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Segundo observadores de aves, há um fruto de inverno que faz os tordos regressarem sempre ao seu jardim.

Mão segura maçã fatiada sobre mesa de madeira com pássaro e malmequer, prato de maçãs e galho com bagas vermelhas.

O primeiro pisco-de-peito-ruivo aterra antes mesmo de a chaleira ferver. Aquele salto suave e aos pulinhos pelo relvado coberto de geada, o olho vivo a espreitar cada canto do teu jardim como se fosse o dono do lugar. Pensas que foram as migalhas na mesa das aves que o trouxeram, ou o solo rico em bichinhos onde ontem revolveste o composto.

Mas o olhar dele continua a erguer-se, vezes sem conta, para um único sítio.

Junto à vedação do fundo, uma árvore pequena e desgrenhada ainda guarda um punhado de frutos vermelhos, a brilhar contra o céu cinzento. O pisco voa, pousa, bicando aqui e ali, e de repente o jardim silencioso volta a ter pulsação.

No dia seguinte, está de volta. E no outro. À medida que os dias arrefecem, os visitantes tornam-se mais ousados.

Há um fruto de inverno que os faz regressar.

O íman secreto do inverno: porque é que os observadores de aves juram pelas maçãs-bravas

Pergunta a um grupo de observadores de aves de jardim o que mantém os piscos fiéis a um jardim no coração do inverno, e ouvirás a mesma resposta, dita com um sorriso de quem sabe: maçãs-bravas. Não as maçãs brilhantes do supermercado em cima da bancada da cozinha, mas os frutos pequenos, como joias, que se agarram teimosamente à árvore quando quase tudo o resto já caiu.

Aos olhos humanos, em janeiro, podem parecer um pouco abandonadas - enrugadas e sem brilho por causa da geada. Para um pisco, são uma tábua de salvação. Um buffet pronto a usar, ainda pendurado lá em cima quando as minhocas estão fundas e o relvado está duro como pedra.

Numa rua sossegada em Derbyshire, a professora reformada e observadora de aves entusiasta Angela mantém uma macieira-brava antiga num canto do seu pequeno jardim. Plantou-a há anos pelas flores, a pensar mais na primavera do que no inverno.

Hoje em dia, diz que quase não precisa de comedouro. “A partir de dezembro, tenho o mesmo par de piscos todas as manhãs”, contou-me ela, a ver um deles bicar um fruto meio congelado. “Se o tempo fica mesmo mau, aparecem três ou quatro. Ficam nos ramos à espera da vez. Eles conhecem esta árvore.”

O caderno dela do inverno passado mostra isso com clareza: nos dias mais frios, as observações de piscos duplicavam sempre que ainda havia maçãs-bravas penduradas.

Os especialistas dizem que é uma mistura de energia e fiabilidade. As maçãs-bravas são ricas em açúcares e hidratos de carbono e, à medida que amolecem ao longo do inverno, tornam-se mais fáceis de comer. Quando os insetos desaparecem e o solo “fecha”, aquele impulso de açúcar ajuda-os a aguentar as noites geladas.

Há outro detalhe que a maioria de nós não repara. As macieiras-bravas seguram os frutos durante meses, sobretudo as variedades de fruto pequeno. Enquanto outras bagas já foram rapadas por tordos e melros antes do Natal, aquelas maçãzinhas teimosas muitas vezes aguentam até fevereiro.

Para um pisco que se lembra onde encontrou comida na semana passada, essa consistência vale ouro.

Como transformar o teu jardim num café de inverno para piscos

Se queres que os piscos mantenham o teu jardim no mapa pessoal deles, começa por onde plantas a macieira-brava. Os observadores sugerem colocá-la num sítio facilmente visível de uma janela, mas perto de algum abrigo: uma sebe, um arbusto denso, ou uma vedação onde uma ave pequena possa mergulhar se aparecer um gato.

Escolhe uma variedade que conserve fruto até ao inverno, como ‘Red Sentinel’ ou ‘Golden Hornet’. Produzem imensos frutos pequenos que ficam nos ramos muito depois de as folhas caírem. Planta num local de sol a meia-sombra ligeira e não te preocupes por não teres um jardim grande. Uma macieira-brava encaixa discretamente num canto, ou até num vaso grande durante alguns anos.

A maioria das pessoas assume que atrair piscos é só manter os comedouros cheios, mas uma macieira-brava trabalha em silêncio nos bastidores. No outono, resiste à vontade de arrumar até ao último fruto caído. Deixa alguns no chão debaixo da árvore; os piscos andam felizes aos pulinhos e alimentam-se tanto de baixo como de cima.

Um erro comum é podar demasiado no fim do inverno e arrancar ramos carregados de fruto precisamente quando as aves mais precisam. Uma poda ligeira para dar forma está bem, mas guardar os raminhos mais frutificados até as aves terem a sua parte faz mesmo diferença. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar, mas pequenas mudanças com intenção também contam.

Jardineiros que já têm macieiras-bravas descrevem muitas vezes a mesma rotina suave quando começam as geadas.

“Em manhãs mesmo frias, parto alguns frutos nos ramos”, diz Mark, um observador amador com um jardim citadino estreito em Leeds. “Depois de congelarem e descongelarem, ficam um bocado moles. Os piscos entram logo quando veem as partes suculentas expostas.”

Para tornares o teu jardim ainda mais apetecível em dias difíceis, muitos observadores gostam de juntar à macieira-brava alguns extras simples:

  • Espalha uma pequena mão-cheia de passas demolhadas ou maçã cortada por baixo da árvore em manhãs de gelo.
  • Coloca por perto um prato raso com água fresca, renovada diariamente quando não está completamente congelada.
  • Deixa uma mancha de folhas secas debaixo dos ramos para insetos e abrigo.
  • Evita usar iscos para lesmas/caracóis ou químicos agressivos que possam envenenar a cadeia alimentar do pisco.
  • Mantém um canto ligeiramente “selvagem” para que as aves se sintam mais seguras a ficar por perto.

Uma árvore pequena, um inverno longo e a ligação silenciosa com um pisco

Há algo discretamente reconfortante em saber que, enquanto tu vestes mais uma camisola dentro de casa, uma ave pequena tem uma fonte de alimento fiável mesmo ali do outro lado do vidro. Uma macieira-brava não é uma árvore vistosa. Floresce, frutifica, perde folhas, fica ali - e faz simplesmente o seu trabalho.

E, vezes sem conta, os observadores notam o mesmo: jardins com fruto que se mantém no inverno, sobretudo maçãs-bravas, permanecem vivos durante mais tempo na estação. O canto regressa mais cedo após uma vaga de frio. O jardim parece observado e, de certa forma estranha, partilhado.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que o jardim parece sem cor e nos perguntamos se estará mesmo a acontecer alguma coisa lá fora. Então um pisco aparece, inclina a cabeça e vai direito àquele cacho de frutos vermelhos. Um brilho suave de laranja num mundo cinzento. Essa pequena cena é muitas vezes o que as pessoas recordam do seu inverno, mais do que a previsão do tempo ou a conta do gás.

Não precisas de um grande orçamento, de um relvado perfeito, nem de uma fila de comedouros “de designer”. Só de uma árvore modesta, alguma paciência e a disponibilidade para deixar alguns frutos enrugados pendurados, muito depois de achares que já passaram o seu momento.

Quando começas a prestar atenção, vês o padrão. Piscos a regressar depois de uma geada forte. A mesma ave a usar o mesmo ramo ao primeiro clarão do dia. O bicar tranquilo num fruto que quase deste como “perdido”.

Plantar uma macieira-brava é um gesto pequeno, mas estende-se por anos de invernos, por aves diferentes, por manhãs cedo que ainda não viveste. Podes começar com o simples desejo de ver mais peitos vermelhos a saltitar pelos canteiros. Podes acabar com um jardim que, silenciosamente, sustenta vida durante os meses mais duros do ano.

A árvore não pede muito. O pisco também não. E, quando essa ligação se cria, é difícil não sentires alguma responsabilidade de a manter.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As maçãs-bravas alimentam os piscos no inverno Frutos pequenos ficam nos ramos e amolecem após a geada Ajuda a manter os piscos a visitar quando outras fontes de alimento desaparecem
A localização de plantação importa Perto de abrigo, visível de casa, com variedades que mantêm fruto no inverno Torna o jardim mais seguro e mais atrativo para aves tímidas
Cuidados suaves e sazonais funcionam melhor Poda ligeira, deixar algum fruto caído, combinar com água e abrigo Hábitos simples que aumentam a vida de aves sem grande esforço

FAQ:

  • Que tipo de macieira-brava é que os piscos preferem? Os observadores recomendam variedades com muitos frutos pequenos que se mantêm até ao inverno, como ‘Red Sentinel’, ‘Golden Hornet’ ou ‘Evereste’.
  • Uma macieira-brava atrai outras aves também? Sim. É provável veres melros, tordos, jambornas (em algumas regiões) e até tentilhões a visitar pelos frutos e pelos insetos.
  • Posso cultivar uma macieira-brava num jardim pequeno? Muitas mantêm-se compactas e podem ser podadas para controlar o tamanho; algumas árvores jovens aguentam-se num recipiente grande durante vários anos.
  • Ainda preciso de comedouros se tiver uma macieira-brava? Os comedouros são um complemento útil, sobretudo com frio intenso, mas uma árvore com fruto oferece alimento mais natural e variado, além de abrigo.
  • Quanto tempo demora até os piscos começarem a usar uma macieira-brava nova? A floração e os frutos podem surgir em poucos anos e, quando o fruto passa a ser fiável, os piscos locais aprendem rapidamente a incluí-la nas rotas de inverno.

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