A primeira vez que se ouve mesmo uma coruja, isso pára-nos.
Não como ruído de fundo, nem como um efeito sonoro distante de Halloween, mas como um chamamento baixo e paciente, a deslizar entre ramos, postes de vedação e motores de carrinhas a arrefecer na escuridão. Ficamos imóveis junto à porta das traseiras, com um chinelo calçado, a caneca de chá na mão a arrefecer, e ouvimos. Há um segundo chamamento, um pouco mais perto. De repente, damos conta de como o quintal parece vivo à noite.
E perguntamo-nos, em silêncio: porquê aqui, porquê agora, e será que as consigo convidar a voltar?
Porque é que as corujas aparecem de repente agora - e o que é que elas realmente procuram
Saia numa noite fria e o quintal já não parece seu.
O ar é mais leve, o som viaja mais longe e, algures por cima daquele fio elétrico ou daquele velho ácer, uma silhueta pousa num ramo que nunca tinha reparado antes. Nesta altura do ano, as corujas estão inquietas. As aves jovens procuram os seus primeiros territórios. Os casais mais velhos vão espreitando locais de nidificação muito antes da primavera.
Não andam por aí ao acaso. Estão a reconhecer o terreno.
Pergunte a quem observa, discretamente, o mesmo pedaço de terra há alguns anos.
Uma proprietária no Ohio contou-me que começava a ouvir corujas-riscadas (barred owls) todos os novembros, quase como um relógio. Ao início achou que era coincidência. Ao terceiro ano, percebeu que aqueles chamamentos surgiam sempre logo após a primeira geada forte, quando o relvado deixava de zunir com corta-relvas e o bairro finalmente sossegava à noite.
As corujas não estavam apenas a aparecer. O lugar inteiro estava, por fim, a falar a língua delas.
Há um padrão simples por detrás de todo este mistério.
À medida que os dias encurtam, os pequenos mamíferos mudam o comportamento, caçando e deslocando-se a horas diferentes. As folhas caem, expondo ramos e cavidades que estiveram invisíveis todo o verão. A atividade humana abranda um pouco quando a jardinagem frenética, os churrascos e os dias de piscina vão ficando para trás. As corujas aproveitam esta janela.
Movem-se, escutam, testam quintais como nós testamos bairros: há comida, há abrigo, alguém nos incomoda?
As pequenas mudanças no seu quintal que as corujas realmente notam
Se quer que as corujas fiquem por perto, comece pela parte menos glamorosa: roedores e poleiros seguros.
As corujas são atraídas por quintais com margens menos arrumadas, cantos com mato, pilhas de lenha e zonas de erva alta onde ratos e ratazanas do campo se sentem mais à vontade. Isso não significa transformar o seu espaço numa selva. Significa deixar uma ou duas áreas um pouco mais selvagens. Deixe aquele canto junto à vedação por cortar. Empilhe ramos em vez de levar até ao passeio cada graveto.
Para uma coruja, isso é um buffet com cobertura incluída.
O maior erro que as pessoas cometem é pensar que as corujas querem quintais brilhantes e perfeitamente “acabados”.
Todos já passámos por isso: aquele momento no centro de jardinagem a olhar para luzes solares e decoração metálica bonita, a imaginar uma cena noturna digna de revista. As corujas não querem saber disso. Luz forte apaga as sombras onde as presas se movem. Ruído constante de colunas no exterior ou sopradores de folhas a altas horas vai empurrá-las para mais longe.
Pense no seu quintal como uma rua lateral pouco iluminada, não como um estádio.
Uma voluntária de reabilitação de aves com quem falei foi direta:
“Nunca apanhei uma coruja que se tivesse despenhado num quintal calmo e escuro. É sempre em sítios com vidro, reflexos e sem um lugar a sério para pousar.”
Dê-lhes algo sólido e simples:
- Um poleiro alto e robusto: um tronco seco em pé, um poste com travessa, ou o topo de uma árvore adulta
- Uma zona mais escura: uma área onde as luzes com sensor não estejam sempre a disparar
- Alguma “desarrumação”: montes de ramos, pilhas de lenha, ou uma sebe mais bruta onde os roedores prosperam
- Espaço aéreo limpo: uma rota de voo livre de fios soltos e vidro refletor
- Paciência sazonal: alguns meses para a notícia correr no “mundo das corujas”
Caixas-ninho, água e os hábitos silenciosos que fazem as corujas voltar
Depois de suavizar a iluminação e permitir um pouco de “selvagem”, pode pensar numa caixa-ninho.
Não uma casinha qualquer de loja de artesanato, mas uma caixa profunda e robusta, adequada à espécie da sua zona: corujas-riscadas em subúrbios arborizados, mochos (como as screech-owls) em bairros mistos, corujas-das-torres perto de campos abertos. O momento conta. Agora, no fim do outono e início do inverno, é quando muitas corujas andam a “ver montras” à procura de futuras casas, mesmo que só ponham ovos meses depois.
Se instalar a caixa agora, não vai tarde. Vai cedo.
A parte humana disto pode ser mais difícil do que a carpintaria.
As pessoas entusiasmam-se, instalam uma caixa de coruja lindíssima, e depois “limpam” o quintal: varrem cada folha, inundam o pátio de luz e deixam o cão investir contra a vedação a cada ruído. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, mas essas noites ocasionalmente caóticas acumulam-se. As corujas notam padrões. Vão escolher o quintal um pouco mais calmo duas ruas acima, com o mesmo tipo de caixa e um dono que não trata cada farfalhar como um alarme.
O seu trabalho é ser previsivelmente aborrecido depois de escurecer.
Essa é a verdade simples, e ligeiramente inconveniente, sobre atrair animais selvagens: eles avaliam mais os seus hábitos do que o seu equipamento.
Um biólogo disse-me uma vez:
“As pessoas querem sempre o chamamento mágico ou a caixa certa. A magia é apagar as luzes, arrumar o soprador e deixar a noite ser noite.”
Se não se lembrar de mais nada, tenha presentes estas alavancas simples:
- Luz: mais fraca, mais quente e apontada para baixo, não para as árvores
- Ruído: noites mais silenciosas, menos explosões súbitas de máquinas
- Comida: algum coberto vegetal mais bruto e margens onde pequenos mamíferos se sintam seguros
- Abrigo: uma caixa ou cavidade natural, mais alguns poleiros sólidos
- Segurança: sem redes soltas, menos veneno para roedores, menos armadilhas de vidro brilhante
Partilhar o seu quintal com um caçador noturno
Há uma mudança que acontece quando uma coruja realmente assume o seu espaço.
Deixa de ver o quintal como um projeto seu e começa a vê-lo como território partilhado. Repara por onde os ratos correm ao longo da vedação, onde o gaio ralha do ácer ao anoitecer, onde o gato do vizinho se esgueira pela sebe. E em algumas noites, quando tudo se alinha, ouve novamente aquele chamamento grave e sente um orgulho estranho, como se tivesse passado um teste silencioso de que a maioria das pessoas nem sabe que existe.
É um tipo de natureza selvagem pequeno e privado.
Esta estação é a sua melhor oportunidade para a convidar a entrar.
As corujas estão a mover-se, a ouvir, a medir. O seu quintal não tem de ser enorme. Não tem de ser perfeito. Só tem de oferecer aquilo que tantos lugares estão, discretamente, a perder: cantos escuros, margens suaves, alimento que não está envenenado, e humanos que não estão constantemente a anunciar a sua presença.
Muda alguns hábitos e alguns arranjos. A noite faz o resto.
Alguns vizinhos talvez nunca reparem na diferença.
Vão ouvir um pio distante uma vez e encolher os ombros. Você vai saber que aquelas folhas extra debaixo da sebe, aquele canto sem luz, aquela vez que evitou pôr veneno para ratos - tudo isso ajudou a inclinar a balança. Este é o tipo de projeto que não fica impressionante em fotografias.
Mas na primeira vez que uma sombra se ergue do poste da vedação e desliza em silêncio pelo quintal, não vai estar a pensar em fotografias.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Deixe o outono e o inverno trabalharem por si | As corujas exploram territórios e locais de nidificação nos meses frios | Dá-lhe uma janela clara para preparar o quintal no momento certo |
| Crie alimento e cobertura, não um showroom | Montões de ramos, cantos mais brutos e luz fraca atraem presas e corujas | Transforma um quintal normal num terreno de caça natural |
| Hábitos tranquilos contam mais do que equipamento | Menos ruído noturno, menos venenos, rotas de voo mais seguras | Ajuda as corujas a ficar, nidificar e criar crias onde as pode observar |
FAQ:
- Uma caixa-ninho para corujas funciona mesmo num pequeno quintal suburbano? Sim, especialmente para espécies mais pequenas, como os mochos (screech-owls), se houver algumas árvores, cantos mais escuros e menos atividade noturna do que nos vizinhos.
- Preciso de reproduzir chamamentos de corujas para as atrair? Não; e tocar chamamentos com demasiada frequência pode stressar aves selvagens. Habitat e silêncio são muito mais eficazes a longo prazo.
- É seguro ter corujas por perto com animais de estimação? Animais pequenos abaixo de 2,5–3,2 kg devem ser vigiados à noite; a maioria dos gatos adultos saudáveis e cães médios não são alvos típicos.
- A que altura deve ficar uma caixa-ninho para corujas? Recomendações comuns apontam para cerca de 3–9 metros de altura, dependendo da espécie, com uma rota de voo desimpedida para entrar e sair.
- Posso usar veneno para roedores se quiser corujas? Anticoagulantes de segunda geração podem matar corujas que comem presas envenenadas, por isso mudar para armadilhas ou métodos de exclusão é muito mais seguro.
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