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Segundo os observadores de aves, este fruto de inverno atrai repetidamente os pisco-de-peito-ruivo aos jardins durante os meses frios.

Pisco-de-peito-ruivo perto de pêssegos numa mesa de jardim, com casa de pássaros ao fundo.

O jardim parecia meio adormecido naquela manhã de janeiro. A geada envernizava as lajes do caminho, o bebedouro das aves era um disco sólido de gelo, e todos os arbustos pareciam estar a suster a respiração. Envolvi as mãos numa caneca de café e disse para comigo: “Hoje não se mexe nada lá fora.” Então uma pequena silhueta saltou para a vedação, brilhante como uma brasa caída. Um pisco-de-peito-ruivo.

Inclinou a cabeça, avaliou os comedouros vazios e disparou diretamente para a única explosão de cor que restava no jardim: uma macieira-brava, com ramos ainda carregados de pequenos frutos vermelhos e enrugados. A ave bicou um, engoliu-o, depois outro, e outro. Em poucos minutos, apareceram mais dois piscos-de-peito-ruivo, a deslizar por entre os ramos como se tivessem estado ali todo o inverno.

Foi então que percebi: alguma fruta de inverno é, basicamente, um cartão de fidelização para piscos-de-peito-ruivo.

A fruta de inverno que os piscos-de-peito-ruivo adoram mais do que a mistura do comedouro

Pergunte a observadores de aves que planta mantém os piscos-de-peito-ruivo a voltar nos meses frios e eles apontam discretamente para a mesma coisa: as maçãs-bravas. Não as grandes e lustrosas do supermercado, mas aqueles cachos de frutos minúsculos, vermelho-rubi, que se agarram aos ramos nus muito depois de as folhas caírem. Quando tudo o resto murchou ou virou papa, uma macieira-brava é como uma mercearia com a luz acesa numa rua escura.

Os piscos sabem disso. Aprendem onde pendem calorias fiáveis no inverno e registam esses locais num mapa mental. E, enquanto nós nos preocupamos com misturas de sementes e comedouros sofisticados, há esta árvore humilde, um pouco desgrenhada, a fazer o verdadeiro trabalho pesado nos bastidores.

Uma professora reformada no Derbyshire contou-me que contabilizava apenas três visitas de piscos por semana antes de plantar a sua macieira-brava. Dois invernos depois, deixou de contar algures pelas trinta por dia. “Fazem fila”, riu-se, “como pessoas à porta de uma padaria.” A árvore, agora mais ou menos à altura da cabeça, estava carregada de frutos do tamanho de berlindes, cada um a amolecer com a geada.

Numa tarde cinzenta, enviou-me uma fotografia: quatro piscos num só enquadramento, espalhados pelos ramos como enfeites que alguém se esqueceu de tirar. Sem câmara sofisticada, sem esconderijo elaborado - apenas uma árvore à janela da cozinha e uma escolha de planta que mudou silenciosamente a personalidade do seu jardim.

Há uma razão simples para as maçãs-bravas conseguirem isto. Estes pequenos frutos aguentam-se durante meses, amadurecendo devagar e ficando mais doces a cada ciclo de gelo-degelo, à medida que o amido se transforma em açúcares. Para um pisco que gasta energia só para se manter quente, esse pico de açúcar vale ouro.

Ao contrário de bagas macias que desaparecem no início do inverno, as maçãs-bravas ainda podem lá estar em janeiro e fevereiro, precisamente quando a comida natural é mais escassa. Os ramos oferecem abrigo rápido contra predadores, o fruto tem tamanho de bocado, e as maçãs caídas no chão atraem insetos e minhocas quando a temperatura sobe. Do ponto de vista de um pisco, é uma despensa de inverno inteira num único tronco.

Como usar maçãs-bravas para “treinar” piscos-de-peito-ruivo a voltar ao seu jardim

A forma mais fácil de transformar o seu jardim numa paragem obrigatória para piscos é plantar uma macieira-brava com frutos pequenos e persistentes. Pense em variedades com maçãs do tamanho de cerejas que se agarram aos ramos, e não naquelas que deixam cair tudo ao primeiro golpe de vento. Jardineiros mencionam frequentemente ‘Evereste’, ‘Red Sentinel’ ou ‘Golden Hornet’ como escolhas fiáveis para as aves.

Escolha um local soalheiro onde consiga ver a árvore a partir de casa. Quer essas visitas de inverno mesmo no seu campo de visão, e não escondidas atrás do barracão. Plante no outono ou no início da primavera, regue bem no primeiro ano e depois, em grande parte, deixe-a viver a sua vida. Árvore pequena, grande retorno.

Muita gente assume que não tem espaço para uma árvore de fruto e depois descobre que as macieiras-bravas podem ser surpreendentemente compactas. Muitas ficam entre 2 e 4 metros, e pode podar ligeiramente para as manter bem compostas e arejadas. O truque é não entrar em pânico e podar em excesso sempre que ela parecer um pouco “selvagem”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Vai esquecer-se, vai andar ocupado, e está tudo bem. Só evite cortar, no fim do verão, todos os ramos que vão frutificar, ou vai sabotar a colheita do próximo inverno. Pense em “modelação suave”, não em “corte radical”.

Alguns observadores de aves juram que a magia acontece mesmo quando combina maçãs-bravas com uma rotina de inverno descontraída e ligeiramente desarrumada. Isso pode significar deixar alguns frutos caídos no chão, ou resistir à tentação de limpar cada última folha em novembro. Os piscos gostam de algum caos no solo; isso esconde os invertebrados que procuram quando não estão a bicar fruta.

“Quando as maçãs-bravas amolecem com a geada, é aí que os piscos se instalam”, diz a observadora amadora Louise Grant, que regista avistamentos de inverno para o seu grupo local. “Se eu tivesse de abdicar de todos os comedouros ou daquela árvore, largava os comedouros sem pestanejar.”

  • Escolha uma variedade de macieira-brava de fruto pequeno e persistente
  • Plante num local onde seja fácil observar a partir de casa
  • Pode ligeiramente, mantendo muitos esporões de frutificação
  • Deixe algum fruto caído e alguma folhada no inverno
  • Combine com outros arbustos de bagas para mais interesse no inverno

Porque é que esta única escolha muda a forma como o inverno no seu jardim se sente

Quando começa a reparar em que jardins têm macieiras-bravas, também repara em que jardins mantêm os seus piscos todo o inverno. Há uma mudança subtil que acontece quando um espaço nu e cinzento ganha, de repente, movimento: um lampejo de peito laranja-avermelhado, aquela postura ousada num ramo gelado. Os piscos são famosos por serem territoriais, por isso, quando um adota a sua árvore, muitas vezes permanece visível e vocal, tornando-se parte do cenário diário.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que o jardim parece completamente morto em janeiro e nos perguntamos por que razão nos damos ao trabalho. Depois, algo tão pequeno como uma ave a puxar por um fruto congelado volta a ligar-nos à história do nosso próprio espaço. Sente menos que está a olhar para um terreno dormente e mais que o está a partilhar com um vizinho que, por acaso, tem asas.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Escolher maçãs-bravas Variedades de fruto pequeno e persistente alimentam os piscos em pleno inverno Maior probabilidade de visitas repetidas quando a comida é escassa
Plantar para visibilidade Posicionar a árvore perto de janelas ou zonas de estar Encontros diários e de perto com a vida selvagem, no conforto de casa
Permitir alguma “desarrumação de inverno” Deixar alguns frutos e folhas no chão Mais locais de alimentação para piscos e maior biodiversidade no geral

FAQ:

  • Os piscos-de-peito-ruivo comem todos os tipos de maçãs-bravas? Tendem a preferir frutos mais pequenos que amolecem no ramo, sobretudo após algumas geadas. Tipos muito grandes ou rijos como pedra são menos apelativos, por isso procure variedades ornamentais conhecidas por atrair aves.
  • Uma única macieira-brava faz mesmo diferença? Sim. Uma árvore bem colocada pode tornar-se uma fonte alimentar-chave no inverno, especialmente em zonas urbanas ou suburbanas com pouca oferta natural. Muitos observadores relatam um aumento claro da atividade de piscos em duas ou três estações.
  • Quanto tempo demora até os piscos começarem a usar a árvore? A maioria das macieiras-bravas começa a frutificar em dois a quatro anos, por vezes mais cedo se comprar um exemplar um pouco maior. Quando tiver uma carga de fruto razoável, os piscos locais costumam encontrá-la dentro de uma ou duas estações.
  • Posso cultivar maçãs-bravas num vaso? Algumas variedades anãs toleram recipientes grandes, embora precisem de rega e adubação regulares. A frutificação costuma ser melhor no solo, mas um vaso grande numa varanda ou pátio pode, ainda assim, atrair piscos se houver abrigo nas proximidades.
  • Ainda preciso de comedouros de sementes se plantar macieiras-bravas? Não tem de escolher. As maçãs-bravas fornecem alimento natural e sazonal, enquanto os comedouros acrescentam variedade e ajudam outras espécies como tentilhões e chapins. Em conjunto, criam um jardim de inverno mais rico e ativo.

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