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Sou psicólogo e esta é uma frase típica de quem reprime um trauma de infância.

Jovem a escrever num caderno sobre uma mesa de madeira, com chá quente e telemóvel ao lado.

Em conversa, soa inofensivo, quase educado.

No entanto, esta frase do dia a dia pode, discretamente, sinalizar uma ferida de infância enterrada.

Muitos adultos carregam cicatrizes dos primeiros anos sem se aperceberem totalmente disso. Funcionam, trabalham, criam filhos, mas algumas palavras que repetem, quase automaticamente, podem revelar uma história profunda que nunca ousaram tocar.

A frase aparentemente inofensiva que levanta um sinal de alerta

Os psicólogos muitas vezes ouvem menos o que as pessoas dizem e mais como dizem e com que frequência o dizem. Entre as frases recorrentes, há uma que se destaca para muitos clínicos que trabalham com trauma de infância.

“Não é nada de especial, há quem esteja pior do que eu.”

À superfície, parece modesta, até generosa. A pessoa parece alguém que não se queixa e mantém as coisas em perspetiva. No entanto, para muitos terapeutas, esta frase é um indício importante.

Muitas vezes esconde algo muito mais doloroso: uma tentativa de afastar, minimizar ou silenciar emoções que parecem demasiado intensas ou assustadoras para serem enfrentadas.

Porque minimizar a tua dor pode sinalizar um trauma antigo

Quando uma criança passa por algo doloroso e se sente sozinha com isso, raramente tem a linguagem ou o apoio para processar o que está a acontecer. Para sobreviver emocionalmente, a mente encontra truques.

Um dos truques mais comuns é a minimização: convencer-se de que “não é assim tão mau” ou de que “outros tiveram pior”. Esse pensamento torna-se um escudo.

A minimização funciona como um regulador de intensidade emocional. Baixa o volume da dor para que a pessoa consiga continuar a funcionar.

Anos mais tarde, o adulto mantém o mesmo reflexo. Perante aflição, desilusão, injustiça ou até abuso evidente, recua e diz: “Há pessoas em situações muito piores.”

Esta comparação pode parecer razoável. Na realidade, pode impedir a pessoa de reconhecer o seu próprio sofrimento, pedir ajuda ou estabelecer limites.

Situações do quotidiano em que a frase aparece

Esta frase costuma surgir em momentos pequenos, muito banais:

  • Depois de um comentário magoante de um parceiro ou de um pai/mãe: “Não é nada de especial, há quem passe por muito pior.”
  • Após um burnout ou um ataque de pânico: “Não devia queixar-me, ao menos tenho trabalho.”
  • Ao recordar episódios violentos ou humilhantes da infância: “Os meus pais fizeram o que puderam, não foi assim tão mau, algumas crianças eram espancadas muito mais.”
  • Depois de negligência médica ou bullying repetido: “Eu sobrevivi, por isso está tudo bem, estou a exagerar.”

Em cada caso, a mensagem emocional é a mesma: “O que eu senti não importa o suficiente para ser reconhecido.”

Sinais associados: quando a dor da infância molda o comportamento adulto

Os psicólogos referem que esta frase típica raramente aparece sozinha. Muitas vezes surge acompanhada de outras atitudes que também remetem para feridas precoces.

Culpa excessiva e pedidos de desculpa constantes

Adultos que foram magoados emocionalmente em crianças sentem-se frequentemente culpados por quase tudo. Pedem desculpa quando alguém esbarra neles. Dizem “desculpa” por expressarem uma necessidade, por fazerem uma pergunta ou por cometerem um pequeno erro.

No fundo, existe uma crença: “Se algo corre mal, deve ser culpa minha.” Esta crença muitas vezes vem de uma infância em que a criança foi culpabilizada, criticada ou responsabilizada pelas emoções dos adultos.

Sobre-adaptação: agradar sempre aos outros

Outro padrão frequente é a sobre-adaptação. A pessoa ajusta-se constantemente aos outros, muitas vezes à custa de si própria:

Comportamento Crença subjacente possível
Dizer sim a tudo no trabalho “Se recusar, vou ser rejeitado(a) ou criticado(a).”
Deixar que amigos ou família decidam tudo “Os meus desejos não importam.”
Esconder cansaço, tristeza ou raiva “Mostrar emoções é perigoso ou vergonhoso.”

Para a criança, esta estratégia tinha um propósito: manter-se em segurança, evitar conflitos, conservar o afeto de adultos imprevisíveis. Em adulto, a estratégia continua automaticamente, mesmo quando esse perigo já não existe.

Outras frases que muitas vezes revelam uma ferida escondida

Os terapeutas referem um conjunto de outras frases recorrentes que fazem soar o mesmo alarme que “não é nada de especial”:

  • “Não sou suficientemente bom/boa.”
  • “Nunca vou conseguir.”
  • “Não mereço este presente / este elogio.”

Estas expressões costumam andar associadas a baixa autoestima e a um sentimento profundo de indignidade. Quando alguém rejeita elogios ou bondade, não está apenas a ser modesto. Muitos sentem-se verdadeiramente desconfortáveis ao receber afeto, reconhecimento ou ajuda.

Rejeitar o amor pode ser uma forma de evitar a dor antiga de ter sentido a sua falta.

Se uma criança cresceu num ambiente em que a ternura era rara, condicional ou inconsistente, receber cuidado genuíno mais tarde na vida pode parecer suspeito, quase ameaçador. A mente protege-se afastando-o.

Como os gatilhos trazem o passado para o presente

Outro ponto-chave para compreender o trauma reprimido é o papel dos gatilhos. Um detalhe aparentemente trivial pode reabrir, de repente, uma ferida antiga.

Um cheiro, uma porta a bater, um certo tom de voz, uma frase como “para de exagerar” - qualquer uma destas coisas pode reativar a memória emocional de uma cena da infância.

O adulto sente uma vaga de ansiedade, vergonha, raiva ou tristeza que parece desproporcionada face à situação. Muitas vezes não entende a sua própria reação.

Nesse momento, muitos recorrem ao escudo habitual: “Não é assim tão grave, outros tiveram pior.” Esse reflexo evita ter de investigar por que motivo a reação foi tão intensa.

Quando a autoproteção se transforma em auto-silenciamento

Estas frases não são mentiras. São ferramentas de sobrevivência. Em tempos, ajudaram uma criança vulnerável a manter-se à tona num ambiente doloroso.

O problema surge quando as mesmas ferramentas continuam a comandar a vida adulta. O que antes protegia acaba por silenciar. A pessoa deixa de ouvir as suas necessidades, os seus limites, o seu sistema interno de alarme.

Minimizar a própria dor muitas vezes significa manter lealdade a um passado em que não era permitido sofrer abertamente.

O trabalho terapêutico muitas vezes começa exatamente aí: questionar com delicadeza estas frases automáticas, tratá-las não como verdades, mas como pistas. Por trás de “não é nada de especial” existe frequentemente uma história que finalmente precisa de ser ouvida.

Formas práticas de notar estes padrões em ti

Para quem se pergunta se usa estas frases como armadura, alguns exercícios simples podem ajudar.

Mantém um diário de “frases pequenas”

Durante uma ou duas semanas, regista situações em que dizes coisas como:

  • “Está tudo bem, outros estão pior.”
  • “Estou a exagerar.”
  • “A culpa é minha, como sempre.”

Escreve o que aconteceu imediatamente antes, o que sentiste no corpo (nó no estômago, tensão no maxilar, coração acelerado) e que reação reprimiste (raiva, choro, dizer não).

Este registo simples pode mostrar-te que a frase aparece muito mais vezes do que pensavas, e quase sempre quando algo magoa.

Experimenta a pergunta inversa

Quando deres por ti a dizer “não é assim tão mau”, imagina um amigo próximo a contar-te exatamente a mesma história. Pergunta a ti próprio(a):

  • Eu diria isso a essa pessoa?
  • Eu diria que ela está a exagerar?
  • Ou validaria o que ela sente?

A diferença entre a forma como te tratas e a forma como tratas os outros costuma evidenciar a regra antiga que interiorizaste em criança: “O meu sofrimento não conta.”

Termos-chave que ajudam a fazer sentido disto

Duas palavras surgem frequentemente neste contexto: repressão e adaptação.

Repressão significa afastar pensamentos, memórias ou emoções que parecem demasiado ameaçadores. Eles não desaparecem; passam para segundo plano e influenciam o comportamento de forma indireta.

Adaptação descreve todas as estratégias criativas que uma criança desenvolve para viver com circunstâncias difíceis: ser “demasiado simpática”, nunca se queixar, tornar-se o aluno perfeito, o engraçado, ou o invisível. Estes papéis são respostas engenhosas à dor, mas podem tornar-se sufocantes na idade adulta.

Reconhecer estes mecanismos não significa culpar os pais ou reescrever o passado a preto e branco. Permite sobretudo que os adultos ajustem a sua vida atual: pedir apoio, aprender a dizer não, aceitar que as suas emoções são válidas, mesmo que outros “tenham tido pior”.

No dia em que alguém deixa de dizer “não é nada de especial” e começa a dizer “na verdade, isto magoou-me”, a velha frase protetora finalmente cumpriu a sua função e pode começar a perder força.

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