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Todos conhecem o fracasso do Concorde, mas e o seu “primo”? Um “monstro” de 265 toneladas projetado para ligar França e Inglaterra em apenas 22 minutos.

Homem de capacete observa hovercraft a aproximar-se de um cais, segurando uma prancheta.

No Canal, no final da década de 1970, a França acreditou por breves instantes que tinha encontrado um atalho para o futuro, pairando mesmo acima das ondas.

Enquanto a maioria das pessoas se lembra do supersónico Concorde no céu, outra experiência franco‑britânica tentou reescrever as viagens no próprio mar: um hovercraft colossal que prometia transportar centenas de passageiros de Calais para Dover em pouco mais do tempo de uma pausa para café.

Um “barco voador” que nunca chegou a voar

O projeto tinha uma ambição quase cinematográfica: ligar França e Inglaterra em cerca de 22 minutos, deslizando pelo Canal da Mancha sobre uma almofada de ar.

A máquina escolhida para essa missão foi o Naviplane N500, um gigante construído em França por vezes descrito como o primo esquecido do Concorde. No estaleiro, era impossível ignorá‑lo: cerca de 50 metros de comprimento, 23 metros de largura, pesando mais de 250 toneladas em plena carga. Podia levar aproximadamente 400 passageiros, 55 automóveis e vários autocarros de uma só vez.

Tecnicamente, não era nem navio nem aeronave. O N500 era um hovercraft, elevado por uma almofada de ar pressurizada e impulsionado por turbinas a gás que soavam como motores a jato. Flutuava acima das ondas, não dentro delas - e, no entanto, nunca descolou de verdade.

Meio navio, meio aeronave, o N500 prometia velocidade da era do jato com um bilhete de ferry - e acabou como sucata numa praia francesa.

A ideia encaixava no espírito da época. Depois do Concorde, a Europa queria mais símbolos de ousadia tecnológica. O Canal da Mancha, cheio de ferries e dominado por hovercraft britânicos, parecia o cenário perfeito para a França fazer uma afirmação.

O visionário por detrás do “monstro do Canal”

Na origem do projeto estava Jean Bertin, um engenheiro já famoso em França pelo seu trabalho no “aérotrain”, um comboio de alta velocidade em almofada de ar que circulava sobre uma via de betão. Em 1965, criou uma empresa chamada SEDAM perto de Marignane, com um objetivo claro: usar almofadas de ar para reinventar os transportes.

O Estado francês apoiou‑o. Aos responsáveis agradava a promessa de alta velocidade e design futurista, uma espécie de equivalente marítimo do Concorde que pudesse, simbolicamente, reduzir o Canal a uma travessia de minutos. Surgiu um contrato: construir um hovercraft enorme de cerca de 250 toneladas que superasse o britânico SR.N4, então a referência nos serviços de hovercraft transmanche.

A máquina britânica já transportava carros e passageiros entre Inglaterra e França, mas a França queria algo maior e mais rápido. O N500 teria dois conveses, maior capacidade e uma velocidade‑alvo de cerca de 130 km/h (aproximadamente 70 nós) acima das ondas. Chegou a prever‑se, com otimismo, a exportação de até 150 unidades para todo o mundo - do Japão ao Canadá - num mercado que se esperava criar milhares de empregos industriais.

Como o N500 deveria funcionar

O N500 foi construído como um protótipo industrial em esteróides. O casco usava alumínio soldado para poupar peso, mantendo a capacidade de suportar cargas elevadas. Um convés reforçado para veículos permitia que autocarros e camiões entrassem e saíssem como num ferry clássico - embora este assentasse em ar em vez de água.

Cinco turbinas a gás Avco Lycoming, tecnologia aeronáutica americana, alimentavam a “besta”. Duas turbinas forneciam energia aos ventiladores de sustentação para insuflar a saia, enquanto três geravam impulso para a frente através de grandes hélices.

Sob a embarcação, dezenas de segmentos flexíveis formavam a saia, feita de tecido revestido a neopreno. Estes “dedos” eram insuflados individualmente com ar. Se um se rasgasse por detritos ou pela crista de uma onda, os outros poderiam, em teoria, manter a pressão e conservar a embarcação nivelada.

O N500 consumia cerca de 5.000 litros de combustível por hora, um valor impressionante que transformava cada travessia numa corrida contra a contabilidade.

A fatura do combustível parecia alarmante mesmo na década de 1970, quando o petróleo era relativamente barato. Com os choques petrolíferos e a redução das margens operacionais, uma máquina que devorava diariamente várias cargas de camião em combustível passou de ambiciosa a arriscada.

Primeiro lançamento, primeiro desastre

O primeiro N500, chamado Côte d’Argent, foi montado em Pauillac, no estuário do Gironde. Os testes iniciais, em abril de 1977, pareceram promissores. O hovercraft elevou‑se de forma limpa sobre a sua almofada, acelerou até cerca de 45 nós e respondeu aos comandos. Observadores falavam numa nova era nas viagens transmanche.

Depois veio um acidente insólito que selou o seu destino. Enquanto trabalhadores faziam acabamentos por baixo do casco, uma lâmpada terá explodido e incendiado um recipiente de cola. As chamas propagaram‑se rapidamente por cabos e materiais compósitos. Os bombeiros atacaram o incêndio com água, que reagiu mal com a estrutura de alumínio sobreaquecida.

Em poucos minutos, partes do casco amoleceram e colapsaram. O protótipo praticamente derreteu sobre si próprio. O primeiro N500 nunca entrou em serviço. Para a equipa em Pauillac, os restos carbonizados pareciam o fim da história.

O segundo navio: um breve momento de glória

O financiamento e o apoio político ainda existiam, pelo menos para uma última tentativa. Um segundo N500 foi construído e batizado Ingénieur Jean Bertin, em memória do seu criador, que morreu em 1975 e nunca viu o seu hovercraft transportar passageiros.

No final de 1977, a embarcação viajou de Pauillac para Boulogne‑sur‑Mer por mar, costeando a costa francesa por etapas. Em cada paragem repetia‑se a mesma reação: multidões nos cais, pessoas a observar esta máquina baixa e larga a rugir acima da linha de água como uma nave espacial em visita.

O serviço transmanche começou finalmente a 5 de julho de 1978. Operado em conjunto pela SNCF (operadora ferroviária francesa) e pela British Rail sob a marca Seaspeed, o N500 ligava Calais e Dover em cerca de 22 minutos em boas condições.

Em fevereiro de 1980, o N500 terá atravessado o Canal em 22 minutos e 15 segundos - um tempo que ainda hoje soa surreal para uma viagem marítima.

A bordo, os passageiros viviam algo entre um ferry e um voo de curta distância. A disposição da cabine lembrava a de aviões, com filas de assentos e compartimentos superiores para bagagem. O ruído das turbinas, as vibrações no chão e a sensação de “pairar” em vez de navegar criavam uma atmosfera muito própria.

Fendas no sonho

Por detrás do entusiasmo, persistiam problemas técnicos e económicos teimosos.

  • O consumo elevado de combustível tornava cada viagem dispendiosa.
  • O sistema complexo da saia exigia inspeções e reparações frequentes.
  • As turbinas e a transmissão geravam vibrações e ruído intensos.
  • Mar agitado levava a embarcação aos limites estruturais e de conforto.

As avarias mecânicas multiplicaram‑se. Em 1979, um incidente espetacular viu as cinco turbinas falharem enquanto o hovercraft estava em serviço, forçando uma evacuação completa por helicóptero. Não houve vítimas, mas as imagens pareciam de um filme‑catástrofe e abalaram fortemente a confiança do público.

Os resultados financeiros confirmaram rapidamente a tendência. Diz‑se que o N500 perdeu mais de 20 milhões de francos no seu primeiro ano completo, e ainda mais no seguinte. Problemas de fiabilidade faziam‑no ficar longos períodos parado no cais, enquanto salários, combustível e manutenção continuavam a acumular custos.

A tentativa britânica e o corte final

Em 1981, a SNCF desistiu do projeto e vendeu o hovercraft à Hoverspeed, um operador britânico que já explorava gigantes SR.N4 no Canal. Engenheiros tentaram ajustar o N500 com modificações destinadas a reduzir vibrações e melhorar o sistema da saia.

As mudanças não resolveram os problemas de fundo. A embarcação continuou a consumir muito combustível, a ser temperamental com mau tempo e a ser cara de manter. Embora outros hovercraft da época estivessem longe de ser baratos, tinham margens operacionais mais claras e um historial de serviço mais longo.

Em 1983, o N500 saiu discretamente dos horários. Dois anos depois, foi desmantelado na praia de Boulogne‑sur‑Mer, a poucos metros da água por onde outrora tinha deslizado a velocidades de jato.

Porque é que os hovercraft tiveram dificuldades face aos ferries e ao túnel

Os hovercraft sempre prometeram velocidade, mas vinham com compromissos que se tornaram mais dolorosos com o tempo. Os ferries convencionais eram mais lentos, mas conseguiam transportar mais carga em cada viagem e consumiam menos combustível por passageiro‑quilómetro. À medida que o design naval evoluiu, os ferries tornaram‑se mais rápidos e confortáveis sem exigir manutenção avançada ao estilo da aviação.

Depois, nos anos 1990, surgiu o Túnel da Mancha, com vaivéns ferroviários que transportavam carros e camiões de costa a costa em cerca de 35 minutos, protegidos de vento e ondas, com horários previsíveis. Contra uma ligação fixa a funcionar 24/7 sob o mar, um hovercraft sensível ao tempo e a queimar combustível de aviação rapidamente pareceu ultrapassado.

Modo Tempo típico no Canal Principal vantagem Principal desvantagem
Hovercraft (N500) ≈ 22 minutos Muito rápido Alto consumo, manutenção complexa
Ferry convencional 60–90 minutos Grande capacidade, robusto com mau tempo Travessias mais lentas
Vaivém do Túnel da Mancha ≈ 35 minutos Imune ao tempo, fiável Requer infraestruturas fixas de terminal

O que “almofada de ar” realmente significa

Para leitores menos familiarizados com a tecnologia de hovercraft, o princípio básico é simples. Ventiladores potentes bombeiam ar para debaixo da embarcação, que é retido por uma saia flexível. O ar aprisionado cria pressão e eleva o casco uma pequena distância acima da superfície. Como apenas o ar toca no solo ou na água, a fricção diminui drasticamente.

Esta baixa fricção produz dois efeitos principais. Primeiro, a embarcação acelera rapidamente e pode atingir altas velocidades com relativamente pouco impulso. Segundo, torna‑se muito sensível ao vento e às ondas, já que apenas a almofada de ar e a saia a mantêm estável. Equilibrar sustentação, peso e movimento exige controlo preciso e monitorização constante.

No N500, o desafio de engenharia aumentava com a escala. Um pequeno hovercraft de lazer pode tolerar pequenas fugas na saia e variações de peso. Um transportador transmanche de 250 toneladas não pode. Cada detalhe da distribuição de carga, altura das ondas e rajadas de vento tinha consequências no conforto e nas margens de segurança.

O que o N500 nos diz sobre projetos de transporte arrojados

Histórias como a do N500 ajudam a explicar porque tantos veículos de vanguarda têm dificuldades fora de pistas de teste. Protótipos de alta velocidade muitas vezes funcionam no papel e até nos primeiros ensaios, mas tropeçam quando expostos à operação diária, a orçamentos apertados e a preços de energia em mudança.

Quando os engenheiros modelam um novo veículo, normalmente tratam o preço do combustível, a capacidade de manutenção e a procura de passageiros como parâmetros. A realidade responde. O custo do combustível dispara. As peças demoram mais a chegar. As equipas precisam de formação adicional. Os passageiros reagem mais do que o esperado ao ruído ou às vibrações. Cada pequeno desvio mina a viabilidade.

Uma experiência mental simples mostra a escala do problema. Imagine uma rota com três idas‑e‑voltas diárias do N500. A cerca de 5.000 litros por hora e, digamos, 45 minutos de motores a funcionar por perna, a embarcação poderia queimar cerca de 7.500 litros por ida‑e‑volta. Ao longo de uma época de verão de 120 dias, isso significa bem mais de 2,5 milhões de litros - sem contar reposicionamentos ou atrasos. Uma pequena variação no preço do combustível altera todo o caso de negócio.

Ainda assim, o N500 deixou um legado mais discreto. Engenheiros que trabalharam no projeto levaram essa experiência para outros setores: plataformas offshore, ferries rápidos, até navios de instalação de turbinas eólicas. O sonho transmanche não durou, mas o know‑how espalhou‑se por embarcações de trabalho e equipamento industrial que raramente fazem manchetes.

Para os passageiros de hoje, a ideia de atravessar de Calais para Dover em pouco mais de 20 minutos continua a soar quase irreal. Da próxima vez que o Canal parecer lento a partir do convés de um ferry ou do assento de um comboio, vale a pena lembrar que, durante alguns poucos anos, um “monstro” francês de 265 toneladas tentou mesmo transformar o mar numa pista.

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