Em vez de bombardear o corpo inteiro com fármacos tóxicos ou feixes de alta energia, os cientistas estão a testar um “ataque de calor” direcionado que pretende eliminar células cancerígenas, deixando o tecido saudável próximo quase intacto.
Uma forma mais suave de combater o cancro
Durante décadas, o tratamento do cancro tem recorrido a armas poderosas. A quimioterapia envenena células de crescimento rápido. A radioterapia bombardeia tumores com radiação. A cirurgia remove porções inteiras de tecido para garantir segurança.
Estas ferramentas salvam vidas, mas o preço pode ser brutal: náuseas, queda de cabelo, fadiga, queimaduras, lesões nervosas, cicatrizes, dor prolongada. Os doentes dizem frequentemente que sentem que a cura os está a magoar quase tanto como a doença.
Uma parceria de investigação entre a Universidade do Texas em Austin e a Universidade do Porto está agora a testar uma estratégia diferente. Em vez de tratar o corpo todo, a abordagem procura localizar células cancerígenas, aquecê-las a partir do interior e poupar o máximo possível de células saudáveis.
Esta terapia baseada em luz destruiu até 92% das células de cancro da pele em testes laboratoriais, deixando as células saudáveis próximas em grande parte ilesas.
O estudo, publicado na revista ACS Nano, utiliza partículas minúsculas de óxido de estanho e luz LED de infravermelho próximo. Em conjunto, funcionam como um aquecedor controlado à distância que só “liga” onde existe cancro.
Como um LED simples se torna uma arma contra o cancro
A tecnologia assenta em dois componentes principais: uma fonte de luz de infravermelho próximo e nanopartículas concebidas para esse fim.
Conheça as “nanoflocos” de estanho
As partículas, chamadas nanoflocos de SnOx, são feitas de óxido de estanho e medem apenas alguns bilionésimos de metro. A essa escala, os materiais podem comportar-se de formas invulgares. Neste caso, os flocos absorvem luz de infravermelho próximo e convertem-na rapidamente em calor.
Quando estes nanoflocos são colocados perto de células cancerígenas e expostos a um comprimento de onda específico emitido por um LED, aquecem o suficiente para danificar e matar as células malignas.
A chave é a localização: o calor é gerado exatamente onde as partículas estão, em vez de “fritar” tudo no caminho de um feixe.
Em experiências laboratoriais com células de cancro da pele, cerca de 30 minutos de exposição ao LED destruíram aproximadamente 92% das células malignas. Testes em células de cancro colorretal mostraram cerca de 50% de eliminação, sugerindo que diferentes cancros podem responder de forma distinta, mas que o princípio funciona em vários tipos.
Porque é que os LEDs mudam o jogo
Os tratamentos fototérmicos do cancro não são novos. Há anos que se usam lasers para aquecer nanopartículas metálicas dentro de tumores. No entanto, os lasers tendem a ser caros, volumosos e, por vezes, agressivos para o tecido próximo.
Esta nova abordagem substitui lasers de alta potência por LEDs de infravermelho próximo relativamente baratos. Estas luzes são amplamente usadas em produtos de consumo, como comandos à distância e dispositivos cosméticos, e são mais fáceis de integrar em equipamento pequeno e portátil.
- LEDs: mais baratos, compactos, podem ser usados em dispositivos simples
- Luz de infravermelho próximo: penetra melhor no tecido do que a luz visível
- Nanoflocos de estanho: atuam como pequenos aquecedores que só ativam sob a luz certa
- Aquecimento direcionado: reduz danos em células saudáveis
Os investigadores também testaram a estabilidade térmica das partículas ao longo de ciclos repetidos de aquecimento. Os nanoflocos continuaram a funcionar de forma fiável, o que é crucial se os doentes precisarem de várias sessões ao longo de semanas ou meses.
Da enfermaria para cuidados em casa?
Uma das possibilidades mais marcantes levantadas pela equipa é o local onde esta terapia poderia ser administrada.
A quimioterapia tradicional exige muitas vezes infusões longas e supervisionadas. A radioterapia requer salas pesadas e blindadas. Em contraste, um tratamento baseado numa pequena lâmpada LED e nanopartículas injetáveis poderia, em teoria, ser adaptado a uma utilização muito mais flexível.
Os cientistas já falam em dispositivos portáteis que os doentes poderão usar ou aplicar na pele após a cirurgia, visando células cancerígenas remanescentes antes que se reorganizem.
Para tumores superficiais, como muitos cancros da pele, um doente poderá um dia ir para casa com um adesivo compacto ou um aplicador manual. O dispositivo iluminaria a área com luz de infravermelho próximo onde foram administradas as nanopartículas, tratando pequenas recorrências sem necessidade de internamento.
Esta ideia é, por agora, especulativa. Os ensaios clínicos ainda não começaram, e qualquer uso em casa enfrentaria exigências rigorosas de segurança e regulamentação. Ainda assim, o conceito encaixa numa mudança mais ampla na oncologia: mais direcionada, mais personalizada e, quando possível, menos dependente de camas hospitalares.
Que cancros poderão beneficiar primeiro?
Os investigadores estão particularmente focados em cancros próximos da superfície do corpo ou acessíveis com cirurgia mínima.
| Alvo potencial | Porque faz sentido |
|---|---|
| Cancros da pele | Acesso fácil à luz; pode tratar margens cirúrgicas ou pequenas lesões |
| Cancro da mama (localizado) | Poderia visar o leito tumoral após cirurgia para reduzir recorrência |
| Tumores colorretais | Ferramentas endoscópicas poderiam levar luz a lesões internas |
O programa UT Austin Portugal já está a financiar trabalho para adaptar a abordagem ao cancro da mama. Nesse cenário, os cirurgiões poderiam remover o tumor principal e depois usar nanopartículas e luz LED para eliminar células microscópicas deixadas no tecido circundante.
Benefícios e perguntas ainda sem resposta
Os benefícios potenciais são claros: menos efeitos secundários, menos danos no tecido saudável e possivelmente tempos de recuperação mais curtos. Um tratamento localizado também poderia ser combinado com terapias sistémicas como a imunoterapia ou medicamentos alvo, atacando o tumor por vários ângulos ao mesmo tempo.
Ao mesmo tempo, persistem grandes questões. Os cientistas precisam de compreender quanto tempo as nanopartículas permanecem no corpo, como são eliminadas e se se acumulam em órgãos ao longo do tempo. Os reguladores vão exigir provas robustas de que as partículas não desencadeiam inflamação inesperada nem toxicidade a longo prazo.
Como a terapia fototérmica realmente mata células cancerígenas
Para quem não é especialista, a ideia de “cozinhar” células cancerígenas pode soar assustadora ou vaga. O processo é mais controlado do que parece.
As células só toleram uma faixa estreita de temperatura. Quando a temperatura local sobe acima de cerca de 42–45 °C durante tempo suficiente, as proteínas começam a desnaturar e estruturas vitais degradam-se. As células cancerígenas, já sob stress e a dividir-se rapidamente, podem ser particularmente sensíveis a este calor.
O objetivo não é ferver o tecido, mas elevar a temperatura o suficiente para que as células malignas não sobrevivam, enquanto as células saudáveis próximas recuperam.
Como os nanoflocos de estanho ficam mesmo ao lado das células cancerígenas - ou no seu interior -, o calor mantém-se altamente localizado. Ajustando a intensidade e a duração da exposição ao LED, os médicos poderão afinar quanta lesão é causada e onde.
Como isto poderá ser para um doente
Imagine uma pessoa diagnosticada com um cancro da pele pequeno, em fase inicial. Hoje, poderá ser submetida a cirurgia, por vezes seguida de radioterapia se os cirurgiões suspeitarem que ficaram células dispersas.
Com esta nova abordagem, a sequência poderia mudar. Os cirurgiões ainda removeriam o tumor visível e, depois, injetariam ou aplicariam nanopartículas SnOx em torno das margens da ferida. Um enfermeiro colocaria um dispositivo LED sobre a zona durante um tempo definido, aquecendo quaisquer células cancerígenas remanescentes. O doente sentiria calor, mas não a sensação de queimadura nem os efeitos sistémicos associados à radiação ou à quimioterapia.
Se a tecnologia avançar mais, doentes com lesões superficiais recorrentes poderiam receber várias sessões ao longo de algumas semanas, cada uma com duração inferior a uma hora. A terapia poderá tornar-se uma ferramenta entre muitas, escolhida para casos adequados, em vez de substituir todos os tratamentos existentes.
Conceitos-chave que os doentes poderão ouvir
À medida que este tipo de terapia progride, alguns termos técnicos deverão surgir nas conversas em consulta:
- Terapia fototérmica: tratamento que usa luz para gerar calor dentro do tecido e matar células-alvo.
- Infravermelho próximo (NIR): luz imediatamente além do vermelho visível, capaz de penetrar mais profundamente na pele do que a luz comum.
- Nanopartículas: partículas ultrapequenas concebidas para tarefas médicas, como transporte de fármacos ou aquecimento local.
- Terapia direcionada: abordagem concebida para atuar sobre células ou moléculas específicas, em vez de sobre o corpo inteiro.
Se esta técnica com LED e estanho chegar às clínicas, os oncologistas terão de explicar não só o que ela consegue fazer, mas também onde estão os seus limites. Os doentes provavelmente recebê-la-ão em conjunto com tratamentos existentes, e não como uma “bala mágica” isolada.
Por agora, o trabalho no Texas e no Porto mantém-se no laboratório. Ainda assim, a ideia de que um dispositivo LED barato e partículas concebidas em laboratório possam matar silenciosamente células cancerígenas poupando tecido saudável já está a remodelar a forma como os investigadores encaram a próxima geração de cuidados oncológicos.
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