You consegue vê-los à distância. As pessoas que rasgam o passeio como se estivessem atrasadas para o resto da vida. Sacos bem agarrados, maxilar cerrado, olhos já três ruas à frente. Você encosta-se para o lado quando passam a correr, apanhadas por uma tempestade privada que mais ninguém parece ver.
Nas redes sociais, elogiamos essas pessoas. “Olha como anda depressa, tão em forma, tão produtiva, que hustle.” Transformamos o passo frenético numa forma de virtude.
Mas observe com atenção. Os ombros estão tensos. A respiração é superficial. Não parecem livres.
E se quem anda depressa não for mais saudável, afinal?
E se estiver apenas mais ansioso - e um pouco instável?
Porque é que aquele(a) andarilho(a) rápido(a) pode estar a fugir dos próprios pensamentos
O mito soa reconfortante: quem anda depressa vive mais, é mais resiliente, mais atlético, mais bem-sucedido. Gostamos deste atalho. Ande rápido, ganhe na vida. Feito.
Na rua, porém, a história parece diferente. A pessoa apressada não desliza - faz barulho, tropeça no ritmo. O telemóvel vibra, os olhos descem num relance, e os passos aceleram de novo, como se a mensagem por trás do ecrã a empurrasse fisicamente para a frente.
A velocidade torna-se um escudo. Uma forma de nunca abrandar o suficiente para sentir o que realmente se está a passar.
Um(a) terapeuta com quem falei descreveu uma cliente que não conseguia andar devagar nem de férias. Ilha tropical, sem reuniões, sem prazos, e mesmo assim ela ziguezagueava por entre turistas idosos como se fossem cones de trânsito humanos.
O marido filmou-a em tom de brincadeira. Mais tarde, ao ver o vídeo, ela reparou em algo insuportável: toda a gente à volta parecia relaxada, suave, presente. Ela parecia alguém a tentar escapar a uma ameaça invisível.
Percebeu que aquele andar acelerado tinha começado durante um ano caótico no trabalho. Chefe novo, reestruturações constantes, medo de perder o emprego. O corpo aprendera a estar “ligado” o tempo todo. O trabalho mudou. O ritmo ficou.
Os psicólogos chamam, por vezes, a isto “hiperativação”: o sistema nervoso preso em alerta máximo. Não aparece apenas à noite, sob a forma de pensamentos a correr. Derrama-se na forma como come, como faz scroll, até na forma como atravessa a rua.
Andar depressa pode ser uma resposta silenciosa de pânico. O cérebro sussurra: continua a mover-te ou algo mau vai alcançar-te. E as pernas obedecem. Você não planeia. Só dá por si a chegar dez minutos mais cedo e a não se lembrar de metade do caminho.
O mundo aplaude o resultado - “Uau, tens tanta energia!” - e quase ninguém vê que o motor debaixo do capô é pura ansiedade.
Como a ansiedade sequestra a velocidade do seu andar (e o seu dia)
Há um detalhe que as pessoas ignoram quando citam estudos sobre marcha rápida e longevidade: esses estudos costumam falar de um ritmo intencional, não de uma pressa crónica.
Uma caminhada propositada de 20 minutos no parque, com os ombros relaxados e a respiração estável, não é o mesmo que atravessar uma estação cheia em modo “carga máxima”, a suar pela camisola, a verificar mentalmente e-mails que ainda nem recebeu.
A primeira é movimento. A segunda é luta-ou-fuga em duas pernas.
Pense na última vez em que esteve mesmo atrasado(a). Talvez o comboio tenha atrasado, o seu chefe estivesse à espera, o telemóvel estivesse com 3% de bateria. O seu andar não era apenas rápido - era frenético. Os pés batiam no chão com mais força. Esbarrava nas pessoas. Reagia em excesso a cada semáforo vermelho.
Agora imagine viver num corpo que se sente assim quase todos os dias, sem uma razão externa clara. Muitos “andarilhos rápidos” crónicos descrevem exatamente isso. Nem sequer se sentem especialmente desportivos. Sentem-se perseguidos pelo tempo.
Uma mulher contou-me que começou a medir o trajeto diário como uma competição. Se cortasse 30 segundos, sentia um orgulho estranho. Se a multidão a atrasasse, chegava a casa irritada sem saber porquê. Isso não é boa forma física. Isso é um sistema nervoso em modo de sobrevivência.
Do ponto de vista da saúde mental, faz sentido. A ansiedade empurra o corpo para antecipar ameaças e mover-se depressa. Pessoas com ansiedade basal elevada ou humor instável referem muitas vezes que “não suportam arrastar-se” ou “passam-se” quando alguém à frente anda devagar.
Por baixo da irritação há um medo primitivo: se eu abrandar, vou perder o controlo. Vou ser engolido(a) pelos meus pensamentos. Ou pela minha tristeza. Ou por tudo o que tenho evitado.
Então as pernas continuam a mover-se mais depressa do que o resto de si consegue processar. Parece produtividade. Sabe a perseguição.
Como testar o seu próprio ritmo - e deixar o corpo acalmar, com gentileza
Aqui vai uma experiência simples que lhe diz mais sobre o seu stress do que qualquer smartwatch. Amanhã, num percurso que conhece de cor, decida andar 20% mais devagar do que o habitual. Sem auscultadores, sem chamada - só você e o passeio.
Repare como o desconforto aparece depressa. Não nas pernas, mas na mente. Sente-se exposto(a). Impaciente. Envergonhado(a) por “ocupar espaço” a um ritmo mais calmo.
Se abrandar o seu andar só um pouco o(a) deixa imediatamente irritado(a) ou inquieto(a), o seu ritmo pode ter menos a ver com saúde e mais com autodefesa.
O passo seguinte não é virar para o extremo oposto e flutuar por aí como um monge de desenho animado. Isso é apenas outra forma de pressão. Em vez disso, experimente adicionar “zonas lentas” ao seu dia. Um corredor no trabalho. Uma rua no seu trajeto. Um corredor do supermercado.
Nessas zonas, solte conscientemente os ombros, baixe o olhar do horizonte para a meia distância e deixe que os outros o(a) ultrapassem. O objetivo não é elegância. O objetivo é aguentar a lentidão sem entrar em pânico.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. Mas uma ou duas vezes por semana chega para enviar um sinal ao sistema nervoso de que o mundo não desaba quando você deixa de andar a correr.
Com o tempo, pode reparar em algo subtil. Os pensamentos ficam um pouco menos pegajosos. O dia parece um pouco mais amplo. Você não se irrita tão depressa quando alguém lhe bloqueia o caminho.
Um psiquiatra que entrevistei disse-me:
“Quem anda depressa não é uma má pessoa, nem está condenado(a). Muitas vezes está apenas com medo, sobrestimulado(a), a funcionar a vapores emocionais. Quando aprende a andar cinco por cento mais devagar, a vida inteira começa a parecer dez por cento menos catastrófica.”
Depois, a médica rabiscou três coisas num bloco para a sua doente, e aquilo soou quase como uma pequena revolta silenciosa:
- Escolha um percurso diário em que abranda o passo de propósito.
- Expire completamente a cada dez passos, como se estivesse a deixar o ar sair de um balão.
- Repare numa cor, num cheiro e num som antes de chegar ao destino.
Talvez os andarilhos mais saudáveis sejam os que conseguem escolher a sua velocidade
Se andar depressa significasse automaticamente saúde, metade das pessoas a correr pelos centros das cidades estaria a irradiar paz interior. Basta sentar-se num banco à hora de ponta para ver que não é o caso. Os corpos são rápidos. As caras parecem exaustas.
A verdadeira competência talvez nem seja a velocidade, mas a flexibilidade. A pessoa que consegue andar depressa quando precisa de apanhar um autocarro e, depois, passear devagar pelo parque sem culpa, provavelmente está melhor do que aquela que só tem uma mudança: rápida.
Raramente falamos disto, porque a lentidão não fotografa bem. Não grita produtividade. No entanto, é nesses minutos aparentemente “desperdiçados” que o sistema nervoso repara, o cérebro digere o dia e o humor volta a encontrar equilíbrio.
Da próxima vez que reparar que ultrapassou dez pessoas seguidas, experimente uma coisa pequena: abrande durante meia rua e veja que emoções sobem à superfície. Irritação. Medo. Alívio. Curiosidade. Essa reação vale mais do que qualquer contador de passos.
Porque, por baixo da sua velocidade a andar, há uma pergunta escondida: você está a avançar em direção à sua vida - ou apenas a fugir de si?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Andar depressa pode sinalizar ansiedade | A pressa crónica reflete muitas vezes um sistema nervoso preso em alerta máximo, e não uma forma física superior. | Ajuda os leitores a reinterpretar hábitos e detetar stress escondido. |
| Abrandar é uma ferramenta de diagnóstico | Reduzir deliberadamente a velocidade ao andar revela quão confortável você está com a calma e a quietude. | Dá uma forma simples, da vida real, de verificar o equilíbrio emocional. |
| Pequenas “zonas lentas” recalibram o corpo | Percursos ou momentos designados para andar mais devagar podem ensinar o cérebro que há segurança sem pressa. | Oferece um método prático para reduzir a ansiedade e recuperar controlo. |
FAQ:
Pergunta 1 Andar depressa significa sempre que estou ansioso(a) ou instável?
Nem sempre. Algumas pessoas têm naturalmente uma passada mais rápida ou treinam para condição física. A questão é se consegue abrandar sem se sentir em sofrimento. Se abrandar mesmo um pouco o(a) deixa tenso(a) ou zangado(a), pode haver mais do que um simples hábito.Pergunta 2 Mas não há estudos a dizer que quem anda depressa vive mais?
Sim, a investigação associa a marcha rápida intencional a melhores resultados de saúde. Esses estudos descrevem normalmente exercício moderado e controlado, não a pressa constante e frenética do dia a dia, movida por stress ou medo.Pergunta 3 Como sei se o meu andar rápido é um problema?
Observe o contexto. Chega muitas vezes aos sítios “ligado(a)” em vez de revitalizado(a)? Pessoas que andam devagar provocam-lhe uma irritação desproporcionada? Tem dificuldade em passear mesmo aos fins de semana? Se a resposta for sim, o seu ritmo pode estar ligado à ansiedade.Pergunta 4 Mudar a minha velocidade a andar pode mesmo afetar a minha saúde mental?
Não é uma cura mágica, mas corpo e mente estão profundamente ligados. Acalmar o ritmo, a respiração e a postura envia ao cérebro um sinal de “não estou em perigo”, o que, com o tempo, pode reduzir o stress de base e a volatilidade emocional.Pergunta 5 E se o meu trabalho me obrigar a andar sempre a correr?
Pode não controlar todo o seu horário, mas ainda assim pode criar micro-momentos: um corredor, o caminho até à casa de banho, o trajeto da estação até à porta de casa. Esses pequenos bolsos de lentidão escolhida podem funcionar como válvulas de pressão num dia que, de resto, é acelerado.
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