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Porque os boomers vencem discretamente na vida, enquanto as gerações mais novas procuram likes, esgotam-se e sentem-se mais infelizes.

Homem idoso regando planta num terraço ensolarado, ao lado de chá, agenda e telemóvel, com cidade ao fundo.

Friday à noite, dois ecrãs, dois mundos.
Num sofá, uma jovem de 24 anos faz doomscrolling, saltando do TikTok para o Instagram, publica uma story e, cinco segundos depois, já está a ver quem a viu. O telemóvel acende-se como uma máquina de casino. O rosto dela não.

Do outro lado da sala, o pai boomer mexe um tacho de molho de tomate, a trautear desafinado uma playlist que tem há anos. O telemóvel antigo está a carregar no corredor. Vai espreitá-lo mais tarde, talvez. Prova o molho, encolhe os ombros, junta mais sal. Não está a pensar em ângulos, algoritmos ou engagement. Está a pensar se há pão suficiente.

Mesma casa, dois sistemas meteorológicos completamente diferentes dentro da cabeça.
Um está constantemente em performance.
O outro apenas vive.

Há aqui qualquer coisa estranha a acontecer.

Porque é que os boomers sentem discretamente que “chega”, enquanto toda a gente corre atrás de “mais”

Se olhares com atenção, notas isso nos encontros de família. Os boomers comem primeiro, falam mais alto e depois desaparecem para a cozinha para lavar a loiça e conversar. Os telemóveis ficam pousados na mesa, ecrãs apagados. Os mais novos ficam com o prato numa mão e o telemóvel na outra, a oscilar entre a conversa à frente deles e a conversa das notificações.

Os mais velhos riem-se de piadas fracas e repetem as mesmas histórias de 1987. Os mais novos tiram fotos à mesa, procuram o melhor ângulo, apagam, voltam a tirar, publicam.
Adivinha qual dos grupos parece mais relaxado quando chega a sobremesa.

Conheci uma mulher de 67 anos, a Claire, num café de estação de comboios. Estava a ler um livro de bolso com a capa rasgada, sem auscultadores, sem tablet apoiado. O café já estava frio; não lhe interessava. Disse-me que vê as amigas todas as quintas-feiras, ao vivo, sem grupo de chat, sem sondagem no Doodle. “Fazemos isto há vinte e cinco anos”, disse, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

Compara isso com uma jovem de 26 anos que entrevistei para uma reportagem sobre saúde mental. Mais de 1.800 seguidores. Cinco chats de grupo diferentes. Três apps de encontros. E, ainda assim, disse-me que por vezes passa um fim de semana inteiro sem que ninguém a chame pelo nome em voz alta. Online, é hiper-visível. Offline, sente-se mais sozinha do que nunca.

Os boomers cresceram com uma atenção que não era medida em visualizações. Eras “visto” se alguém se lembrasse do teu aniversário ou telefonasse para o telefone fixo. Eras popular se tinhas pessoas numa sala, não números num ecrã. A autoestima deles ficou ancorada em coisas que não se atualizam a cada trinta segundos: um emprego onde ficas, uma rua que conheces de cor, um parceiro com quem discutes e depois perdoas.

As gerações mais novas foram atiradas para uma economia de comparação infinita. A moeda são likes, o mercado nunca fecha e os preços mudam sempre que alguém publica umas férias melhores ou uma barriga mais lisa. O sistema nervoso delas está em horas extra por recompensas que evaporam de um dia para o outro. Os boomers não “ganham” porque a vida deles é perfeita. Ganham porque as regras do jogo são mais simples e o placar não é público.

O manual boomer: hábitos low-tech que protegem discretamente a saúde mental

Há um pequeno ritual que muitos boomers têm e que agora quase parece antiquado. Fazem uma coisa de cada vez. Cozinham e só cozinham. Vêm um filme e só veem um filme. Vão passear e só… passeiam. Sem podcast a 2x, sem contador de passos a disparar conquistas à frente deles.

Esse ritmo de foco único é ouro para o cérebro. A atenção deles não está constantemente fragmentada em “também estou a ver isto” e “já respondo àquilo”. Quando falas com um boomer à mesa de um café, muitas vezes ele está simplesmente ali, por inteiro, contigo.
Essa presença estável e indivisa funciona como um cancelamento de ruído emocional.

Podes pegar nisso sem, de repente, “desaparecer do mapa”. Começa com um hábito minúsculo e pouco glamoroso: escolhe uma atividade diária para proteger do telemóvel. Lavar a loiça. Lavar os dentes. O trajeto para o trabalho. Sem scrolling, sem “só mais um reel”, sem responder. Ao início é estranho, quase irritante. Percebes o quanto o polegar quer mexer.

Depois, o cérebro começa a reparar em detalhes outra vez. O som da água. A cara do motorista do autocarro. Os teus próprios pensamentos, sem edição. O erro comum é ir grande demais, depressa demais: apagar todas as apps, declarar um detox digital, e depois estoirar dois dias mais tarde. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. As fronteiras pequenas, quase aborrecidas, são as que mudam discretamente a atmosfera dentro da tua cabeça.

As gerações mais velhas não precisavam de palavras como “mindfulness” ou “bem-estar digital” porque uma parte da vida delas era automaticamente offline. A lentidão vinha incluída. Nós temos de a escolher de propósito.

  • Pede emprestado um ritual analógico
    Telefona a uma pessoa em vez de enviares dez notas de voz. Uma chamada desajeitada bate um reel polido quando o objetivo é ligação real.
  • Mantém um espaço sagrado
    Quarto, mesa de jantar, casa de banho - escolhe uma zona onde o telemóvel nunca passa a linha. Mesmo boomers com smartphones têm “zonas sem telemóvel” sem lhes chamarem isso.
  • Atrasa a tua primeira dose de validação
    Publica se quiseres, mas espera uma hora antes de ires ver. Esse intervalo treina o teu cérebro para não colar o teu valor à primeira rajada de notificações.
  • Planeia um encontro offline recorrente
    Jogos de tabuleiro mensais, caminhada semanal, almoço de domingo. Os boomers são mestres do evento recorrente. Reduz a fadiga de decisão e ancora-te a algo real.
  • Deixa alguns momentos sem registo
    Deixa o telemóvel na mala nos primeiros dez minutos de qualquer coisa divertida. Se for mesmo bom, vais lembrar-te na mesma.

Repensar o que é “vencer na vida” numa era de placares públicos

A verdade desconfortável é que os boomers não parecem obcecados com “vencer na vida”. Falam de reformas, ancas, jardins, netos, concertos antigos. O horizonte deles é mais pequeno, mas mais tangível. Entretanto, os mais novos fazem malabarismo com objetivos de carreira, biscates paralelos, rotinas de ginásio, autocuidado, ativismo, criação de conteúdos e uma campanha permanente de RP para a própria existência.

Talvez essa seja a vantagem silenciosa dos boomers: não andam ocupados a construir uma marca pessoal. A identidade deles não precisa de um slogan. Podem dar-se ao luxo de não serem cool, de usar o mesmo casaco durante dez anos, de falharem tendências por completo.
Estão a jogar pelo conforto, não pelo espetáculo.

Quando tiras os filtros e o ressentimento entre gerações, aparece uma pergunta mais útil. Não “quem teve mais facilidade?”, mas “quem está a construir uma vida que, por dentro, é mesmo habitável?”. Os boomers tiveram casas mais baratas e empregos mais estáveis, sim. As gerações mais novas têm mais liberdade, mais informação, mais ferramentas para se reinventarem. Cada lado tem cartas que o outro não tem.

A armadilha emocional é achar que a única forma de ganhar é ser visto a ganhar. Isso é o algoritmo a falar. Existe um caminho mais silencioso, em que o teu sistema nervoso não trabalha de borla para empresas que vendem a tua atenção. Em que um jantar com duas pessoas sabe melhor do que 200 pessoas a carregar num coração. Em que “chegar” é decidido por ti, não por um feed que nunca acaba.

E se o verdadeiro flex das gerações mais novas passasse a ser outra coisa qualquer: menos apps, laços mais profundos, tardes mais lentas que nunca são publicadas. E se o novo símbolo de estatuto fosse uma agenda com espaço em branco e uma mente que consegue ficar no mesmo sítio por mais de quinze segundos.

Os boomers tropeçaram nisso por terem nascido mais cedo. Nós não temos essa sorte.
Temos outra coisa: a oportunidade de desenhar conscientemente as partes do mundo deles que foram acidentais. Os rituais sem telemóvel. Os jantares recorrentes. As quintas-feiras banais com amigos.

Talvez a vitória não seja viver como um boomer.
Talvez seja parar de viver como uma emissão permanente.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Atenção como recurso limitado Os boomers cresceram com atividades mais lentas, de foco único, e com menos intrusão digital. Ajuda-te a perceber porque é que o teu cérebro se sente sobrecarregado e por onde começar a recuperar calma.
Rituais offline como proteção Hábitos simples e recorrentes - chamadas, jantares, caminhadas - funcionam como âncoras numa economia de atenção caótica. Oferece formas de baixo esforço para te sentires menos só e mais centrado.
Redefinir o “ganhar” Mudar de validação pública para satisfação privada altera a forma como o sucesso se sente. Dá permissão para procurares uma vida que sabe bem por dentro, e não apenas bem online.

FAQ:

  • Pergunta 1 Os boomers são mesmo mais felizes, ou só parece?
  • Alguns estudos mostram que adultos mais velhos reportam maior satisfação com a vida, sobretudo depois da meia-idade. Parte vem de perspetiva e de menor comparação social. Dito isto, muitos boomers também têm dificuldades - só é menos visível porque não publicam cada oscilação de humor.
  • Pergunta 2 Preciso de deixar as redes sociais para me sentir melhor?
  • Não. Para a maioria das pessoas, um reset de hábitos resulta melhor do que uma saída extrema. Reduzir scrolling passivo, silenciar contas que te disparam gatilhos e acrescentar planos offline costuma ter mais impacto do que apagar tudo num gesto dramático.
  • Pergunta 3 Qual é um hábito boomer que posso copiar hoje?
  • Escolhe um ritual offline recorrente com outro ser humano: uma caminhada semanal, um café à sexta, uma chamada ao domingo. Mete na agenda como não negociável e trata-o como uma reunião de trabalho.
  • Pergunta 4 Como deixo de comparar a minha vida com a de toda a gente online?
  • Faz curadoria do teu feed como se fosse uma dieta. Deixa de seguir ou silencia contas que te provocam inveja ou vergonha, segue mais pessoas que mostrem o “meio confuso”, e passa pelo menos tanto tempo a criar a tua vida como a ver os outros a viver a deles.
  • Pergunta 5 E se os meus amigos só quiserem conviver online?
  • Podes empurrar suavemente as coisas para o offline. Sugere uma videochamada em vez de mensagens intermináveis, ou propõe um pequeno encontro presencial. Alguns vão dizer que não, outros vão dizer que sim. Os que aparecem na vida real são as relações em que vale a pena investir.

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