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Segundo a psicologia, quem cresceu nos anos 60 e 70 desenvolveu 9 forças mentais hoje em dia pouco comuns.

Mãos ajustam rádio antigo em mesa com caderno aberto, copo de água com limão e pequena planta ao lado da janela.

Num domingo à tarde tranquilo, um homem no final dos seus sessenta anos estava parado num corredor de supermercado, a olhar para prateleiras com 40 tipos diferentes de iogurte. Riu-se e disse para ninguém em particular: “No meu tempo, havia duas escolhas: com açúcar ou sem.” Uma adolescente ali perto levantou os olhos do telemóvel, meio divertida, meio estupefacta, como se ele tivesse mencionado dinossauros. À volta deles, a loja zumbia com música de fundo, promoções e notificações a vibrar nos bolsos. O homem mais velho parecia estranhamente calmo no meio de todo aquele ruído, como se tivesse aprendido há muito tempo a não se deixar esmagar pelo fluxo constante de opções e alertas.
Esquecemo-nos disto: crescer com menos moldou um tipo de mente muito diferente.

1. Tolerância ao tédio num mundo que não suporta o silêncio

Se cresceste nos anos 60 ou 70, conhecias o tédio como um vizinho teimoso. Salas de espera com revistas desactualizadas, longas viagens de carro a olhar pela janela, tardes em que “não há nada para fazer” significava inventar um jogo com um pau e uma pedra. Não havia uma fuga instantânea no bolso, nem um scroll infinito para distrair o cérebro a cada 15 segundos. Essa exposição repetida ao “não se passa nada” não era apenas aborrecida - era treino.
Os psicólogos falam hoje da tolerância ao tédio como um músculo mental. Quem foi criança nessa altura fortaleceu-o, sem saber, todos os dias.

Pergunta a alguém nascido em 1965 como era um domingo quando tinha 10 anos. Vão falar-te de se deitarem no chão a ouvir o mesmo disco de vinil pela quinta vez. Ou de esperar junto ao telefone, porque um amigo disse que “talvez ligasse”. Ou de ir no banco de trás durante horas em viagens de família, sem tablets - só jogos de estrada e a paisagem a passar. Muitos lembram-se de aprender a sonhar acordados, a imaginar histórias, a desenhar, a escrever cartas que nunca enviaram.
Os dados de hoje são claros: a estimulação digital constante encurta a capacidade de atenção e aumenta o desconforto quando não está a acontecer nada.

Do ponto de vista psicológico, este tédio repetido funcionava como uma terapia de exposição de baixa intensidade. O cérebro aprendia: “Eu aguento tempo vazio. Não preciso de fugir dele.” Isto tem consequências mais tarde. Pessoas criadas nos anos 60 e 70 mostram muitas vezes maior capacidade de trabalho profundo, hobbies com foco e escuta paciente. Conseguem ficar com os próprios pensamentos sem entrar em pânico. Não porque sejam moralmente superiores, mas porque o ambiente moldou um sistema nervoso que não espera entretenimento permanente. A infância treinou-as a permanecer presentes quando nada brilha.

2. Robustez emocional nascida do conforto adiado

Outra força mental forjada nessa era cabe numa ideia simples: esperavas. Esperavas pela tua série preferida porque passava uma vez por semana. Esperavas que as fotografias fossem reveladas. Esperavas meses por notícias de um primo no estrangeiro. Esse ritmo criava uma familiaridade profunda com a gratificação adiada. Hoje falamos de controlo de impulsos em consultórios de terapia e sessões de coaching. Na altura, isso vinha embutido no quotidiano.
Esse andamento lento moldava uma certa robustez emocional: a frustração era normal; a paciência não era uma virtude - era sobrevivência.

Imagina um adolescente em 1974 a poupar para um gira-discos. Fazia biscates, juntava moedas, contava e recontava as poupanças num envelope. Quando finalmente chegava à loja, a compra trazia uma história, esforço e antecipação. Muitos lembram-se da emoção de finalmente terem aquele objecto precioso, sabendo que esperaram e trabalharam. Os psicólogos ligam este tipo de esforço sustentado a uma auto-regulação mais forte e a um limiar mais alto para a desilusão. Não tinhas tudo de uma vez - e também aprendias que não morrias por não ter. Parece pequeno, mas constrói silenciosamente resiliência contra a cultura de hoje do “agora ou nada”.

De um ângulo psicológico, o ambiente dos anos 60–70 oferecia micro-lições constantes de regulação do desejo. Cada “ainda não” era um pequeno treino emocional. Isso não significa que toda a gente dessa era seja perfeitamente paciente, claro. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. Mas, enquanto geração, muitos trazem uma noção incorporada de que a frustração é tolerável - e até utilizável. Isto torna-se precioso num mundo onde uma internet lenta ou uma resposta tardia pode disparar picos de ansiedade. O sistema nervoso deles conhece outra verdade: esperar raramente te mata - e, por vezes, aprofunda o prazer.

3. Auto-suficiência silenciosa que não faz alarde

Uma outra força que se destaca em quem cresceu nessas décadas é uma espécie de auto-suficiência silenciosa. Muitas crianças nos anos 60 e 70 cozinhavam refeições simples, iam a pé para a escola sozinhas, arranjavam a corrente da bicicleta, cosiam botões. Os pais não estavam a seguir localizações em telemóveis. Os vizinhos não enviavam mensagens a perguntar se estava tudo bem. Saías de manhã e voltavas quando acendiam os candeeiros da rua. Essa liberdade misturava-se com risco, sim, mas ensinava algo precioso ao teu cérebro: “Eu consigo desenrascar-me.”
Os psicólogos chamam a este sentido de capacidade interna “auto-eficácia” - a crença de que as tuas acções contam e que não és totalmente impotente.

Ouve as histórias dessa geração e surge um padrão. O radiador avariado que o pai arranjou com ferramentas improvisadas. O adolescente que apanhou boleia para ir a um concerto porque não havia transporte. O grupo de miúdos que construiu uma casa na árvore com madeira encontrada e pregos enferrujados, sem qualquer tutorial no YouTube. Nem tudo era seguro, nem tudo era sensato, mas o sistema nervoso registava essas memórias. Cada pequeno sucesso, cada problema resolvido sem intervenção adulta, escavava um sulco mais fundo: “Da próxima vez, também vou conseguir.” Hoje, muitos adultos criados nessa época mostram uma capacidade notável de manter a calma em pequenas crises - simplesmente porque viveram tantos momentos de “resolve aí”.

Do ponto de vista da saúde mental, isto importa. Um forte sentido de auto-eficácia está ligado a menos ansiedade, melhores estratégias de coping e mais perseverança. Quem nasceu mais tarde também o pode construir, claro - mas muitas vezes tem de lutar contra uma cultura de assistência constante e “há uma app para isso”. Nos anos 60 e 70 havia muito menos redes de segurança e atalhos. Isso não criou super-heróis. Criou pessoas comuns com uma crença dura e silenciosa de que não são impotentes face à vida quotidiana. Essa crença é um dos recursos psicológicos mais raros num mundo hiper-automatizado.

4. Como voltar a ligar-se a estas forças raras hoje

A boa notícia é que não precisas de uma máquina do tempo nem de uma lâmpada de lava para voltares a tocar nestas forças dos anos 60–70. Podes “emprestar” os seus campos de treino psicológicos. Começa pequeno. Marca tempo “aborrecido” sem ecrãs: uma caminhada de 30 minutos sem música, cinco minutos a ver o céu da janela, cozinhar sem podcasts nem TV. Cria pequenas zonas de espera no teu dia, em vez de preencheres cada intervalo. Deixa o café fazer-se devagar. Deixa uma mensagem por ler durante alguns minutos. Estas micro-pausas reintroduzem o cérebro à quietude.
Não estás a perseguir nostalgia. Estás a dar ao teu sistema nervoso o tipo de ambiente lento que as gerações mais velhas tinham por defeito.

Quando tentas reconstruir estes músculos, o primeiro reflexo é muitas vezes a auto-crítica: “Porque é que sou tão impaciente? Porque é que não consigo focar-me?” Isso só acrescenta stress a uma mente já sobrecarregada. Sê gentil contigo. Cresceste - ou vives agora - numa era desenhada para te manter em alerta e constantemente estimulado. Não há nada “de errado” contigo por teres dificuldade em esperar ou desligar. Experimenta em vez de procurares perfeição. Uma refeição por dia sem dispositivos. Uma reunião em que deixas o telemóvel na mala. Uma compra que adias deliberadamente 48 horas. Estes pequenos gestos ecoam o que as pessoas nos anos 60 e 70 viveram, sem copiares a vida delas.

“A resiliência não é um traço de personalidade que se tem ou não se tem”, explica a psicóloga clínica Hélène*, 68 anos, que começou a exercer no final dos anos 70. “É um conjunto de hábitos que o ambiente te obrigou a repetir. As pessoas da minha idade não escolheram ser pacientes - fomos treinados pela própria lentidão.”

  • Reaprender o tédio: um momento diário sem telefone, sem áudio, sem multitarefa.
  • Alongar o tempo de espera: adiar conscientemente pequenos prazeres por alguns minutos ou horas.
  • Fazer por ti próprio uma vez por semana: arranjar, cozinhar, reparar ou organizar algo sem pesquisar no Google primeiro.
  • Proteger rituais low-tech: um livro em papel antes de dormir, uma nota escrita à mão, uma conversa real.
  • Partilhar histórias com pessoas mais velhas: as memórias delas não são só nostalgia - são manuais psicológicos.

5. O legado silencioso de quem cresceu antes do zumbido constante

Quando falas com alguém que foi adolescente em 1972 ou criança em 1968, sentes muitas vezes um ritmo diferente nas histórias. Há mais caminhadas, mais espera, mais improviso. Também mais erros, mais perigo, mais coisas que hoje nos chocariam. A educação não era magicamente melhor; era simplesmente mais dura, mais lenta e com menos supervisão. Disto, a psicologia vê hoje um conjunto de forças mentais: tolerância ao tédio, gratificação adiada, auto-suficiência, pele mais grossa quando os planos falham, uma âncora mais forte no mundo offline.
Isto não significa que as gerações mais novas estejam perdidas ou sejam fracas. Estão apenas a ser moldadas por um “clima emocional” radicalmente diferente.

O mais marcante é quantas pessoas com menos de 40 anos desejam secretamente aquilo que quem cresceu nos anos 60 e 70 às vezes dá por garantido: a capacidade de desligar a sério, de se sentir menos frenético, de não ficar destroçado por cada atraso. Isto não são virtudes antiquadas. São ferramentas de sobrevivência para sistemas nervosos a afundarem-se em informação. Talvez conheças alguém dessa época que parece irritantemente calmo quando algo corre mal. Em vez de revirar os olhos, podes perguntar como é que aprendeu a “não entrar em pânico” com tanta facilidade. A resposta provavelmente não incluirá termos científicos. Vai soar a vida.
Essa é a verdadeira ponte entre gerações: histórias partilhadas, não sermões.

Se estás a ler isto e a reconhecer os teus pais, avós, ou a ti próprio, talvez sintas uma mistura de orgulho e melancolia. O mundo que forjou essas forças desapareceu em parte. Mas as lições ainda estão vivas nos corpos e mentes de milhões de pessoas que andaram de bicicleta sem capacete e gravaram músicas da rádio em cassetes. Transportam uma caixa de ferramentas de que a cultura actual, movida pela velocidade, precisa desesperadamente. Podes pedi-la emprestada. Também a podes passar adiante - não julgando o TikTok nem glorificando “os bons velhos tempos”, mas modelando em silêncio como é esperar, suportar o tédio e resolver pequenos problemas com as próprias mãos. Essa demonstração silenciosa pode ser o presente mais moderno que uma infância “antiga” pode oferecer.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Tolerância ao tédio incorporada Crianças dos anos 60–70 passavam longos períodos sem entretenimento instantâneo Inspira práticas para recuperar foco e calma num mundo hiper-estimulante
Treino de gratificação adiada Esperar por programas, fotografias, cartas e compras moldava a paciência Ajuda a compreender e reconstruir robustez emocional face à frustração
Auto-eficácia silenciosa Mais autonomia e resolução de problemas “faça você mesmo” no dia a dia Oferece um modelo para hoje nos sentirmos menos impotentes e mais capazes

FAQ:

  • Quais são as 9 forças mentais que pessoas dos anos 60–70 muitas vezes desenvolveram? Normalmente mostram tolerância ao tédio, gratificação adiada, auto-suficiência, maior resistência à frustração, adaptabilidade, criatividade prática, competências sociais offline mais fortes, sentido de proporção perante os problemas e mais conforto com a imperfeição.
  • Isto não é apenas idealizar o passado? Os anos 60 e 70 tiveram problemas sérios: situações inseguras, menos consciência sobre saúde mental, normas rígidas. O objectivo não é dizer que era melhor, mas perceber que competências psicológicas esse ambiente treinou “sem querer”.
  • As gerações mais novas conseguem construir as mesmas forças? Sim. O cérebro pode desenvolver estas capacidades em qualquer idade. A diferença é que hoje tens de criar as condições de propósito, em vez de ser o ambiente a fazê-lo por ti.
  • Como posso ajudar os meus filhos a desenvolver estes músculos mentais? Dá-lhes pequenas quantidades de tempo não planeado e sem ecrãs, deixa-os resolver problemas adequados à idade por conta própria e permite a espera em vez de corrigires de imediato cada desconforto.
  • E se eu cresci mais tarde e sinto que “perdi” estas forças? Não perdeste para sempre. Simplesmente não foste treinado da mesma forma. Ao adicionares pequenas doses de tédio, atraso e esforço “faça você mesmo” à tua rotina, podes construir recursos psicológicos semelhantes ao longo do tempo.

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