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"Tenho mais de 60 anos e a minha postura afetou a respiração": o problema da restrição torácica

Mulher a fazer exercícios de respiração numa sala iluminada pelo sol, com tapete de yoga e planta ao fundo.

A primeira vez que reparei a sério, estava na fila da farmácia. A máscara puxava-me pelas orelhas, o saco pesava-me no ombro e, de repente, o peito começou a sentir-se como se estivesse apertado por uma ligadura. O ar entrava, mas não parecia chegar ao fundo dos pulmões. Eu não estava a correr, não estava a subir escadas. Estava apenas… ali, de pé, a respirar como quem está em altitude.
Mudei o peso de um lado para o outro, rodei os ombros, “endireitei-me” como nos mandam fazer. Estranhamente, isso piorou. Quanto mais me endireitava, mais o peito, na parte de cima, bloqueava-como se as costelas se tivessem esquecido de que era suposto abrirem.
Uma ideia silenciosa surgiu, quase rude na sua honestidade: “É isto que se sente aos sessenta?”
A resposta, como vim a descobrir mais tarde, era mais complexa do que a idade, por si só.

Quando a “boa postura” começa a roubar-lhe o fôlego

Depois dos sessenta, muitos de nós começam a vigiar o próprio corpo. Encolhemos a barriga, puxamos os ombros para trás, levantamos o queixo como se houvesse um fio preso ao topo da cabeça. Ao espelho parece “correcto”, como aqueles cartazes de postura na sala de espera do médico.
O estranho é o que se nota quando se mantém essa postura de soldado por mais de um minuto. A respiração sobe. O peito fica rígido. As costelas mexem menos, como se estivessem apertadas por um espartilho de atacadores invisíveis. Tecnicamente, estamos direitos, mas por dentro sentimos mais compressão.
Para muitas pessoas, é aí que começa o pânico silencioso: “Os meus pulmões estão a ficar fracos. Será o início de algo grave?”

Veja o caso da Marie, 67 anos, professora reformada. Foi ao cardiologista convencida de que tinha um problema no coração. Não conseguia subir um lanço de escadas sem parar a meio, mão no corrimão, peito apertado e respiração superficial.
Os exames vieram normais. Coração bem. Pulmões bem “no papel”. Por fim, o especialista observou-a a andar no corredor: costas rígidas, queixo levantado, costelas congeladas, barriga permanentemente contraída como se ainda estivesse na sala de aula.
Encaminhou-a para fisioterapia-não por causa do coração, mas por causa da postura. Em poucas semanas, ao aprender a libertar o peito e a voltar a mexer as costelas, conseguiu subir as mesmas escadas sem aquela sensação de banda de aço. Os mesmos pulmões, uma postura diferente.

O que se passa é menos misterioso do que parece. Quando mantemos o peito “levantado” o tempo todo, a caixa torácica perde a sua mobilidade natural. Os músculos entre as costelas ficam tensos. O diafragma, o principal músculo da respiração, não consegue descer totalmente porque a barriga está constantemente puxada para dentro.
A parte alta das costas curva-se com anos de ecrãs, cadeirões e trabalho na cozinha sobre bancadas baixas; depois tentamos “corrigir” puxando os ombros para trás. O resultado é um peito superior rígido e um esterno imobilizado. O ar acaba preso em cima, perto das clavículas, em vez de descer profundamente para os pulmões.
E é assim que uma vida inteira a “estar direito” pode, silenciosamente, transformar-se num peito que quase não abre quando mais precisa.

Libertar a caixa torácica: movimentos suaves que mudam tudo

Uma das formas mais simples de testar esta restrição no peito é deitar-se. De barriga para cima, joelhos flectidos, pés assentes no chão. Coloque uma mão no esterno e a outra na barriga.
Deixe o chão sustentar a coluna. Relaxe ligeiramente o maxilar, como se estivesse prestes a suspirar. Depois observe apenas para onde vai a respiração. Se a mão de cima subir mais do que a de baixo, é o peito que está a fazer a maior parte do trabalho, não o diafragma.
Agora, mantendo tudo macio, imagine as costelas inferiores a alargarem para os lados a cada inspiração-como as asas de um balde a abrirem. Sem força. Apenas um convite. A cada expiração, deixe as costelas regressarem e permita que a barriga desça sem a segurar.

A parte difícil para muitas pessoas depois dos sessenta não é aprender uma técnica nova. É desaprender uma vida inteira de tensão defensiva. Esse impulso de “manter a barriga lisa” é teimoso. Fomos elogiados por isso quando éramos jovens, e raramente nos abandona.
Quando experimenta estes exercícios de respiração, o primeiro reflexo pode ser corrigir-se: “Estou a descair, isto não pode estar certo.” Essa voz interior é alta. A verdade é que um tronco ligeiramente relaxado e em movimento dá aos pulmões muito mais espaço do que uma postura perfeita e congelada.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, religiosamente. Lembramo-nos quando o peito aperta ou quando as escadas parecem mais íngremes do que antes. Esse já é um bom momento para parar junto a uma parede ou a uma cadeira, amolecer a barriga e deixar passar três respirações lentas e mais amplas pelas costelas.

Às vezes, a maior mudança não é acrescentar exercícios-é permitir-se deixar de segurar tudo com tanta força. Como disse um terapeuta a uma paciente na casa dos setenta: “Os seus pulmões não estão fracos; estão apenas a negociar com os seus ombros.”

  • Verificação diária simples
    Encoste as costas a uma parede, com os calcanhares ligeiramente afastados. Repare se, ao inspirar profundamente, consegue deixar as costelas inferiores tocarem de leve (ou aproximarem-se) sem levantar os ombros.
  • Alongamento “pendurado”
    Apoie as mãos numa bancada alta ou num aro de porta e incline suavemente o peito para baixo até sentir espaço a abrir entre as omoplatas.
  • Respiração de lado
    Deite-se de lado, com o braço de baixo estendido, e coloque a mão de cima nas costelas laterais. Inspire para essa mão, sentindo as costelas a pressionarem suavemente a palma.
  • Descontrair o maxilar
    Antes de dormir, sente-se na beira da cama, deixe a boca repousar meio aberta e expire com um som suave de “hhhhh” para amolecer a garganta e o peito.

Viver com um peito que volta a respirar

Quando repara em como a postura lhe aperta o peito, começa a vê-lo em todo o lado: curvado sobre o lava-loiça, inclinado para a televisão, enrolado no telemóvel como uma vírgula. Estas formas não são “más” por si só. O problema é ficar na mesma durante horas.
O que muda as coisas não é perseguir uma postura perfeita-é entrelaçar pequenos “reajustes” no dia-a-dia. Uma pausa à janela em que deixa as omoplatas deslizarem para baixo nas costas. Um momento após uma chamada em que roda as costelas em círculo, como se as estivesse a mexer suavemente por dentro.
Com o tempo, estes pequenos momentos somam-se a algo que quase parece como ficar mais alto de dentro para fora.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A postura do peito afecta a respiração Uma postura rígida e “direita” pode bloquear as costelas e manter o ar na parte alta do peito Ajuda a explicar porque se sente sem ar mesmo com exames médicos normais
Mobilidade suave vence alinhamento rígido Costelas macias, barriga relaxada e parte alta das costas em movimento dão mais espaço aos pulmões Oferece uma forma prática de se sentir melhor sem forçar o corpo
Pequenas verificações diárias contam Testes na parede, respiração de lado e breves alongamentos durante tarefas rotineiras Torna a mudança realista e sustentável no quotidiano

FAQ:

  • Ficar sem ar depois dos 60 é sempre sinal de doença?
    Não. A restrição do peito por postura, rigidez e respiração superficial pode criar sensações fortes de falta de ar mesmo quando coração e pulmões estão estruturalmente bem; ainda assim, qualquer sintoma novo ou a piorar deve ser avaliado por um médico.
  • A postura pode mesmo comprimir os pulmões?
    Sim. Parte alta das costas arredondada, queixo levantado e barriga constantemente contraída podem limitar a mobilidade das costelas e o movimento do diafragma, reduzindo a quantidade de ar que entra e sai com conforto.
  • Quanto tempo demora a notar diferença?
    Algumas pessoas notam uma respiração mais leve e profunda em poucos dias de prática diária suave; para rigidez mais antiga, uma mudança significativa costuma aparecer ao fim de várias semanas.
  • Preciso de equipamento especial ou ginásio?
    Não. A maioria dos movimentos úteis usa uma parede, uma cadeira, uma cama ou uma bancada. O essencial é consistência e respeito pelos seus limites, não intensidade.
  • Devo deixar de “andar direito” por completo?
    Não tem de descair, mas mude o objectivo de uma rectidão rígida para um alongamento relaxado: costelas macias, pescoço livre, ombros leves e uma barriga que se pode mexer quando respira.

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