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Segundo a psicologia, pode sentir-se exausto mesmo sem fazer nada devido ao stress mental e à falta de estímulos, o que cansa a mente e o corpo.

Mulher stressada trabalha em casa, mãos na cabeça, laptop e agenda abertos, na cozinha com plantas.

Sunday afternoon, 3:17 p.m.
Estás no sofá, telemóvel na mão, a ver a meia‑gás uma série de que amanhã já não te vais lembrar. O teu corpo não se mexe, a tua agenda está vazia e, ainda assim, sentes o peito pesado, os membros como areia molhada. Fazes scroll, mudas de app, abres o frigorífico só para ficares a olhar lá para dentro e depois vais embora sem tirar nada. Dizes para ti: “Hoje não estou a fazer nada, então porque é que estou tão cansado(a)?”

A pior parte é que não “mereceste” este cansaço.

Começas a perguntar‑te se és preguiçoso(a), se há algo de errado contigo ou se estás doente em segredo. Uma parte de ti sabe que está a acontecer mais do que apenas uma noite mal dormida. Não estás a mexer‑te, mas há outra coisa a trabalhar em horas extraordinárias.

Porque é que o teu cérebro gasta energia mesmo quando o teu corpo não se mexe

Os psicólogos dizem que “não fazer nada” quase nunca é, de facto, nada. O teu corpo pode estar estendido na cama, mas o teu cérebro está a girar numa lista mental de tarefas, conversas inacabadas, preocupações com dinheiro e o habitual ciclo de notícias apocalípticas. Essa carga de trabalho invisível drena‑te de uma forma difícil de justificar ou explicar.

Não há cronómetro, não há medalha de “calorias queimadas”, apenas esta sensação silenciosa de estares esgotado(a).

É aqui que começa a confusão. Olhas para o teu dia e pensas: “Não fiz grande coisa.” O teu cérebro olha para o caos interno e pensa: “Corremos uma maratona.”

Imagina um dia de folga “preguiçoso” típico. Acordas já em dívida de sono da semana. Passas uma hora nas redes sociais, com o sistema nervoso a levar “pings” de separações, guerras, corpos perfeitos e dicas de produtividade que nunca vais usar. Depois respondes a três mensagens “rápidas” do trabalho, pensas naquela conta que ainda não pagaste e ensaias mentalmente a conversa desconfortável que precisas de ter com o(a) teu(tua) parceiro(a).

O teu corpo mal saiu da cama.

E, no entanto, a tua frequência cardíaca disparou várias vezes, os músculos estão ligeiramente tensos e o teu cérebro tem oscilado entre luta, fuga e congelamento durante toda a manhã. Estudos sobre ruminação mostram que o pensamento negativo repetitivo pode cansar‑te tanto como esforço físico moderado. Não és preguiçoso(a). Estás em sobrecarga.

Psicologicamente, descanso não é apenas ausência de movimento. É ausência de ameaça, pressão e “ciclos” por fechar na tua mente. Quando o teu cérebro percebe perigo - e‑mails, renda em atraso, comparação social - mantém o sistema de stress ligado mesmo que estejas perfeitamente imóvel. Esse stress de baixa intensidade liberta cortisol, baralha os ciclos de sono e fragmenta a tua atenção.

Por isso, ficas com esta mistura estranha: um corpo parado e um sistema nervoso em patrulha.

Com o tempo, esse desfasamento parece um jet lag permanente. Não atravessas fusos horários, atravessas separadores.

Trabalho invisível: a carga mental que nunca bate o ponto

Uma grande razão para te sentires exausto(a) enquanto “não fazes nada” é a carga mental que carregas sem lhe dares nome. Carga mental é todo o planeamento, antecipação, memória e preocupação que acontece em segundo plano. Não é só “tenho de fazer o jantar”, é “o que é que há no frigorífico? Quando é que vou às compras? Eles vão gostar? E se eu me esquecer?”

Esse sistema de gestão silencioso continua a funcionar mesmo quando estás deitado(a) no sofá.

O teu cérebro faz malabarismo com tarefas invisíveis como separadores abertos no navegador. Cada um parece pequeno, mas juntos roubam‑te energia, presença e a capacidade de descansar de verdade.

Pensa num(a) progenitor(a) que “não faz nada” num sábado à noite. Está no sofá, TV ligada, a criança finalmente a dormir. Por fora: puro relax. Por dentro: a calcular almoços para a escola, atividades do fim de semana, roupa para lavar, consultas do dentista, se a criança está feliz, se é um bom pai/boa mãe, como esticar o orçamento. Pode não se mexer durante uma hora. Mesmo assim vai sentir como se tivesse subido uma colina a correr.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que caímos na cama e o cérebro se recusa a desligar.

A investigação sobre carga cognitiva mostra que só manter muitas tarefas pequenas na cabeça consome recursos mentais, mesmo que nunca as completes. O cérebro não distingue totalmente entre “estou a fazer isto” e “não me posso esquecer de fazer isto”.

A psicologia chama a isto o “efeito Zeigarnik”: a tua mente mantém tarefas inacabadas ativas, como separadores que se recusam a fechar. Essa sensação de “eu devia…” fica a correr em segundo plano, a puxar pela tua atenção e a manter o sistema nervoso ligeiramente alerta. Para muitas pessoas - especialmente cuidadores(as) ou quem vive em empregos precários - nunca há um momento em que a lista esteja realmente terminada.

Por isso, o teu dia de folga não te restaura; apenas remove as tarefas visíveis.

As invisíveis continuam, e como não parecem “trabalho a sério”, acabas por te culpar a ti em vez do sistema que te está a deixar em frangalhos.

Como descansar de uma forma que o teu cérebro realmente entende

Os psicólogos falam menos de “não fazer nada” e mais de “recuperação ativa”. O teu cérebro precisa de sinais claros de que o nível de ameaça é baixo e de que pode largar. Muitas vezes isso significa escolher uma atividade simples e totalmente absorvente em vez de meio fazeres cinco coisas ao mesmo tempo enquanto fazes scroll. Ler uma história, cozinhar devagar, caminhar sem auscultadores, desenhar, jardinar - são tarefas suaves que dão à mente um único trilho para seguir.

Este modo de foco único acalma o sistema nervoso e trava a mudança constante de “separadores” mentais.

Descanso a sério é quando a tua atenção consegue pousar em algo suave e ficar aí durante algum tempo.

Outro método‑chave é criar pequenas janelas “fora de serviço” em que não estás disponível para toda a gente e para tudo. Pode ser pôr o telemóvel noutra divisão durante 30 minutos, ativar uma resposta automática de e‑mail ao fim de semana, ou dizer mesmo: “Penso nisso amanhã.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Mas esses limites pequenos dizem ao teu cérebro: “Agora não; estamos seguros durante este bocadinho.” Muitas pessoas sentem culpa quando tentam, como se o descanso tivesse de ser ganho com produtividade perfeita. Só essa culpa já te esgota. Descanso constantemente justificado deixa de ser descanso e passa a ser mais uma performance.

A psicóloga e investigadora Pooja Lakshmin escreve: “O verdadeiro autocuidado não é banhos e chocolate. É tomar decisões difíceis alinhadas com os teus valores, mesmo quando te sentes culpado(a) por elas.”

  • Dá nome à tua carga mental
    Escreve tudo o que está a girar na tua cabeça, mesmo as coisas “pequenas”. Ver a lista reduz a necessidade do cérebro a repeti‑la sem parar.
  • Agenda tempo verdadeiramente livre
    Escolhe horas específicas por semana sem trabalho, sem tarefas, sem “só uma espreitadela”. Protege-as como se fossem uma consulta.
  • Troca o scroll por algo calmante
    Substitui 20 minutos de doomscrolling por uma atividade com início e fim claros: uma caminhada, um duche, um capítulo, um puzzle.
  • Baixa deliberadamente a fasquia
    Em semanas difíceis, escolhe uma prioridade por dia. O resto é “bónus”. Isto reduz a pressão interna constante.
  • Diz a alguém que estás cansado(a)
    Diz em voz alta a um(a) amigo(a) ou parceiro(a). Ser acreditado(a) e apoiado(a) no teu cansaço é, por si só, uma forma de descanso.

Talvez não sejas preguiçoso(a), talvez estejas sobrecarregado(a)

Há um alívio silencioso em perceber que o teu cansaço tem uma estrutura, não é apenas uma falha moral. A psicologia dá palavras ao que o teu corpo tem tentado dizer: stress sem movimento continua a ser stress, preocupação sem ação continua a ser trabalho, e “não fazer nada” pode ser o trabalho mais intenso que o teu cérebro tem.

Quando começas a ver a tua carga invisível, começas também a ver pequenos pontos onde podes renegociá‑la.

Talvez não consigas despedir‑te ou largar todas as responsabilidades. Ainda assim, podes ajustar a forma como a tua mente se relaciona com elas.

Podes decidir que um dia de folga não é uma dívida de produtividade, mas um “reset” do sistema nervoso. Podes reparar no momento em que pegas no telemóvel por ansiedade, não por vontade, e pousá‑lo virado para baixo. Podes apanhar‑te a pensar “não devia estar tão cansado(a)” e responder com gentileza: “Com tudo o que estou a carregar, faz sentido.”

Essas pequenas mudanças não resolvem tudo.

Mas vão ensinando, aos poucos, o teu corpo que descansar não é uma cena de crime.

O teu cansaço é uma mensagem. E talvez o primeiro passo não seja forçar, mas finalmente ouvir.

Ponto‑chave Detalhe Valor para o leitor
Carga mental invisível Planear, preocupar‑se e lembrar tarefas drena energia mesmo quando estás deitado(a) Reduz a auto‑culpa ao explicar porque é que “não fazer nada” ainda assim é exaustivo
Stress sem movimento Stress crónico de baixa intensidade mantém o sistema nervoso ativado durante o descanso Ajuda a reconhecer sinais de burnout antes de explodirem
Estratégias de recuperação ativa Atividades de foco único, limites e dar nome à carga acalmam o cérebro Oferece formas concretas de te sentires genuinamente descansado(a), e não apenas “em pausa”

FAQ:

  • Porque é que estou cansado(a) todos os dias mesmo que não faça muito?
    O corpo pode estar parado, mas o cérebro trabalha muito com preocupações, decisões e tarefas inacabadas. Essa carga mental invisível pode ser tão desgastante como esforço físico.
  • É normal sentir culpa quando descanso?
    Sim. Muitos de nós fomos educados a ligar o nosso valor à produtividade. A culpa não significa que descansar esteja errado; significa apenas que estás a esbarrar em regras antigas.
  • Como sei se é só stress ou algo médico?
    Se a fadiga for intensa, durar semanas ou vier acompanhada de sintomas como alterações de peso, mudanças de humor fortes ou dor, é sensato falar com um médico ou um profissional de saúde mental.
  • Fazer scroll no telemóvel deixa‑me mesmo tão cansado(a)?
    Alertas constantes, más notícias e comparações mantêm o sistema nervoso em alerta. Parece “nada”, mas o cérebro trata como estimulação contínua e ameaça ligeira.
  • Qual é uma pequena coisa que posso começar hoje?
    Experimenta uma janela “off‑grid” de 20 minutos: telemóvel noutra divisão, sem tarefas, apenas uma atividade simples e suave. Repara como o teu corpo se sente antes e depois.

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