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Sintomas subtis de cancro do fígado a vigiar antes que seja tarde, segundo especialistas.

Pessoa com a mão no estômago, escrevendo num caderno sobre uma mesa com legumes, fita métrica e smartphone.

Por esta altura, quando o cancro do fígado começa a causar problemas evidentes, as opções podem diminuir rapidamente. É por isso que os especialistas aconselham as pessoas em risco a prestar muita atenção a alguns sinais de alerta discretos e à saúde do fígado a longo prazo, mesmo quando tudo parece “normal”.

Porque é que o cancro do fígado muitas vezes passa despercebido até estar avançado

O cancro do fígado, sobretudo o carcinoma hepatocelular (CHC), raramente surge de forma súbita. Tende a avançar de forma silenciosa. Nas fases iniciais, pode não haver qualquer sintoma, ou apenas queixas vagas e comuns, fáceis de atribuir ao stress, à idade ou a uma vida agitada.

Os sinais iniciais do cancro do fígado são, em geral, subtis, inespecíficos e fáceis de desvalorizar - e é precisamente por isso que são perigosos.

Muitas vezes, os médicos diagnosticam tumores hepáticos por acaso, por exemplo durante uma ecografia pedida por outro motivo, ou apenas depois de a doença já ter atingido um estádio avançado. Nessa altura, a cirurgia ou o transplante hepático podem já não ser uma opção.

O risco é maior em pessoas cujo fígado já está danificado. Hepatite crónica B ou C, consumo excessivo de álcool durante muitos anos e cicatrização avançada do fígado (cirrose) criam um terreno fértil para células cancerígenas crescerem silenciosamente.

Sintomas subtis que nunca devem ser ignorados

Nenhum destes sinais prova que alguém tem cancro do fígado. Podem resultar de muitas outras condições, desde cálculos biliares a síndrome do intestino irritável. A preocupação aumenta quando são persistentes, progressivos ou surgem em alguém com doença hepática conhecida ou fatores de risco importantes, como obesidade, diabetes tipo 2 ou consumo elevado de álcool.

Sinais do dia a dia que podem apontar para um problema mais profundo

  • Cansaço invulgar: uma fadiga intensa e contínua que não melhora com sono ou descanso.
  • Perda de peso não intencional: perder quilos sem fazer dieta ou aumentar o exercício.
  • Perda de apetite: sentir-se saciado após poucas garfadas, ou simplesmente não ter vontade de comer.
  • Náuseas ou desconforto digestivo: enjoo, sobretudo após as refeições, que volta repetidamente.
  • Dor surda ou pressão do lado direito: desconforto logo abaixo das costelas direitas ou na parte superior do abdómen.
  • Inchaço abdominal: barriga distendida ou aumentada que não corresponde ao peso corporal global.

Estes sintomas podem surgir gradualmente. Alguém pode reparar que as calças estão mais apertadas na cintura ou que está a saltar refeições sem intenção. Muitos atribuem isto ao envelhecimento ou a um ritmo de vida intenso.

Sinais de que o fígado está em dificuldades

À medida que a função hepática diminui, podem aparecer alterações mais visíveis.

  • Amarelecimento da pele ou dos olhos (icterícia): sinal de acumulação de pigmentos biliares no organismo.
  • Urina escura e fezes claras: alterações de cor que refletem um fluxo biliar alterado.
  • Comichão na pele: prurido generalizado sem erupção cutânea evidente.
  • Inchaço das pernas ou dos tornozelos: retenção de líquidos devido a insuficiência hepática e alterações do fluxo sanguíneo.
  • Nódoas negras fáceis ou hemorragias nasais: a função do fígado na coagulação fica comprometida.

Qualquer pessoa com doença hepática conhecida que desenvolva nova icterícia, aumento do inchaço abdominal ou perda de peso súbita deve procurar aconselhamento médico rapidamente.

O papel crescente da doença hepática “metabólica”

Durante anos, o cancro do fígado esteve sobretudo associado a consumo excessivo de álcool ou a pessoas com vírus da hepatite. Esse cenário está a mudar rapidamente. Nos países industrializados, uma proporção crescente de casos está ligada ao que os especialistas chamam doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), anteriormente conhecida como doença hepática gordurosa não alcoólica, e à sua forma agressiva, a NASH.

Em termos simples, trata-se de “fígado gordo metabólico”, impulsionado por excesso de peso, diabetes tipo 2, hipertensão e colesterol anormal. A gordura acumula-se nas células do fígado, desencadeia inflamação e fibrose. Com o tempo, este dano pode evoluir para cancro, por vezes mesmo antes de a cirrose estar totalmente estabelecida.

Isto cria um ponto cego: muitas pessoas com fígado gordo não fazem ideia de que o órgão está sob pressão. Podem não beber muito álcool e ter 40 ou 50 anos, trabalhando, criando filhos e sentindo-se, em geral, bem. As consultas de rotina nem sempre incluem exames de imagem ao fígado ou uma avaliação de risco específica, pelo que tumores potenciais podem ficar ocultos durante anos.

Quem deve estar particularmente atento?

Os especialistas tendem a assinalar os seguintes perfis como necessitando de vigilância mais apertada, sobretudo quando vários se aplicam em simultâneo:

Fator de risco Porque é importante
Hepatite crónica B ou C A infeção viral prolongada danifica as células do fígado e aumenta acentuadamente o risco de cancro.
Cirrose (qualquer causa) A cicatrização e regeneração do tecido hepático criam um terreno fértil para tumores.
Diabetes tipo 2 Associada a fígado gordo, inflamação e stress metabólico sobre o órgão.
Obesidade e gordura abdominal A gordura visceral promove disfunção metabólica e fígado gordo.
Consumo elevado e prolongado de álcool Lesão tóxica direta nas células hepáticas e promoção de cirrose.
História familiar de cancro do fígado Pode indicar fatores de estilo de vida, virais ou genéticos partilhados.

Os médicos estão agora a desenvolver escalas de risco que combinam idade, sexo, análises ao sangue e historial clínico para identificar indivíduos de alto risco antes de o cancro surgir. O objetivo é simples: garantir que quem precisa de exames de vigilância os recebe de facto.

Rastreio que pode detetar cancro quando ainda é curável

Quando as pessoas certas são monitorizadas, o cancro do fígado torna-se muito menos mortal. Uma ecografia a cada seis meses, por vezes combinada com um marcador sanguíneo chamado AFP (alfa-fetoproteína), pode revelar tumores pequenos quando ainda são operáveis.

Se um tumor for encontrado cedo, a cirurgia ou o transplante hepático podem curar mais de metade dos doentes - por vezes muitos mais.

O obstáculo não é a tecnologia. A ecografia é amplamente disponível e relativamente barata. O verdadeiro desafio é organizacional: identificar quem deve ser rastreado, convencê-lo a comparecer regularmente e garantir que resultados anormais são rapidamente acompanhados.

Como o tratamento está a evoluir para além da quimioterapia clássica

As opções de tratamento do cancro do fígado mudaram drasticamente na última década. A cirurgia e o transplante hepático continuam a ser as principais opções curativas quando o tumor é limitado e o restante fígado está relativamente saudável. Técnicas locais como a ablação por radiofrequência ou a radioterapia direcionada podem destruir tumores mais pequenos.

Para doença avançada, os médicos recorrem muito menos à quimioterapia tradicional. Terapias dirigidas, que bloqueiam sinais específicos de crescimento nas células cancerígenas, e imunoterapias, que ajudam o sistema imunitário a atacar tumores, têm um papel cada vez maior. Estes medicamentos não funcionam para toda a gente, mas prolongaram a sobrevivência e melhoraram a qualidade de vida de muitos doentes que anteriormente tinham poucas opções.

Os investigadores também estão a testar ferramentas altamente inovadoras. Sondas fluorescentes pretendem fazer as células cancerígenas “brilharem” durante a cirurgia, para que os cirurgiões as removam com maior precisão. Projetos experimentais de nanomedicina tentam entregar instruções genéticas diretamente às células hepáticas doentes, usando partículas lipídicas semelhantes às utilizadas em algumas vacinas contra a Covid.

Medidas que as pessoas podem tomar para reduzir o risco

Embora nem todos os casos sejam preveníveis, várias medidas práticas podem reduzir a probabilidade de desenvolver cancro do fígado ou adiá-lo no tempo.

  • Vacinar e tratar hepatites virais: a vacinação contra a hepatite B protege as gerações futuras; os fármacos modernos conseguem curar a maioria das infeções por hepatite C.
  • Limitar o consumo de álcool: beber muito e com regularidade é uma das vias mais rápidas para a cirrose.
  • Controlar o peso e a glicemia: perder mesmo 5–10% do peso corporal pode reduzir o fígado gordo e a inflamação.
  • Manter atividade física: caminhar, andar de bicicleta ou nadar regularmente melhora a sensibilidade à insulina e o metabolismo da gordura no fígado.
  • Apostar numa alimentação equilibrada: privilegiar legumes, cereais integrais, leguminosas, peixe e porções moderadas de gorduras animais e açúcar.

Alguns estudos sugerem que o consumo moderado de café pode reduzir modestamente o risco de cancro do fígado, provavelmente devido aos seus efeitos nas enzimas hepáticas e na inflamação. Medicamentos comuns usados para diabetes e colesterol também estão a ser estudados por possíveis efeitos protetores, embora a evidência ainda esteja em análise e nunca devam ser tomados apenas com esse objetivo.

Como pode ser, na prática, uma abordagem “vigilante”

Imagine um trabalhador de escritório de 52 anos com diabetes tipo 2, hipertensão e um índice de massa corporal de 32. Bebe socialmente e sente-se bem. As análises de rotina mostram enzimas hepáticas ligeiramente elevadas, mas nada alarmante. Em muitos casos, essa pessoa ouviria para “vigiar o peso” e seria proposta uma repetição das análises no ano seguinte.

Uma abordagem mais proativa seria diferente: uma ecografia para verificar fígado gordo, uma conversa franca sobre o risco de progressão e aconselhamento claro sobre mudanças de estilo de vida. Se surgirem sinais de fibrose avançada, poderia ser incluída num programa de vigilância regular com exames a cada seis meses. Essa simples mudança pode fazer a diferença entre detetar um tumor pequeno e curável e enfrentar uma massa inoperável anos mais tarde.

Compreender alguns termos-chave

A medicina hepática está cheia de jargão, o que pode tornar confusas as conversas com clínicos. Algumas palavras surgem frequentemente:

  • Carcinoma hepatocelular (CHC): o cancro primário do fígado mais comum, com origem nas principais células do fígado, os hepatócitos.
  • Cirrose: cicatrização avançada do fígado, com nódulos de tecido danificado a substituir células saudáveis.
  • Esteatose: acumulação simples de gordura no fígado; por vezes inofensiva, por vezes o primeiro passo para inflamação.
  • NASH: forma de doença hepática gordurosa em que inflamação e lesão celular acompanham depósitos de gordura, aumentando o risco de cancro.

Quem já vive com doença hepática, ou quem se reconhece nos perfis de risco acima, pode colocar ao seu médico de família uma pergunta simples: “Preciso de rastreio regular para cancro do fígado?” Essa única conversa pode desencadear uma cadeia de medidas protetoras - desde marcações de ecografia a referenciações para centros especializados - muito antes de sintomas discretos terem hipótese de se transformar numa urgência.

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