Saltar para o conteúdo

“Tenho mais de 60 anos e os dias longos esgotaram-me”: a regra de energia que aprendi tarde demais

Mulher numa cozinha, coloca o telemóvel num cesto enquanto segura chá ao lado de frutas, óculos e uma ampulheta.

At 62, dei por mim a fazer uma coisa ridícula.

Estava escondida na casa de banho do trabalho, sentada na tampa da sanita, totalmente vestida, só para fechar os olhos durante três minutos entre duas reuniões intermináveis. O telemóvel não parava de vibrar no bolso, o meu nome ecoava ao longe no corredor, e o meu corpo dava a única resposta que ainda tinha: um cansaço profundo e teimoso.

Nos meus 40, eu usava estes dias longos como um emblema de honra. “Tu és incrível, nunca paras”, diziam-me. E eu acreditava. Confundi resistência com força.

Depois, num inverno, após mais um dia de 12 horas que acabou comigo a comer bolachas em cima do lava-loiça, a verdade finalmente caiu-me em cima.

A minha energia não tinha “desaparecido com a idade”.

Eu tinha estado a quebrar a mesma regra durante décadas.

A verdadeira razão pela qual os dias longos custam tanto depois dos 60

Ao princípio, não reparamos na erosão.

Nos 30, ultrapassamos uma noite mal dormida. Nos 40, acrescentamos café e açúcar. Nos 50, começamos a comprar vitaminas e a dizer a nós próprios que é “só uma fase mais ocupada”. Depois chegam os 60, e percebemos que o problema já não é o dia. O problema é o nosso orçamento de energia.

Essa é a regra que ninguém me ensinou: depois dos 60, a energia não é renovável a pedido.

Não dá para passar o cartão de crédito do corpo e esperar que amanhã ele nos salve.
Agora a fatura chega depressa - e com juros.

Deixo-vos uma imagem concreta.

Durante anos, as minhas terças-feiras eram lendárias. Comboio cedo às 6:45. Nove horas de reuniões seguidas. Jantar rápido com uma amiga “a quem eu não queria desmarcar”. Emails na cama “só para limpar a cabeça”. Dizia a mim própria que tinha sorte por ainda “conseguir acompanhar os mais novos”.

Na quarta-feira de manhã, as pernas pareciam chumbo, o cérebro estava lento, a paciência curta. Na quinta, eu respondia torto por coisas mínimas. Na sexta, sentia-me como se tivesse uma gripe ligeira.

Culpava a idade. A menopausa. A biologia injusta.

A verdade: eu gastava cinco dias a recuperar de um dia de ego.

Foi isto que finalmente percebi.

A nossa energia depois dos 60 não funciona em horas; funciona em ondas. Há um número limitado de blocos de concentração profunda, impulsos sociais e esforços físicos que conseguimos gastar num só dia antes de o sistema entrar em “alerta vermelho”.

Os dias longos não me estavam apenas a cansar. Estavam a inundar o meu sistema nervoso com hormonas do stress, a roubar-me o sono, a perturbar a digestão e a desgastar, em silêncio, a minha alegria.

Quando isto acontece uma vez, recuperamos. Quando acontece todas as semanas, começamos a pensar: “Isto é envelhecer.”

Muitas vezes, não é envelhecer. É má gestão.

A regra da energia que eu gostava de ter aprendido aos 40, e não aos 60

A regra é simples de dizer e difícil de aceitar.

Um pico por dia.

Nem três. Nem cinco. Um pico principal de energia. Um momento em que nos permitimos estar totalmente “ligados”: a grande reunião, a ida à cidade, três horas a tomar conta dos netos, a consulta médica longa que nos drena mais do que admitimos.

Todo o resto desse dia tem de ser em “lume brando”. Tarefas leves. Chamadas curtas. Comida simples. Conversas tranquilas.

Se hoje marco dois picos exigentes no mesmo dia, pago por isso. Se respeito a regra de um pico, acordo na manhã seguinte como uma pessoa outra vez - não como um limão espremido.

A parte mais difícil não é organizar o tempo. É lutar com o orgulho.

Crescemos numa cultura que admira quem “continua” e “não abranda”. Por isso sentimos culpa por precisar de descansar às 15h. Pedimos desculpa por sair de um jantar às 22h em vez de à meia-noite. Dizemos “Não é nada, estou bem” quando o nosso corpo está claramente a levantar as duas mãos.

Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias.

Todos acabamos por cair. Uns caem em silêncio, com exaustão crónica e irritabilidade. Outros caem de forma ruidosa, com um susto de saúde. O custo é sempre maior do que dizer uma frase pequena e firme: “Não consigo fazer as duas coisas no mesmo dia.”

No dia em que finalmente disse à minha filha: “Ou ajudo-te a mudar-te de manhã ou fico com as crianças à noite, mas não as duas coisas”, ela ficou em silêncio.
Depois disse: “Porque é que não me disseste isto mais cedo?”
Foi aí que percebi que eu não estava só a proteger a minha energia. Estava a ensinar a minha família a respeitá-la.

  • Escolha o seu pico
    Uma coisa grande por dia: exame médico, viagem longa, evento social, tarefa importante.
  • Proteja as margens
    As duas horas antes e depois do pico são sagradas: apenas tarefas leves, sem tempestades emocionais.
  • Planeie a recuperação como uma consulta
    Escreva: caminhada, sesta, leitura tranquila, refeição simples. Não trate isto como “opcional”.
  • Diga a frase simples
    “Posso fazer isto noutro dia” não é egoísmo. É manutenção.
  • Ouça os sinais precoces
    Aquela dorzinha de cabeça, o peito apertado, a impaciência súbita? Isso é o seu painel de instrumentos, não um incómodo.

O que muda quando finalmente respeita a sua energia

Há algo que muda no dia em que deixa de perguntar: “Porque é que estou tão cansada?” e começa a perguntar: “Em que é que me gastei hoje?”

Para mim, a primeira mudança foi uma honestidade brutal com a agenda. Peguei numa caneta e circulei os “dias vermelhos”: consultas médicas mais reuniões, viagens mais jantares de família, eventos sociais depois de longas deslocações. De repente vi um padrão que me recusava a ver: eu estava a programar a minha vida como se ainda tivesse 35 - e depois culpava o meu corpo de 62 por não acompanhar.

A partir daí, começaram as experiências.
Reuniões mais curtas. Manhãs mais lentas depois de noites tardias. Um compromisso social por fim de semana em vez de três.

A energia deixou de ser uma questão moral e passou a ser uma questão técnica. Não “Sou fraca?”, mas “Para onde foi o meu pico hoje?”

Reparei que conseguia aguentar uma manhã mentalmente intensa se a tarde fosse calma e prática - organizar papéis ou dobrar roupa. Conseguia passar três horas maravilhosas com os meus netos se não tentasse, ao mesmo tempo, enfiar compras do supermercado e chamadas telefónicas.

Estranhamente, fiquei mais presente. Menos dispersa. Menos ressentida. Quando dizia sim, era um sim verdadeiro - não um sim automático e cansado.
As pessoas à minha volta sentiram a diferença antes de eu a sentir.

Pode sentir medo ao ler isto, como se admitir esta regra significasse encolher a vida. Eu também senti isso.

Depois, um dia, numa quarta-feira suave, percebi algo: ao proteger a minha energia, os meus dias deixaram de parecer testes de resistência e voltaram a parecer dias de verdade. Uma caminhada tinha espaço para ser uma caminhada. Uma conversa tinha espaço para respirar.

Os dias longos ainda acontecem às vezes - a vida é a vida. A diferença agora é que são a exceção, não o guião.

Se tem mais de 60 e está constantemente exausto, talvez não esteja a “falhar no envelhecer”. Talvez esteja apenas a gastar a força de amanhã no horário de hoje.

E isso é algo que pode renegociar, assim que tiver coragem de dizer: “Um pico chega-me.”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Um pico por dia Limite-se a um grande esforço (físico, social ou emocional) num só dia. Reduz a exaustão e preserva energia consistente ao longo da semana.
Proteja as margens Mantenha as duas horas antes e depois do pico o mais calmas e simples possível. Evita sobrecarga de stress e dá tempo ao corpo para se ajustar.
Planeamento honesto Planeie a recuperação como uma consulta e diga claramente o que não consegue fazer. Ajuda a cumprir compromissos sem sacrificar saúde ou alegria.

FAQ:

  • É normal sentir-me mais drenado por dias longos depois dos 60?
    Sim. As alterações hormonais, a recuperação mais lenta e um sistema nervoso mais sensível tornam os dias intensos mais caros, mesmo que “na cabeça” se sinta jovem.
  • A regra de um pico significa que não posso ser ativo?
    Não. Significa equilibrar o dia: um grande esforço, rodeado de atividades mais leves e de menor stress, em vez de empilhar várias coisas exigentes.
  • O que conta como um “pico de energia”?
    Tudo o que o deixa mental, emocional ou fisicamente em alta rotação ou vazio: viagens longas, eventos cheios, consultas médicas, grandes decisões, tarefas domésticas pesadas.
  • Como explico isto à minha família sem parecer frágil?
    Descreva como gestão de energia: “Tenho o mesmo 100% de antes; só já não consigo gastá-lo todo numa tarde. Quero estar plenamente presente, não a meio gás.”
  • Consigo recuperar parte da resistência que perdi?
    Muitas vezes dá para melhorar com sono, exercício leve, alimentação e redução do stress. Mas respeitar o seu orçamento diário de energia continuará a ser importante, seja qual for a sua condição física.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário