e repetitivos. Então tentei recriar a cena em miniatura na minha bancada.

Eis o essencial: deixo a pedra de molho durante 10–15 minutos. Coloco-a em cima de um pano húmido para não escorregar. Depois escolho uma faca e fixo um ângulo aproximado de 15–20°, com a lâmina virada para longe, o calcanhar junto à pedra. A partir daí, empurro a faca num movimento suave, como se estivesse a tentar cortar delicadamente uma camada muito fina da superfície. Repito, mantendo-me relaxado, contando cerca de 15–20 passagens por lado.

A grande mudança foi a velocidade e a intenção. Em vez de “mimar” a lâmina com movimentos lentos e ansiosos, copiei aquele ritmo fluido, quase casual, que tinha visto em Jaipur. Passagens curtas para facas pequenas, passagens longas para a minha faca de chef maior. Não me obceco em acertar num ângulo “perfeito” em cada passagem; apenas mantenho uma consistência aproximada. A pedra faz o trabalho.

A primeira vez que tentei, uma das minhas facas mais antigas passou de “mal corta uma cenoura” a cortar papel em menos de um minuto. Não era uma lâmina japonesa sofisticada, só uma faca de supermercado de há anos. Aquele momento em que a senti deslizar num tomate como se fosse manteiga? Foi exatamente a sensação que eu andava a perseguir desde aquela esquina poeirenta na Índia.

Convém evitar algumas armadilhas clássicas. A primeira: pressionar demasiado. Quando comecei, empurrava como se estivesse a tentar achatar a própria pedra, e o fio ficou irregular. Pressão leve a média é suficiente. Deixe o grão “morder” o metal. A segunda armadilha é correr logo para o lado mais fino da pedra, a pensar que é “melhor”. Numa lâmina cansada, o lado mais grosso é o seu melhor amigo.

Outro detalhe que copiei do afiador de bicicleta: água com frequência. Pingo água na pedra a cada poucas passagens, para a superfície nunca secar. Ajuda a manter as limalhas a circular e dá um fio mais limpo. Quanto mais tratei o processo como um pequeno ritual semanal em vez de uma tarefa rara e heroica, mais natural se tornou.

Viver com facas mais afiadas: ritual pequeno, impacto grande

Houve uma frase que um cozinheiro local em Udaipur me disse e que ficou na minha cabeça. Eu perguntava-lhe porque é que toda a gente estava tão à vontade com aquelas lâminas enormes e pesadas. Ele encolheu os ombros e disse:

“Uma faca afiada não é perigosa. Uma mão preguiçosa é.”

Foi aí que percebi que isto não era apenas um truque para fatias de tomate mais bonitas. Era uma forma de cozinhar com menos tensão, menos força, menos frustração. Em casa, isso traduziu-se numa pequena lista de regras pessoais:

  • Dou um retoque à minha faca mais usada uma vez por semana, não uma vez por ano.
  • Mantenho sempre o mesmo ângulo, mesmo que não seja “perfeito”.
  • Paro assim que a faca faz o que eu preciso, sem obsessão por um afiado assustador.
  • Mantenho-me presente quando corto, nunca distraído a fazer scroll no telemóvel.

Porque é que este truque à antiga encaixa surpreendentemente bem em cozinhas modernas

Desde que comecei a copiar aquele método de rua indiano, a minha cozinha ficou mais silenciosa. Menos ervas esmagadas, menos cebolas “retalhadas à força”, muito menos palavrões por causa de lâminas a escorregar. Cozinhar a meio da semana parece menos uma obrigação e mais uma pequena sessão de artesanato no fim do dia. Há algo estranhamente tranquilizador em passar aço na pedra durante sessenta segundos.

Também deixei de tratar as minhas facas antigas como descartáveis. Aquelas lâminas manchadas e ligeiramente empenadas no fundo da gaveta? Muitas voltaram à vida depois de duas sessões focadas - primeiro o lado grosso, depois o fino - ambas as mãos firmes no cabo e no dorso. Não vão ganhar um concurso de beleza, mas cortam limpo, e isso é tudo o que importa numa noite de terça-feira, quando o jantar está atrasado e você tem fome.

O que mais me surpreendeu foi o quão contagioso este pequeno hábito pode ser. Amigos vêm cá a casa, pegam numa faca e notam imediatamente a “mordida”. Uns perguntam pela marca, outros pelo “segredo”. A verdade é quase embaraçosamente simples: uma pedra, alguma água, dois minutos e um pouco de sabedoria emprestada a um homem numa bicicleta na Índia. O resto é prática e atenção.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Observe o ritmo Copie o movimento fluido e repetitivo em vez de se obcecar com ferramentas Afiar em casa mais rápido e mais natural
Use uma pedra de afiar básica Demolhar, estabilizar num pano, 15–20 passagens por lado num ângulo constante Mesmo facas muito antigas podem ficar a cortar como lâmina em cerca de um minuto
Transforme em ritual Retoques leves semanais em vez de sessões raras e pesadas Corte mais seguro e fácil e maior vida útil das facas

FAQ:

  • Pergunta 1: Preciso mesmo de uma pedra de afiar, ou posso usar aqueles afiadores de puxar?
    Os afiadores de puxar desenrascam, mas removem muito metal e podem “mastigar” o fio com o tempo. Uma pedra de afiar simples, de dupla face, dá mais controlo, um fio mais limpo e custa sensivelmente o mesmo que um gadget de gama média.
  • Pergunta 2: Como sei que encontrei o ângulo certo?
    Coloque a lâmina quase plana sobre a pedra e depois levante o dorso até ficar aproximadamente à altura de duas moedas empilhadas. Isso fica suficientemente perto de 15–20°. O importante é manter a consistência, em vez de perseguir um número matematicamente perfeito.
  • Pergunta 3: Com que frequência devo afiar as facas em casa?
    Se cozinha todos os dias, um retoque leve semanal e um afiar mais completo uma vez por mês costuma ser suficiente. Se cozinha raramente, faça o teste do tomate: se esmagar em vez de cortar, está na hora.
  • Pergunta 4: Este método consegue recuperar facas muito baratas ou muito velhas?
    Sim, desde que a lâmina não esteja rachada nem com lascas profundas. Podem não atingir o nível de um chef profissional, mas podem voltar a ser surpreendentemente eficazes, sobretudo para tarefas simples de cozinha.
  • Pergunta 5: Afiar é perigoso se nunca fiz isto antes?
    É menos assustador do que parece. Comece devagar, mantenha os dedos longe do fio e foque-se em movimentos estáveis. Uma faca afiada e controlada na tábua é, na verdade, mais segura do que uma faca romba que escorrega.

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