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Pescadores relatam que tubarões morderam a corda da âncora pouco depois de orcas se aproximarem do barco num encontro tenso no mar.

Dois homens num barco seguram uma linha com isca para atrair tubarão visível na água.

O mar estava liso como aço escovado quando apareceu a primeira barbatana. Mesmo à proa, um triângulo preto e alto cortou a superfície, seguido por um clarão branco de flanco e aquela máscara preto-e-branca inconfundível. A tripulação no pequeno barco de pesca ficou em silêncio absoluto. Ninguém estendeu a mão para a sandes, ninguém foi ver o telemóvel. Todos os olhos ficaram presos às orcas, que se aproximavam em silêncio à volta deles, como peças de xadrez a deslizarem para a posição num tabuleiro azul.

Depois veio um som completamente diferente. Um raspar áspero. Um estremecimento a atravessar o casco. A amarra da âncora deu um puxão, uma vez, duas. Um pescador jura que viu a barriga pálida de um tubarão rolar mesmo por baixo da superfície, dentes a rasparem e a mastigarem a linha grossa como se fosse um cordão de alcaçuz.

Lá fora, longe de terra, de repente sentes-te muito, muito pequeno.

Quando aparecem orcas e entram os tubarões

Pergunta a qualquer pescador comercial experiente e ele dir-te-á: há dias no mar que parecem carregados, como se o oceano inteiro estivesse a prender a respiração. Foi esse o tipo de dia descrito recentemente ao largo da costa da África do Sul, quando orcas começaram a circular um pequeno barco de pesca apenas minutos antes de tubarões começarem a morder a amarra da âncora.

A tripulação largou o aparelho ao amanhecer. As primeiras horas foram calmas, quase aborrecidas. Depois, as orcas apareceram do nada - três - a deslizar ao longo do casco como submarinos fantasmagóricos. Saíram câmaras, fizeram-se piadas nervosas. O ambiente passou de rotina a tensão crua em segundos. Então a linha ficou esticada. O barco guinou. Havia algo grande a mexer na âncora, e não era a ondulação.

Mais tarde, um pescador descreveu aquilo como um guião de documentário de natureza, só que sem narrador para explicar o que se estava a passar. As orcas mantinham a distância, vindo à superfície com respirações lentas e controladas. Entretanto, a amarra da âncora vibrava e desfibrava-se, enquanto mandíbulas invisíveis roíam em investidas curtas e violentas.

Outra tripulação, a centenas de milhas, ao largo da Austrália Ocidental, conta uma história quase idêntica: orcas a acompanhar o barco e, depois, tubarões a materializarem-se de repente por baixo da popa. Mesmo padrão, o mesmo ritmo sinistro. Já não são histórias isoladas contadas à volta da fogueira. Mestres e patrões estão a comparar notas em bares do porto e em grupos de WhatsApp, a trocar vídeos tremidos de amarras a sacudirem e formas escuras a contorcerem-se logo abaixo da superfície. Uma imagem aproximada começa a formar-se.

Biólogos marinhos suspeitam há muito que orcas e tubarões estão presos num jogo de poder subtil. As orcas são predadores de topo, com reputação de inteligência e estratégia. Os tubarões - dos “bronze whalers” aos tubarões-brancos - dominam uma camada diferente da cadeia alimentar. Quando as orcas chegam, por vezes os tubarões desaparecem como se alguém tivesse desligado um interruptor.

Então o que significa quando os tubarões não fogem, mas avançam e mordem cordas? Alguns especialistas acham que os tubarões estão a atacar um objeto fácil na água, curiosos ou agitados por sinais elétricos do barco. Outros suspeitam de comportamento alimentar caótico desencadeado pela presença de predadores maiores. Os pescadores têm uma explicação mais direta: quando grandes caçadores se cruzam, nada na água volta a parecer seguro. Nem sequer uma amarra grossa e de confiança.

Como as tripulações lidam realmente com estes encontros de alta tensão

Quando a corda começa a dar puxões e o mar parece “eletrificado”, não há nenhum manual no painel que cubra totalmente o que fazer. A maioria dos mestres recorre a três instintos básicos: manter a calma, proteger o casco e garantir uma via de saída. Nesse barco sul-africano, o primeiro gesto do capitão não foi heróico - foi prático. Reduziu o motor para ralenti e mandou toda a gente afastar-se do bordo.

Depois fez algo que soa contraintuitivo: observou e esperou. Nada de acelerações súbitas, nada de recolhas em pânico. Puxar com força uma corda que um tubarão tem na boca pode acabar mal para o tubarão e para a tripulação. O capitão deixou a tensão aliviar, preparado para sacrificar a âncora em vez de arriscar uma linha a partir e a chicotear pelo convés. Perder equipamento custa dinheiro. Perder um tripulante custa tudo.

Muitas tripulações admitem que já tomaram a decisão errada pelo menos uma vez: puxar uma linha enquanto um tubarão grande se debate, bater no casco com um gancho para o assustar, inclinar-se demasiado sobre a popa só para “ver melhor”. Esta última é o erro silencioso que mais mestres temem e nem sempre confessam. A curiosidade num convés a balançar é coisa escorregadia.

Todos já estivemos lá - aquele momento em que o instinto te diz para te chegares mais em vez de recuares. No mar, esse instinto pode tornar-se brutal, rapidamente. As vozes calmas a bordo, as que dizem “afasta-te da borda” ou “deixa, voltamos a armar depois”, muitas vezes soam aborrecidas no momento. Não são. São a razão por que as pessoas voltam a casa. Sejamos honestos: ninguém segue todas as instruções de segurança palavra por palavra quando a adrenalina sobe e os dentes brilham debaixo do barco.

Durante um episódio particularmente tenso gravado ao largo da Nova Zelândia, um pescador veterano resumiu o ambiente enquanto os tubarões trabalhavam a corda e as orcas cruzavam mesmo para lá do rasto.

“Sentes que te largaram no meio da luta de outra pessoa”, disse mais tarde. “As orcas estão ali fora, calmas como tudo, e cá em baixo os tubarões estão a perder a cabeça com o teu equipamento. Tu não mandas. Tu estás só… a atrapalhar.”

A sua tripulação mantém agora alguns hábitos simples sempre que grandes predadores começam a circular:

  • Arrumam equipamento solto do convés para ninguém tropeçar se o barco der um safanão.
  • Designam uma pessoa para não fazer mais nada senão vigiar a água e anunciar movimentos.
  • Combinam de antemão: uma âncora ou uma linha podem ser cortadas e deixadas para trás sem discussão.
  • Filmam só depois de toda a gente estar em segurança, não enquanto há pessoas inclinadas sobre a borda.
  • Falam sobre o que aconteceu depois, enquanto ainda está fresco, para ajustar o que resultou e o que não resultou.

Num dia calmo no porto, estes passos podem parecer excessivos. Lá fora, com tubarões a mastigar a linha e orcas a passar a planar, de repente parecem puro bom senso.

Os jogos de poder do oceano, vistos de um pequeno convés

Histórias de tubarões a morder amarras de âncora pouco depois de orcas se aproximarem de barcos tocam em algo estranhamente antigo. Não é só sobre predação ou equipamento danificado. É sobre estar fisicamente presente na zona de sobreposição dos mundos de dois predadores de topo, num lugar onde os humanos são visitantes, não anfitriões. Essa sensação fica muito tempo depois de o barco regressar, mesmo quando o peixe já foi vendido e os conveses lavados.

Alguns pescadores falam de uma espécie de “ressaca” no dia seguinte. Revêem a imagem das orcas a patrulhar o casco, o embate surdo do corpo de um tubarão contra a linha, o estalo limpo e impotente quando finalmente se corta a âncora e se deixa ir. Outros sentem-se puxados para uma curiosidade ainda maior: leem sobre estratégias de caça das orcas, veem vídeos de marcação de tubarões até tarde, e percebem como sabemos pouco sobre quem controla o quê por baixo da ondulação.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As orcas podem alterar o comportamento dos tubarões Testemunhas relatam tubarões a aparecerem ou a agirem de forma agressiva junto ao equipamento pouco depois de orcas se aproximarem do barco. Ajuda a perceber porque é que um mar calmo pode ficar tenso muito rapidamente à volta de grandes predadores.
Âncoras e cabos são descartáveis Mestres experientes preferem cortar o equipamento em vez de “lutar” com um tubarão preso à linha junto ao casco. Destaca uma mentalidade real de segurança, mais importante do que proteger o equipamento.
Hábitos simples reduzem o pânico Desimpedir o convés, atribuir um vigia e combinar quando cortar o equipamento mantém a tripulação focada, não paralisada. Oferece ações concretas e à escala humana num ambiente que pode ser esmagador.

FAQ:

  • As orcas atacam mesmo tubarões perto dos barcos? Há casos documentados de orcas a caçarem tubarões, incluindo tubarões-brancos, mas isso costuma acontecer longe das embarcações. Perto de barcos, as tripulações veem mais frequentemente orcas a passar enquanto os tubarões reagem de forma imprevisível junto de linhas e âncoras.
  • Porque é que um tubarão morderia uma amarra de âncora? Os tubarões investigam objetos com a boca e são sensíveis a vibrações e sinais elétricos. Uma corda em movimento em água agitada pode provocar uma mordida de teste que, vista do convés, parece dramática.
  • Os barcos de pesca estão realmente em perigo durante estes encontros? O casco raramente está em risco, mas as pessoas podem estar se se inclinarem sobre a borda, puxarem por cordas sob carga ou se moverem de forma descuidada num convés instável quando há animais grandes por perto.
  • As tripulações conseguem evitar estas situações? Não conseguem controlar orcas ou tubarões, mas podem escolher onde largam o equipamento, manter-se atentos à vida marinha nas proximidades e tratar todos os encontros com grandes predadores com calma e cautela treinada.
  • Turistas ou pescadores recreativos devem preocupar-se? A maioria das pessoas nunca verá um evento destes de alta tensão. Para quem vir, ouvir o mestre, manter-se afastado do bordo e resistir à vontade de procurar aquela fotografia perfeita em grande plano faz toda a diferença.

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