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Quem se sente emocionalmente responsável pelos outros geralmente aprendeu esse papel de forma inconsciente.

Mulher manuseia pedras numa tigela ao lado de chá quente, com livro aberto e toalha sobre a mesa iluminada pelo sol.

No restaurante, ela ri alto demais, acena com a cabeça vezes demais, observa cada rosto sem sequer se aperceber de que o está a fazer. O garfo fica suspenso a meio caminho da boca quando alguém suspira do outro lado da mesa. Instantaneamente, o cérebro dela abandona o prato e corre para resolver o que quer que se esteja a passar com aquela pessoa. Disse alguma coisa errada? Alguém está chateado? Era suposto ela apaziguar, mudar de assunto, fazer uma piada?

Vai para casa exausta, não por causa do barulho, mas por carregar o estado de espírito de toda a gente aos ombros.

O mais estranho é que ninguém lhe atribuiu oficialmente esse trabalho.

Quando os teus sentimentos estão de serviço 24/7

Algumas pessoas entram numa sala e repararam na música, no cheiro, na luz. Outras entram e sentem a “temperatura emocional” de toda a gente a bater-lhes no peito. Se alguém está tenso, o corpo delas fica tenso. Se alguém está triste, a garganta fecha-se. Não escolhem importar-se assim tanto. O sistema nervoso limita-se a entrar sozinho em modo “salva-vidas emocional”.

Com o tempo, esse papel pode parecer menos um hábito e mais uma personalidade.

Imagina uma criança num jantar de família barulhento. Dois adultos começam a discutir na cozinha. As vozes sobem, uma cadeira raspa, um prato cai com força demais em cima da mesa. O coração da criança dá um salto. Sem saber porquê, começa a arrumar a loiça, a fazer piadas, a abraçar o irmão mais novo com força a mais. Ninguém diz: “Tu és responsável por manter a paz aqui.” Ainda assim, a mensagem entra às escondidas, por portas batidas e maxilares cerrados.

Quando essa criança cresce, sentir-se emocionalmente responsável pelos outros parece tão natural como respirar.

O que à superfície parece bondade é, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência inconsciente. Quando uma criança aprende cedo que harmonia é igual a segurança, desenvolve um radar emocional hipersensível. Observa rostos, tom de voz, o mais pequeno suspiro. Aprende a antecipar o conflito antes de ele rebentar, a acalmar os outros antes de o próprio medo disparar.

Esse conjunto de competências é elogiado como empatia. Por dentro, está mais perto de um estado de alerta constante.

Como esse papel invisível governa a tua vida em silêncio

Um simples “check-in” pode ser surpreendentemente revelador. Da próxima vez que estiveres com outras pessoas, repara na rapidez com que a tua atenção abandona a tua própria experiência. Estás mesmo a saborear o café ou estás a monitorizar quem parece cansado, quem está irritado, quem pode estar a afastar-se? Sentes que és responsável por “resolver” qualquer desconforto na sala?

Se o teu humor sobe e desce conforme o dos outros, é bastante provável que aquele velho trabalho invisível ainda esteja ao comando.

Vê o caso da Sara, 34 anos, a “calma” do trabalho. Quando o gestor dela parece preocupado durante uma reunião, o estômago dela afunda. Começa a fazer piadas autodepreciativas para aliviar o ambiente, oferece-se para ficar com mais uma tarefa, tranquiliza toda a gente com um “Nós resolvemos isto, não stressem.” Ninguém pediu. Ninguém se opôs. Toda a gente fica secretamente aliviada.

Ela chega a casa em burnout, a perguntar-se porque está tão cansada quando “não fez nada o dia todo, só esteve sentada em reuniões”.

Por baixo deste padrão há uma crença aprendida: “Se os outros estiverem bem, eu tenho permissão para estar bem.” Isso vira a responsabilidade do avesso. Em vez de cada pessoa ser dona dos seus sentimentos, o cuidador emocional torna-se a cola, o amortecedor, o terapeuta não dito. Confunde empatia com controlo, achando que, se antecipar qualquer desconforto, ninguém vai explodir, ir embora ou rejeitá-lo.

O custo é subtil: os próprios sentimentos vão sendo adiados e, depois, esquecidos.

Libertares-te sem ficares frio/a

Uma prática pequena e concreta ajuda a começar a desfazer este nó. Escolhe uma situação recorrente em que costumas escorregar para o modo “gestor emocional”: jantares de família, reuniões de equipa, grupos de chat. Antes de entrares, escreve uma mini autorização no telemóvel ou num post-it: “O meu trabalho é estar presente, não regular os sentimentos de toda a gente.”

Lê duas vezes. Respira. Depois, durante o evento, pergunta-te em silêncio de vez em quando: “O que estou a sentir agora, no meu corpo?”

Uma armadilha comum é passar de “Sou responsável por toda a gente” para “Acabou, não quero saber de ninguém.” Essa viragem brusca costuma vir de anos de sobre-funcionamento. O objetivo não é ficares frio/a ou distante. É deixares que outros adultos tenham o seu próprio tempo emocional sem correres a aparecer com toalhas e guarda-chuvas.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhas. Vais esquecer-te, vais escorregar outra vez, vais dar demais de novo. O ponto é dares por isso um pouco mais cedo de cada vez, com menos autojulgamento e mais curiosidade.

Às vezes, o verdadeiro ato de cuidado não é acalmar toda a gente, mas confiar que conseguem lidar com as suas próprias tempestades.

  • Repara num momento por dia em que começas a “varrer” os humores dos outros.
  • Pára e dá nome ao teu próprio sentimento numa palavra simples: cansado/a, tenso/a, triste, aborrecido/a.
  • Pergunta-te: “Alguém me pediu ajuda explicitamente, ou estou a assumir que precisa?”
  • Diz um pequeno limite em voz alta esta semana, como: “Estou a ouvir-te, mas não consigo resolver isto por ti.”
  • Celebra qualquer passo, por mais pequeno que seja, em que escolheste a tua necessidade em vez da tua antiga descrição de funções emocional.

O alívio silencioso de devolver os sentimentos aos seus donos

Há um alívio estranho que aparece no dia em que percebes: “Estes sentimentos não são meus para carregar.” Ao início, pode até parecer errado, como largar um copo que tens segurado há anos. Podes recear que os outros te achem egoísta ou insensível. Podes até sentir falta daquela velha identidade de pessoa eternamente compreensiva.

Depois, aos poucos, abre-se espaço. Voltas a saborear a comida. Ouves sem tentar arranjar soluções. Sentes cansaço e paras mesmo, em vez de insistires para manter toda a gente calma.

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
A responsabilidade emocional é muitas vezes aprendida Normalmente vem de ambientes instáveis, tensos ou imprevisíveis na infância Ajuda-te a parar de culpar a tua personalidade e a ver um padrão de que um dia precisaste para sobreviver
Podes cuidar sem carregar A empatia não exige resolver, gerir ou absorver as emoções dos outros Dá-te permissão para apoiar as pessoas enquanto proteges a tua própria energia
Pequenas mudanças transformam hábitos profundos Perguntas simples e micro-limites enfraquecem o reflexo automático de “tenho de resolver isto” Oferece formas práticas de recuperares o teu espaço interior sem rebentares as tuas relações

FAQ:

  • Como sei se sou emocionalmente “responsável demais”? Muitas vezes sentes culpa quando os outros estão perturbados, mesmo que não tenha nada a ver contigo. Podes apressar-te a resolver problemas que não eram teus, ficar em alerta quando as pessoas estão tensas e ter dificuldade em descansar se alguém à tua volta não estiver bem.
  • Isto é o mesmo que ser empático/a? Empatia é sentir com alguém. Sobre-responsabilidade é sentir por essa pessoa e tentar controlar o estado dela. Uma liga-te; a outra apaga-te aos poucos.
  • Isto pode vir de famílias “normais”? Sim. Não precisas de trauma dramático. Um pai ou mãe que desabafava muito contigo, um irmão com emoções intensas, ou uma casa que evitava conflito podem ensinar-te, em silêncio, a seres o estabilizador.
  • As pessoas não vão ficar zangadas se eu parar de as “salvar”? Algumas podem reagir, sobretudo se beneficiavam do teu trabalho emocional constante. Esse desconforto não significa que estejas errado/a. Normalmente significa que a relação está a ajustar-se a um equilíbrio mais saudável.
  • Devo fazer este trabalho sozinho/a ou com um terapeuta? Podes começar sozinho/a com escrita (journaling), pequenos limites e auto-observação. Se a culpa for esmagadora ou estiver ligada a feridas mais profundas, a terapia pode oferecer um lugar mais seguro para desfazer o que tiveste de carregar durante tempo demais.

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