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O microcimento está a desaparecer: este é o material que vai substituí-lo nas nossas casas.

Pessoa a aplicar massa numa parede em casa, usando uma espátula e uma esponja. Planta e frascos no móvel ao fundo.

A tendência parece ter virado mais depressa do que um café arrefece. Durante anos, o microcimento foi o “atalho” para um look contínuo: chão, ilha, casa de banho - tudo cinzento, liso, fotogénico.

Depois vem o quotidiano. Uma lasca aqui, uma mancha ali, um canto que denuncia o que está por baixo. E, mais do que isso, aquela sensação de “frio” e de déjà-vu: muita gente fez, muitos espaços ficaram iguais.

A queda do microcimento: de material de sonho a fadiga visual

O microcimento não ficou “mau” de um dia para o outro. Ficou previsível - e, em muitos casos, exigente demais para a vida real.

  • Visualmente, a superfície contínua amplifica tudo: migalhas, pingos, marcas de água, riscos finos e remendos.
  • Tecnicamente, é um revestimento fino (não é uma laje de betão). Em suportes que mexem (madeira, placas, zonas com vibração, soleiras), podem surgir microfissuras e pequenas descolorações com o uso.
  • Na manutenção, há um ponto que apanha muita gente: em cozinhas e WC, produtos “fortes” (desincrustantes ácidos, lixívia frequente, esfregões abrasivos) podem atacar o acabamento/selante. Em zonas com água dura (comum em muitas áreas), o calcário também se nota mais.

O “total look” (chão + paredes + bancada + duche) foi parte do sucesso - e da saturação. Num cenário perfeito, resulta. Numa casa com crianças, animais, panelas, e pressa, a promessa de perfeição contínua torna-se um stress.

O que muita gente quer agora não é mais ruído visual, nem um cenário de loja: é um fundo calmo que pareça vivido, sem parecer desleixado.

A nova estrela: rebocos minerais de cal e paredes de “minimalismo quente”

Entram os rebocos minerais pigmentados (cal, argila) e algumas tintas minerais ultra-mate com textura. Mantêm a ideia de superfície “quase contínua”, mas trocam a frieza industrial por um acabamento quente, táctil e com profundidade.

O que muda na prática:

  • Luz mais bonita: o micro-relevo quebra reflexos e faz a divisão parecer mais suave ao longo do dia.
  • Menos “efeito vitrine”: pequenas variações são parte do acabamento, por isso a parede não precisa de parecer perfeita para parecer bem.
  • Respirabilidade (com nuance): cal e argila tendem a gerir melhor a humidade superficial e a ser mais confortáveis ao toque, mas não “curam” problemas de infiltrações ou humidade ascendente - isso é obra de construção/impermeabilização e ventilação.
  • Acústica: não é isolamento, mas a textura pode ajudar a reduzir aquela sensação de eco de superfícies duras e lisas.

Em casas de banho e cozinhas, funciona - desde que se escolha sistema certo para zona húmida (produto + primário + acabamento/selagem). Reboco mineral atrás de um lavatório não vive as mesmas condições do interior de um duche.

O microcimento impressiona. O reboco convida.

Como mudar do microcimento para texturas minerais sem enlouquecer

Se já tem microcimento, raramente compensa “arrancar tudo”. O caminho mais simples é reequilibrar:

1) Mantenha o microcimento onde faz sentido (muitas vezes no chão ou numa bancada bem selada).
2) Aqueça as paredes com cal/argila em tons neutros quentes (areia, écru, greige).
3) Faça a transição por fases: uma parede principal primeiro, depois o resto.

Dois detalhes que evitam dores de cabeça:

  • Preparação manda: por cima de microcimento, tinta acetinada, azulejo ou superfícies muito fechadas, é comum precisar de lixagem/limpeza + primário de aderência. Saltar isto costuma dar destacamentos e manchas.
  • Tempo de cura é real: rebocos minerais não são “tinta cara de fim‑de‑semana”. Camadas, secagens e a mão de quem aplica contam. Em regra, planeie dias, não horas - e evite lavar/forçar o acabamento logo no início.

Faça uma placa de teste (nem que seja numa zona escondida). E, mesmo com DIY, uma conversa paga com um aplicador experiente pode poupar retrabalho.

“As pessoas dizem-me: ‘Já não quero betão, quero algo que respire’”, comenta Ana, arquitecta de interiores. “Aceitam mais nuance e imperfeição - desde que a casa se sinta calma e habitável.”

  • Comece pequeno
    Uma parede de destaque ou uma zona de cabeceira chega para perceber textura, cor e manutenção.

  • Escolha neutros quentes
    Se tem microcimento cinzento, subir 1–2 “graus” para o quente costuma integrar melhor do que trocar para outro cinzento frio.

  • Misture texturas, não só cores
    Paredes minerais + madeira com veio + têxteis (linho, lã) dão “casa” sem encher.

  • Pergunte sobre manutenção
    Em zonas de toque/salpicos pode ser preciso cera/selante; pergunte como limpar e se dá para retocar sem marcar.

  • Aceite o envelhecimento como parte do charme
    A pátina é esperada. O objetivo é “bonito com uso”, não “perfeito para sempre”.

Para além das tendências: o que esta mudança diz realmente sobre as nossas casas

O microcimento não desaparece; perde o monopólio. A mudança é de linguagem: menos “concha total” e mais mistura inteligente.

Hoje faz sentido pensar assim:

  • Microcimento em doses (onde a resistência e a limpeza compensam) + paredes minerais para conforto visual e tátil.
  • Zonas húmidas com rigor técnico: independentemente do acabamento, o que manda é a impermeabilização correta por baixo e a ventilação/extração.
  • Escolhas que aguentam terça‑feira à noite, não só fotos: o melhor material é o que não o obriga a viver com medo de manchar.

As tendências passam. O que fica é a preferência por superfícies que aceitam a vida - e a deixam aparecer de forma bonita.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Fadiga do microcimento Sobre-exposição, stress de manutenção, efeito visual frio Ajuda a perceber porque é que a sua casa de repente parece “estranha” ou desactualizada
Ascensão dos rebocos minerais Revestimentos de cal e argila, neutros quentes, texturas suaves Dá-lhe uma alternativa concreta e moderna a considerar no seu próximo projecto
Transição prática Combinar microcimento existente com novas paredes texturadas Mostra como actualizar o espaço sem recomeçar do zero nem gastar em excesso

FAQ:

  • O microcimento está mesmo “acabado” ou só menos na moda?
    Está menos dominante. O “total look” tende a cansar mais depressa; usos pontuais e bem integrados continuam a fazer sentido.

  • Posso aplicar reboco de cal ou argila directamente sobre microcimento?
    Por vezes, sim - mas depende do estado, do selante e da aderência. Normalmente é preciso lixar/limpar e aplicar um primário adequado antes das camadas minerais.

  • Os rebocos minerais são adequados para casas de banho e cozinhas?
    Em muitas situações, sim. Em zonas de salpicos e especialmente em duches, confirme o sistema completo (produto + proteção final) e não confunda acabamento decorativo com impermeabilização.

  • Qual é a diferença de preço entre microcimento e reboco de cal?
    Os dois são muito mão-de-obra. Em muitos casos, acabam na mesma ordem de grandeza por m², variando mais com a preparação do suporte, a complexidade e a equipa do que com o material “em si”.

  • Consigo, realisticamente, fazer estas paredes texturadas eu mesmo?
    Uma velatura ou textura simples é viável com testes e paciência. Para cantos difíceis, grandes áreas ou zonas húmidas, um profissional reduz muito o risco de manchas, fissuras e destacamentos.

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