A rua ainda estava meio adormecida quando apareceu o primeiro pássaro. Um chapim-de-cabeça-preta, eriçado, com a cabeça inclinada, a avaliar o comedouro como um cliente desconfiado num café sossegado. O ar tinha aquele frio cru de fevereiro, do tipo que pica o nariz e nos faz perguntar porque raio estamos cá fora, de chinelos, a segurar um saco de algo que parece um pequeno-almoço que correu mal.
Do outro lado da vedação, um vizinho já estava cá fora também, a apertar mais o casaco e a polvilhar cuidadosamente um esfarelado pálido num comedouro de tabuleiro. Não era semente “fina”. Não era nenhuma mistura cara, de marca, “especial de inverno”. Era apenas um miminho simples e barato de fevereiro que parecia… básico demais para resultar.
Dez minutos depois, o quintal fervilhava de asas.
Há uma razão para cada vez mais amantes de aves estarem, discretamente, a fazer o mesmo.
O miminho barato de fevereiro a que as aves não resistem
Pergunte em grupos de observação de aves e vai ouvir a mesma frase dita em surdina, com um certo orgulho satisfeito: “Ah, em fevereiro eu uso apenas sebo e misturas de gordura da cozinha.” Esse é o truque nada secreto e amigo da carteira. Quando a temperatura desce e as fontes naturais de alimento desaparecem, as aves acorrem a tudo o que seja rico em gordura e calorias. Para elas, um bloco de sebo ou um bolo de gordura caseiro é como um buffet livre num restaurante de inverno.
O melhor é que este miminho não precisa de custar muito. Sebo simples do talho, um bloco barato do supermercado ou gordura de bacon guardada podem tornar-se a estrela do seu comedouro.
Uma professora reformada no Minnesota descreveu como isto começou para ela. Sempre colocou sementes de girassol e amendoins, mas fevereiro era morto: uma ou duas aves corajosas e depois longos períodos vazios. Um ano, por impulso, comprou um bloco de sebo em promoção e pendurou-o numa gaiola de arame do lado de fora da janela da cozinha.
Diz que a diferença foi visível numa só manhã. Às 9h, os pica-paus-fofinhos revezavam-se. Os chapins entravam e saíam como pequenos ladrões. Até um pica-pau-trepador, tímido, desceu pelo tronco, apanhou uma becada e zarpou. “Parecia que eu tinha aberto um pequeno café de inverno”, riu-se, “e o bairro inteiro recebeu o recado.”
A razão pela qual isto funciona é biologia simples. Em fevereiro, as aves pequenas gastam energia muito depressa, só para se manterem quentes durante a noite. Só sementes nem sempre chegam, sobretudo quando têm de perder tempo a abrir cascas e a procurar no meio da neve. Alimento rico em gordura dá-lhes mais calorias, mais depressa, com menos esforço.
Sebo, gordura bovina e “bolos de gordura” caseiros são basicamente combustível de sobrevivência concentrado. Quando oferece isso precisamente quando as noites são mais longas e mais frias, torna-se a paragem fiável na rota matinal delas. As aves lembram-se dos lugares onde encontraram energia fácil - e voltam. Muitas vezes com companhia.
Como os amantes de aves transformam sobras da cozinha num íman matinal
O método básico é quase desconcertantemente simples. Vai guardando gordura de cozinha - gordura de vaca derretida e coada, gordura de bacon já fria, pingos de assados - e derrete-a suavemente numa panela. Depois mistura “enchimentos” baratos como flocos de aveia, farinha de milho, amendoins esmagados ou o pó de sementes do fundo do saco que a maioria das pessoas deita fora.
Verta essa mistura para um tabuleiro raso, uma forma de queques (muffins) ou até um recipiente de plástico antigo, deixe solidificar lá fora, e fez os seus próprios blocos de inverno para aves por um preço quase nulo. Coloque-os numa gaiola de sebo ou simplesmente ponha um pedaço num comedouro de plataforma abrigado. Em manhãs frias, o cheiro espalha-se depressa.
Muita gente começa a fazer isto por acaso. Frita bacon, olha para a frigideira e sente-se culpado por despejar aquela gordura toda pelo ralo. Um dia, em vez disso, deita-a num frasco. O frasco vai enchendo, pesquisa “o que fazer com gordura de bacon para aves”, e cai numa toca de coelho.
Um casal jovem no Ohio fez exatamente isso. A primeira tentativa foi trapalhona: gordura de bacon, aveia instantânea, alguns amendoins esmagados. Prensaram tudo numa caixa plástica de comida para fora e deixaram-na no alpendre durante a noite para endurecer. No dia seguinte, desenformaram o bloco, encaixaram-no num cesto pendurado e esperaram. À hora do almoço, o quintal - normalmente silencioso - estava a receber chapins-de-crista, escrevedeiras e um pica-pau-de-barriga-vermelha que parecia quase ofendido por nunca ter sido convidado antes.
Há uma lógica para usar mimos de gordura baratos em fevereiro que vai além de poupar dinheiro. Misturas comerciais de sementes incluem muitas vezes enchimentos que as aves mal tocam. Em contrapartida, uma grande fornada de bolos de gordura caseiros pode durar uma semana ou mais, alimentando visitas repetidas dos mesmos bandos.
Basicamente, troca um pequeno hábito de cozinha por um lugar na primeira fila da natureza. E, sim, pode ser estranhamente satisfatório transformar aquilo que antes era “lixo” em algo de que criaturas selvagens dependem. Para muitos amantes de aves, esse pequeno gesto de cuidado torna-se parte do ritmo do inverno.
Fazer bem: hábitos simples que fazem as aves voltar
A pequena nuance que faz grande diferença é a consistência. Se conseguir, coloque mimos de gordura mais ou menos à mesma hora todas as manhãs, sobretudo em períodos frios ou de neve. As aves aprendem depressa. Assim que percebem que o seu quintal oferece pequeno-almoço regular, começam a ajustar a rota para passar cedo no comedouro.
Use uma gaiola simples de sebo em arame, um saco de rede de cebolas, ou uma plataforma rasa fora do alcance de gatos da vizinhança. Escolha um local perto de uma árvore ou arbusto para as aves poderem alternar entre abrigo e comida. Pense nisto como colocar uma mesa perto da saída num café movimentado: fácil de chegar, fácil de fugir se algo as assustar.
Muita gente desanima após uma ou duas tentativas. Pendura um bloco, não vê aves durante um dia, e assume que “não funciona” e desiste. É aí que entra a paciência. As aves dependem muito de rotina e segurança. Fontes novas de alimento são testadas lentamente, sobretudo em quintais com muito movimento ou animais barulhentos.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. A vida acontece, o trabalho atrasa, a mistura de gordura acaba. Está tudo bem. Desde que o seu comedouro não oscile drasticamente entre fartura e fome durante semanas, as aves mantêm-no no “mapa mental” delas. Pense em semanas, não em horas, quando estiver a avaliar resultados.
“Desde que começámos a pôr sebo todos os fevereiros, as manhãs ficaram diferentes”, diz Rob, observador de aves no quintal há muitos anos. “Abre as cortinas e há movimento, cor, pequenos dramas a acontecerem em cima de um quadrado de gordura. O inverno não parece tão vazio.”
- Use gorduras simples e sem sal (sebo bovino, gordura de bacon já fria, pingos de assados).
- Junte aglutinantes baratos: aveia, farinha de milho, sementes velhas, amendoins esmagados ou miolo de sementes de girassol.
- Evite misturas moles que derretem em dias mais quentes, para a gordura não se colar às penas.
- Coloque os comedouros perto de abrigo, mas suficientemente alto para as aves terem boa visibilidade de predadores.
- Remova gordura antiga e rançosa e substitua por blocos frescos a cada poucos dias em períodos mais amenos.
A alegria silenciosa de um comedouro cheio no mês mais duro
Fevereiro pode parecer interminável. Dias curtos, neve suja, aquela inquietação vaga quando já se está farto do inverno mas a primavera ainda soa a rumor. Um comedouro cheio corta essa sensação pesada de uma forma estranhamente estabilizadora. Fica à janela com o café, vê um pica-pau-trepador a sacudir migalhas da borda, um pardal à espera da vez, um cardeal a aterrar como uma chama caída no ramo acima.
Tudo isto porque derreteu um pouco de gordura da cozinha e a deitou num recipiente velho numa terça-feira à noite.
Para muitas pessoas, esta rotina barata torna-se um pequeno ritual de inverno. Uma forma de dizer em silêncio: “Eu ainda estou aqui; vocês ainda estão aqui; vamos conseguir passar por isto.” As crianças começam a reconhecer os visitantes habituais. Os adultos começam a notar as mudanças do tempo por quem aparece e quem não aparece. Um vizinho pode bater à porta e perguntar: “O que é que você está a pôr cá fora? O seu quintal parece um aviário todas as manhãs.”
A resposta raramente é glamorosa. Normalmente é algo como: “Ah, só um bloco de sebo e o que sobrou no saco da aveia.” Mas é essa a beleza.
Alguns vão ler isto e ficar curiosos. Outros vão lembrar-se de um avô ou avó que fazia exatamente o mesmo, quando ninguém chamava a isto um “truque” nem publicava nas redes sociais. Era apenas a forma de ajudar as pequenas vidas do lado de fora da janela a atravessar as semanas amargas.
Pode tentar uma vez, não ver nada e esquecer. Ou pode levantar os olhos do telemóvel numa manhã cinzenta, ouvir uma explosão súbita de asas e perceber que o seu miminho barato de fevereiro transformou o seu quintal no lugar mais vivo da rua. É desse momento que muitos amantes de aves já não voltam atrás.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Mimos baratos à base de gordura resultam | Sebo, gordura já fria e enchimentos simples atraem aves no frio de fevereiro | Comedouros cheios sem comprar misturas especiais caras |
| Consistência vale mais do que perfeição | Alimentação matinal mais ou menos regular cria confiança e visitas repetidas | Atividade mais fiável e melhor observação a partir de casa |
| Montagem simples, grande impacto | Gaiolas básicas, colocação segura e limpeza ocasional chegam | Rotina fácil, de baixo esforço, que apoia a sobrevivência das aves locais |
FAQ:
- O que é exatamente o sebo, e onde o consigo?
O sebo é a gordura dura em redor dos rins de vacas ou ovelhas. Pode pedi-lo no balcão do talho, comprar blocos de sebo já feitos em supermercados ou lojas de jardinagem, ou guardar gordura derretida e coada da sua própria cozinha em casa.- A gordura de bacon é segura para as aves?
Sim, gordura de bacon simples e já fria pode ser misturada com aveia ou sementes, desde que não esteja muito salgada nem temperada com coisas como alho ou cebola. Use-a como parte de uma mistura, não como único ingrediente, para que o bloco fique firme e não demasiado gorduroso.- Os mimos de gordura não vão tornar as aves dependentes de mim?
Não. As aves alternam naturalmente entre várias fontes de alimento. O seu comedouro é apenas uma paragem na rota delas. Os mimos de gordura ajudam-nas em períodos difíceis, mas não apagam o instinto de procurar alimento noutros locais.- Porque é que as aves parecem preferir gordura especificamente em fevereiro?
O fim do inverno é duro: menos insetos, sementes enterradas e noites longas e frias. Alimento rico em gordura dá energia rápida e concentrada quando mais precisam, por isso o sebo em fevereiro costuma atrair mais visitantes do que sementes apenas em tempo ameno.- Como sei se a gordura estragou?
Se cheirar a azedo, forte ou “estranho”, ou se vir bolor ou uma película viscosa, deite fora e lave o comedouro com água quente e detergente. Gordura fresca deve cheirar suavemente e estar firme - não pegajosa nem rançosa.
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