Saltar para o conteúdo

Porque tenho sempre frio mesmo quando estão mais de 20°C em casa?

Mulher com cobertor às riscas, segurando chá quente; termómetro e termómetro digital mostram 20°C, ao lado de janela.

Está embrulhado numa camisola, o termóstato marca 20°C e, ainda assim, está a tremer no sofá.

Algo não bate certo.

Esse frio persistente em casa não está só na sua cabeça, e nem sempre se resolve “aumentando o aquecimento”. Por detrás dessa sensação teimosa de frio há uma mistura de física, fisiologia e alguns hábitos que podem, discretamente, sabotar o seu conforto.

Porque é que 20°C não sabe ao mesmo a toda a gente

No papel, 20°C parece razoável. Muitas agências de energia até o recomendam como temperatura interior padrão. Ainda assim, há quem esteja de T-shirt a esse nível enquanto outros procuram uma manta.

O conforto térmico tem menos a ver com um único número no termóstato e mais com a forma como o seu corpo troca calor com o ambiente à sua volta.

O seu cérebro não “lê” um termóstato. Ele escuta sinais da pele e do interior do corpo, reagindo ao que sente à superfície e mais profundamente. Por isso, “tenho frio” pode significar algo muito diferente de pessoa para pessoa, mesmo na mesma divisão.

O papel escondido das paredes, janelas e da temperatura radiante

Muitas vezes pensamos apenas na temperatura do ar, mas o seu corpo troca calor constantemente com tudo o que o rodeia: paredes, chão, teto, mobiliário e janelas.

Se essas superfícies estão frias, o seu corpo perde calor para elas, um pouco como estar ao lado de um bloco de gelo. Pode continuar a ter ar a 20°C, mas o seu corpo sentir-se mais perto de 17 ou 18°C.

O que realmente sente é uma mistura entre a temperatura do ar e a “temperatura radiante média” das superfícies à sua volta.

Culpados frequentes em casas que “parecem mais frias do que o termóstato indica” incluem:

  • Paredes exteriores finas ou mal isoladas que se mantêm frias
  • Janelas de vidro simples ou antigas que “irradiam” frio para o interior
  • Chão de mosaico ou betão sem isolamento ou tapete
  • Divisões grandes e vazias onde o ar se mistura de forma desigual

É por isso que uma casa moderadamente aquecida mas bem isolada pode parecer mais quente do que um apartamento mal isolado com a temperatura definida mais alta.

Correntes de ar: o ladrão invisível do calor

Mesmo correntes de ar pequenas podem mudar tudo. Uma pequena fuga à volta do caixilho de uma janela ou por baixo de uma porta pode não parecer dramática, mas rouba calor à sua pele por convecção.

Pode notar isto se sentir mais frio sentado junto a uma janela do que no meio da sala, ou se os tornozelos e as mãos estiverem sempre gelados quando trabalha numa secretária perto de uma porta.

Verificações simples revelam muito: segure um lenço fino ou uma vela perto de caixilhos e grelhas de ventilação e observe se há movimento. Selar fendas óbvias, usar vedantes corta-correntes de ar e reorganizar ligeiramente o mobiliário pode reduzir essa sensação constante de “canto frio”.

Humidade: amiga, inimiga e pele a pedir socorro

A humidade influencia discretamente a forma como sente a temperatura, mesmo que nunca olhe para um higrómetro.

A maioria dos especialistas recomenda manter a humidade relativa interior entre 40% e 60% para um bom conforto térmico.

Quando o ar está demasiado seco

O aquecimento central e os aquecedores elétricos secam frequentemente o ar no inverno. Abaixo de cerca de 35–40% de humidade:

  • A humidade evapora-se mais depressa da sua pele
  • Os lábios e as mãos ficam repuxados ou gretados
  • O nariz e a garganta podem ficar irritados

Esta evaporação extra arrefece ligeiramente a pele, tal como o suor o arrefece no verão, deixando-o com mais frio do que a temperatura sugere.

Quando o ar está demasiado húmido

Por outro lado, casas antigas ou mal ventiladas podem reter humidade. Humidade elevada, sobretudo em divisões frescas, faz com que as paredes pareçam húmidas e mais frias ao toque, e favorece o crescimento de bolor.

Essa mistura - ar mais fresco, paredes frias, tecidos ligeiramente húmidos - cria um frio pegajoso que muita gente considera mais desconfortável do que o frio seco. Mesmo a 20°C, pode sentir-se como se estivesse numa cave.

Nível de humidade Sensação típica a 20°C
Abaixo de 30% Pele seca, garganta áspera, ar “cortante”, mais difícil aquecer
40–60% Equilibrado, a maioria confortável se a roupa estiver ajustada
Acima de 65% Ar pesado, frio húmido, paredes parecem mais frias, possível condensação

O fator humano: porque é que algumas pessoas têm sempre frio

Duas pessoas, uma divisão, um termóstato - reações completamente diferentes. A biologia tem um papel enorme.

Idade, hormonas e composição corporal

Vários fatores moldam o que sente a 20°C:

  • Idade: adultos mais velhos têm frequentemente circulação mais lenta e pele mais fina, perdendo calor mais depressa.
  • Hormonas: flutuações ligadas ao ciclo menstrual, gravidez ou problemas da tiroide podem alterar a produção de calor e o fluxo sanguíneo.
  • Massa muscular: os músculos funcionam como pequenos radiadores. Quem tem mais músculo tende a gerar mais calor.
  • Distribuição de gordura: a gordura isola, mas a distribuição importa. Mãos e pés frios podem acontecer mesmo com peso normal ou elevado.

É por isso que um adolescente de calções pode partilhar a sala com um avô/uma avó embrulhado(a) numa manta, ambos sentados aos mesmos 20°C.

Metabolismo, estilo de vida e hábitos

O seu dia a dia também “treina” o corpo. Quem trabalha ao ar livre durante todo o ano desenvolve alguma tolerância a temperaturas mais baixas. Quem passa longas horas sentado em frente ao computador, quase sem se mexer, produz menos calor e arrefece mais depressa.

Se for sedentário, os seus músculos queimam menos energia e criam menos calor, o que faz com que 20°C pareça muito mais frio.

Pequenas caminhadas, pausas para alongamentos, alguns agachamentos enquanto a chaleira ferve - estes micro-movimentos não substituem o isolamento, mas podem aumentar de forma notória o seu calor interno.

Quando o frio constante pode sinalizar um problema de saúde

Sentir frio às vezes no inverno é normal. Sentir frio permanentemente dentro de casa, enquanto os outros estão bem e a casa está razoavelmente aquecida, pode por vezes revelar uma condição subjacente.

Os médicos costumam procurar:

  • Perturbações da tiroide, especialmente hipotiroidismo
  • Défice de ferro ou anemia
  • Certos problemas circulatórios, como o fenómeno de Raynaud
  • Dietas muito baixas em calorias ou perda rápida de peso
  • Efeitos secundários de alguns medicamentos

Se 20–21°C lhe parecem insuportáveis, tem mãos e pés frios todo o ano e se sente invulgarmente cansado(a), vale a pena considerar um check-up médico, em vez de culpar apenas a caldeira.

Pequenas mudanças concretas que fazem 20°C parecer mais quente

Nem sempre precisa de subir o termóstato para se sentir melhor. Alguns ajustes simples podem mudar bastante a sua curva de conforto.

  • Aposte no chão: coloque tapetes grossos, sobretudo onde se senta ou fica parado(a), porque pés frios arrastam para baixo toda a perceção térmica.
  • Isole superfícies visualmente “frias”: uma cortina numa parede nua, cortinas térmicas nas janelas, mantas sobre sofás de pele.
  • Vista-se em camadas: camadas finas retêm ar e isolam melhor do que uma camisola grossa.
  • Mude a zona de estar: evite pôr a sua cadeira favorita mesmo ao lado de uma janela ou parede exterior.
  • Verifique a humidade: um higrómetro simples custa pouco e ajuda a decidir se precisa de um humidificador ou desumidificador.

Pés quentes, rins protegidos e um nível de atividade ligeiramente mais alto pesam muitas vezes mais no conforto do que mais um ponto no termóstato.

Conceitos úteis para compreender o seu próprio conforto

Dois termos técnicos podem clarificar o que se passa em casa:

  • Sensação térmica: a sua perceção pessoal e subjetiva de calor, neutralidade ou frio num dado ambiente.
  • Temperatura operativa: uma medida combinada que junta a temperatura do ar com a temperatura radiante das superfícies.

Imagine este cenário: o termóstato marca 20°C, mas a parede exterior e a superfície da janela estão a 14–15°C. A sua temperatura operativa pode, na prática, sentir-se mais perto de 17–18°C. O seu corpo reage a isso, não ao número “bonitinho” no visor.

Quando começa a pensar em termos de “temperatura operativa”, torna-se mais fácil priorizar melhorias e hábitos: vede primeiro essa janela com correntes de ar, afaste o sofá da parede fria, coloque um tapete e só depois ajuste o termóstato.

Como pode ser uma noite de inverno a 20°C

Imagine dois apartamentos idênticos, ambos a 20°C:

No primeiro, as paredes são isoladas, a humidade está nos 45%, um tapete espesso cobre o chão da sala e o sofá está afastado da janela. O morador usa meias e uma camisola leve, faz chá, mexe-se um pouco. Sente-se confortável, talvez até considere baixar um ponto no aquecimento.

No segundo, as paredes exteriores estão nuas e frias, a humidade é elevada por secar roupa dentro de casa, os caixilhos deixam entrar uma ligeira corrente de ar e a pessoa passa horas ao portátil, descalça num chão de mosaico. O termóstato marca o mesmo, mas ela pega numa manta e continua a queixar-se de frio.

Ambas as situações são comuns. Compreender a diferença ajuda-o(a) a atuar nas alavancas certas - edifício, ar, corpo - em vez de culpar interminavelmente o número no termóstato quando dá por si a tremer a 20°C.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário