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Segundo a psicologia, a necessidade de sermos sempre úteis pode esconder um profundo desconforto.

Jovem escrevendo num caderno numa cozinha iluminada, com plantas, chávena e calculadora sobre a mesa.

On the lado de fora, parece bonito.
O colega que nunca diz que não, o amigo que se oferece para todas as mudanças, o parceiro que antecipa todas as necessidades antes sequer de abrirem a boca. As pessoas dizem: “És incrível, não sei como consegues.” O telemóvel nunca pára de vibrar. A agenda é um Tetris apertado de favores e salvamentos de última hora.

E, no entanto, quando a porta se fecha à noite, o silêncio bate de outra maneira.
Perguntam-se quem são quando ninguém precisa de nada.
Sentem-se culpados por descansar, quase envergonhados por não serem “úteis”.

O mundo vê generosidade.
Por dentro, há qualquer coisa que não encaixa.

Quando ser útil se torna uma forma de existir

Algumas pessoas não gostam apenas de ser úteis. Precisam disso.
O dia delas é uma lista de tarefas para os outros: responder rápido às mensagens, cobrir turnos extra, ficar até mais tarde “só para ajudar”. Pedem desculpa quando dizem que não, mesmo quando estão doentes. Sentem uma ansiedade estranha se passa uma tarde inteira sem ninguém pedir nada.

Nas redes sociais, partilham dicas de produtividade e publicações sobre “como ajudar mais”.
Na vida real, têm dificuldade em sentar-se no sofá sem uma tarefa nas mãos.
O descanso parece suspeito. A inutilidade parece perigosa.

Vejamos a Maya, 32 anos, gestora de projeto, “a pessoa de confiança” em todos os grupos de WhatsApp.
É a pessoa a quem os colegas ligam às 22h com “só uma pergunta rápida”. A que organiza todos os aniversários, todas as festas de despedida, todas as prendas de última hora. Os amigos dizem que ela tem “um coração enorme”.

Num domingo, o telemóvel dela fica sem bateria durante meia tarde.
Sem mensagens. Sem pedidos. Sem emails urgentes.
A Maya descreve um vazio repentino, quase pânico. “Se ninguém precisa de mim”, pensa, “para que é que eu sirvo?” O desconforto não vem dos outros. Vem de dentro.

Os psicólogos falam de “autoestima condicional”: a sensação de que só tens valor quando és útil, quando produzes, quando ajudas.
Por detrás desta necessidade de ser indispensável há muitas vezes um medo de ser abandonado ou esquecido. Estar sempre disponível torna-se uma barganha silenciosa: “Se eu ajudar o suficiente, não me vais deixar.”

Esta dinâmica pode vir de papéis da infância: “o responsável”, “o pacificador”, a criança que cuidou de um dos pais. Com o tempo, o cérebro fixa esta equação: cuidar = segurança.
Por isso, em adultos, estas pessoas não oferecem apenas ajuda. Protegem-se de um medo antigo e profundo.

Como deixar de confundir utilidade com valor

O primeiro passo é brutalmente simples: apanha o momento em que dizes que sim enquanto o teu corpo inteiro quer dizer que não.
Pára três segundos. Sente o que acontece no peito, na mandíbula, no estômago. Há tensão? Um nó? Um impulso súbito de “não posso desiludi-los”?

Em vez de responderes imediatamente, experimenta uma frase curta: “Deixa-me ver e já te digo.”
Este micro-atraso não é para seres vago. É para dares ao teu sistema nervoso a oportunidade de falar antes de o reflexo de seres prestável tomar conta.
Uma pausa minúscula pode começar a reescrever anos de auto-sacrifício automático.

Uma armadilha comum é passar de “tenho de ser útil o tempo todo” para “vou de repente impor limites enormes e dizer que não a tudo”. Esse pêndulo é violento, para ti e para os outros. As pessoas à tua volta estão habituadas ao guião antigo. Vão ficar surpreendidas, às vezes irritadas.

Começa mais pequeno. Um “não” por semana já é uma revolução. Uma vez em que não te ofereces. Uma vez em que não saltas para “resolver” alguma coisa.
Sê gentil contigo quando a culpa aparecer. A culpa não significa que estejas errado. Muitas vezes significa que estás a fazer algo novo.

O psicólogo Alain Ehrenberg escreveu sobre a nossa época como a era “da obrigação de ser si próprio e de ter sucesso”. Para muitos, isso transformou-se silenciosamente em “a obrigação de ser útil, constantemente, para toda a gente”.

  • Repara quando ajudas para te sentires amado, não apenas porque queres.
  • Experimenta dizer “Desta vez não consigo” sem justificares cada detalhe.
  • Marca tempo que não tem propósito: sem produtividade, sem utilidade, apenas existir.
  • Fala deste padrão com uma pessoa segura, que não te liga só para pedir favores.
  • Considera terapia se a ansiedade de “não ser necessário” for avassaladora.

Aprender a existir mesmo quando ninguém precisa de ti

Há uma pergunta silenciosa e radical que desestabiliza muitos ajudantes compulsivos: quem és tu quando não és útil para ninguém?
Não o teu cargo, não o teu papel na família, não a tua capacidade de resolver crises. Apenas tu, numa terça-feira à noite, sem nenhum pedido à espera nas notificações.

Às vezes a primeira resposta é: “Não sei.”
Esse “não sei” pode soar a falhanço. Na verdade, é um começo.
Porque por baixo do dever de ajudar há uma pessoa que também precisa de cuidado, espaço e tempo que não tem de ser merecido.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Ninguém vive permanentemente em equilíbrio perfeito, com limites impecavelmente negociados, dizendo sim e não com serenidade iluminada. O trabalho acontece em passos pequenos e confusos.

Num dia, dás por ti a oferecer ajuda antes de alguém pedir. No seguinte, surpreendes-te a ficar em silêncio e a ver que o mundo não colapsa. Os amigos encontram soluções. Os colegas desenrascam-se. A vida continua.
A tua utilidade era preciosa, sim. Mas nunca foi o único fio a segurar tudo.

Algumas pessoas vão sentir-se ameaçadas pela tua mudança. Preferiam a versão de ti que dizia sempre que sim. Essa reação diz mais sobre os hábitos delas do que sobre o teu valor.
Outras vão adaptar-se, até respeitar-te mais. Vão descobrir outro lado teu: não só o solucionador de problemas, mas a pessoa com gostos, limites e desejos que existem para lá do serviço.

E depois há a parte mais difícil: aprender a estar com o desconforto do tempo livre, de uma noite sem planos, de um domingo em que ninguém liga.
Esse vazio não é prova de que não serves para nada.
Às vezes, é o espaço necessário onde uma vida mais honesta pode começar a respirar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Reconhecer o desconforto escondido Ligação entre utilidade compulsiva, medo de abandono e autoestima condicional Ajuda a dar nome a um mal-estar vago e a vê-lo como um padrão, não como uma falha pessoal
Começar com micro-pausas e pequenos “nãos” Usar atrasos breves antes de aceitar pedidos e introduzir limites graduais Torna a mudança realista e menos assustadora, sem destruir relações de um dia para o outro
Construir uma identidade para lá de ser útil Pergunta “Quem sou eu quando ninguém precisa de mim?” e exploração de tempo não produtivo Incentiva um sentido de valor pessoal mais profundo e estável, que não depende do serviço

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se gosto genuinamente de ajudar ou se estou viciado em ser útil?
    Normalmente sente-se no corpo e no “sabor” que fica depois. Se ajudas e mais tarde te sentes ressentido, esgotado ou invisível, muitas vezes não é pura generosidade, mas uma estratégia para ganhar amor ou evitar conflito. Quando a ajuda é livre, podes sentir cansaço, talvez, mas não amargura nem a expectativa secreta de algo em troca.

  • Pergunta 2 Porque é que me sinto tão culpado quando digo que não, mesmo por um bom motivo?
    A culpa muitas vezes reflete regras antigas que internalizaste: “não posso desiludir”, “tenho de estar sempre disponível”. Dizer que não não significa que estejas a fazer algo errado; significa que estás a ir contra essas regras herdadas. A emoção é real, mas a mensagem por detrás dela pode estar desatualizada.

  • Pergunta 3 Esta necessidade de ser útil pode estar ligada à minha infância?
    Sim, muito frequentemente. Muitos adultos que sentem que têm de ser úteis a qualquer custo foram a “criança responsável”, o suporte emocional de um dos pais, ou quem mantinha a paz. Aprenderam cedo que a sua segurança e o afeto dependiam do quanto faziam pelos outros. Esse “código” pode persistir em silêncio.

  • Pergunta 4 É egoísta proteger o meu tempo e a minha energia?
    Cuidar de ti não é o oposto de cuidar dos outros. Quando proteges a tua energia, o teu “sim” torna-se mais honesto, menos carregado de exaustão e ressentimento. As pessoas muitas vezes recebem de ti um apoio mais autêntico e estável quando não estás constantemente no limite.

  • Pergunta 5 Quando devo considerar procurar um terapeuta por causa deste padrão?
    Se entras em pânico quando não és necessário, se não consegues descansar sem te sentires sem valor, ou se as relações parecem unilaterais e drenantes, ajuda profissional pode ser muito útil. Um terapeuta pode ajudar a desfazer a história original por detrás desta necessidade e a construir um sentido de valor que resiste mesmo quando o telemóvel está em silêncio.

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