O transportador norte-americano confirmou uma encomenda recorde à Boeing, apostando fortemente no 737 MAX e no 787 Dreamliner numa altura em que o fabricante americano precisa urgentemente de uma vitória face à Airbus.
A aposta recorde da Alaska no Boeing 737-10
A Alaska Airlines fez a maior encomenda de aeronaves da sua história: 105 Boeing 737-10, além de opções para mais 35 unidades do mesmo modelo.
O 737-10 é a maior variante da família 737 MAX, concebida para transportar mais passageiros em rotas médias muito procuradas, mantendo os custos operacionais sob controlo. Para a Alaska, que já opera exclusivamente 737 na sua frota principal, a escolha parece quase natural.
Com esta encomenda, a Alaska garante um fluxo de novos aviões de corredor único que pode valer mais de 6 mil milhões de euros, mesmo após fortes descontos típicos do setor.
Atualmente, a transportadora opera 248 Boeing 737 e tem encomendas de 174 aeronaves 737 MAX. A adição do novo compromisso com o 737-10 reforça ainda mais uma frota já altamente padronizada.
Esta padronização é importante. Os pilotos conseguem transitar entre modelos com maior facilidade. As equipas de manutenção trabalham em sistemas familiares. A compra de peças sobresselentes torna-se mais simples. Tudo isto reduz custos e dá à Alaska maior liberdade para deslocar aeronaves entre rotas de acordo com a procura.
Porque é que o 737-10 se encaixa na rede da Alaska
A rede da Alaska combina rotas troncais densas na Costa Oeste com serviços mais “finos” para cidades secundárias dos EUA e para o próprio Alasca. O 737-10 dá à companhia mais lugares em rotas populares como Seattle–Los Angeles ou São Francisco–Honolulu, mantendo uma cabine de pilotagem quase idêntica à de outras variantes MAX.
A aeronave irá substituir gradualmente 737 mais antigos, que consomem mais combustível e exigem mais manutenção. Em paralelo, a maior capacidade abre margem para crescer onde os aeroportos têm restrições de “slots” ou onde a procura está a subir, mas ainda não é suficiente para justificar aviões de fuselagem larga.
- Mais lugares por voo em rotas domésticas muito concorridas
- Menor consumo de combustível por passageiro face a gerações anteriores do 737
- Formação de pilotos simplificada graças ao desenho comum da cabine
- Maior flexibilidade na reafetação de aeronaves
Dreamliner: a revolução silenciosa do longo curso
A encomenda de aviões de corredor único gera as manchetes, mas a verdadeira mudança estratégica está na decisão da Alaska de duplicar a sua frota de Boeing 787 Dreamliner.
A companhia encomendou mais cinco 787, além dos cinco já planeados, elevando o total para dez aeronaves de longo curso.
O 787 como motor de crescimento
O 787 foi pensado para rotas longas com números relativamente modestos de passageiros. Consegue ligar diretamente cidades de média dimensão, contornando mega-hubs. Para a Alaska, cujas principais bases incluem Seattle e Portland, isso abre possibilidades atrativas no Pacífico e no Atlântico.
Dez Dreamliner dão à Alaska escala suficiente para construir uma rede internacional séria a partir da Costa Oeste dos EUA para a Europa e a Ásia, sem abdicar da disciplina de baixo custo.
Pense em Seattle–Tóquio, Seattle–Seul ou Portland–Londres. Estas rotas podem ser rentáveis com um 787, onde aviões de fuselagem larga maiores poderiam voar meio vazios. A aeronave também oferece uma cabine que, em geral, agrada aos passageiros: maior humidade, janelas maiores e uma viagem mais suave graças a sistemas avançados que reduzem a perceção de turbulência.
Plano de longo prazo: crescer sem ir longe demais
A Alaska enquadra a encomenda na sua estratégia “Alaska Accelerate”. A mensagem é clara: crescer mais depressa, mas não de forma imprudente.
Grandes encomendas de aeronaves prendem uma companhia a uma estrutura de frota durante décadas. Isso pode ser uma bênção quando a procura se mantém, ou um pesadelo quando o mercado vira. A Alaska parece procurar um caminho intermédio: aviões suficientes para expandir, mas sobretudo modelos já comprovados na sua operação.
Do lado ambiental, tanto a família 737 MAX como o 787 são significativamente mais eficientes do que as aeronaves que substituem. Menos combustível por lugar significa custos operacionais mais baixos e menores emissões. Este benefício duplo contará à medida que os reguladores apertam as regras climáticas e os passageiros se tornam mais sensíveis ao impacto ambiental de voar.
Sessenta anos de parceria Boeing–Alaska
O acordo também tem uma dimensão emocional e industrial forte. A Alaska e a Boeing trabalham em conjunto há seis décadas, desde o Boeing 727 nos anos 1960.
Ambas as empresas partilham raízes no Noroeste do Pacífico dos EUA. Com o tempo, a relação evoluiu de um simples cliente–fornecedor para algo mais próximo de uma parceria industrial. A Alaska foi frequentemente uma das primeiras operadoras de novos modelos da Boeing, enquanto a Boeing beneficiou do feedback de um operador que conhece o 737 ao pormenor.
Esta nova encomenda sinaliza que, apesar de anos turbulentos para a Boeing, a Alaska continua a confiar nas suas aeronaves o suficiente para comprometer milhares de milhões a longo prazo.
Para a Boeing, sob pressão após a imobilização do 737 MAX e um novo escrutínio aos seus padrões de qualidade, essa confiança tem peso real. Para a Alaska, manter um parceiro familiar reduz o risco associado à introdução de uma família de aeronaves completamente diferente.
Quanto dinheiro está realmente em jogo?
Nem a Boeing nem a Alaska Airlines divulgaram o valor oficial do acordo, o que é prática comum. Ainda assim, os dados do setor permitem estimar um intervalo realista.
| Aeronave | Encomendas firmes | Preço líquido típico por unidade (estimativa) | Valor total estimado |
|---|---|---|---|
| Boeing 737-10 | 105 | ~60 milhões USD | ~6,3 mil milhões USD |
| Boeing 787 | 5 | ~140–150 milhões USD | ~0,7–0,75 mil milhões USD |
| Total da encomenda firme | 110 | – | ~7–8 mil milhões USD (≈ 6–6,85 mil milhões EUR) |
As 35 opções adicionais de 737-10, se forem exercidas mais tarde em termos semelhantes, podem acrescentar mais 2–2,5 mil milhões de dólares (até cerca de 2,1 mil milhões de euros). As opções dão flexibilidade à Alaska: pode aumentar a capacidade se a procura se mantiver forte ou recuar se a economia enfraquecer.
Boeing vs Airbus: uma escolha calculada
A encomenda da Alaska não pode ser lida isoladamente da rivalidade mais ampla Boeing–Airbus. No segmento de corredor único de alta capacidade, o 737-10 enfrenta o Airbus A321neo e o seu “irmão” de longo alcance, o A321XLR.
No papel, a Airbus lidera claramente em vendas. A família A321neo atraiu cerca de 5.700 encomendas firmes, contra aproximadamente 1.100 do 737-10. Muitas companhias valorizam o alcance e a capacidade do jato da Airbus, especialmente em rotas de longo curso mais “finas” que não justificam um widebody.
Ainda assim, a Alaska apostou tudo na Boeing. As razões parecem diretas:
- Comunhão de frota: um fabricante, um “pool” de pilotos, um ecossistema técnico principal
- Menor risco de transição: sem necessidade de criar novos sistemas de formação e manutenção para aviões Airbus
- Poder de negociação: um grande cliente Boeing de longo prazo consegue frequentemente condições comerciais atrativas
- Ligações geográficas e industriais: ambas as empresas operam no mesmo polo regional no Noroeste dos EUA
No longo curso, o cenário é mais equilibrado. O Boeing 787 ainda lidera em encomendas totais face ao Airbus A350, embora o widebody europeu tenha vindo a recuperar de forma constante. Para a Alaska, a dimensão e o alcance do 787 ajustam-se melhor às ambições atuais do que o A350, maior.
O que isto significa para viajantes e investidores
Para os passageiros, o acordo deverá traduzir-se em cabines mais recentes, voos mais silenciosos e uma maior variedade de destinos, sobretudo fora da América do Norte. O 787, em particular, tende a obter classificações elevadas em inquéritos de satisfação devido às janelas maiores e à menor altitude de cabine.
Para investidores e analistas, a encomenda sinaliza que a Alaska está confiante no crescimento da procura ao ponto de se comprometer com mais 110 aeronaves. Também mostra que a Boeing ainda consegue fechar grandes negócios com companhias aéreas de topo, apesar da concorrência da Airbus e da crescente pressão de novos players, como a chinesa COMAC.
Termos-chave que vale a pena compreender
Duas noções surgem frequentemente nas discussões sobre grandes encomendas de companhias aéreas:
- Encomenda firme: compromisso legalmente vinculativo para comprar aeronaves, normalmente com datas de entrega e calendários de pagamento previstos.
- Opção: direito, mas não obrigação, de comprar aeronaves adicionais mais tarde, sob condições previamente acordadas. As opções funcionam como uma “válvula de segurança” perante a incerteza da procura.
Outro conceito crucial é a comunhão de frota. Descreve o grau de semelhança entre as aeronaves de uma companhia em termos de layout da cabine de pilotagem, sistemas e necessidades de manutenção. Uma comunhão elevada tende a reduzir custos e simplificar a operação diária, embora possa limitar a flexibilidade se o fabricante escolhido ficar atrás dos rivais em termos tecnológicos.
Cenários para a próxima década
Se o tráfego continuar a crescer na Costa Oeste dos EUA e no Pacífico, a Alaska poderá usar os seus 737-10 para reforçar rotas-chave e os seus 787 para abrir novos pares de cidades internacionais. Um mercado favorável pode levar a companhia a exercer algumas ou todas as 35 opções, transformando uma grande encomenda numa verdadeiramente gigantesca.
Se a procura estagnar, a companhia ainda beneficia do menor consumo de combustível e de custos de manutenção mais baixos, o que pode amortecer o impacto de um crescimento mais lento das receitas. O principal risco recai do lado da Boeing: qualquer novo atraso na certificação do 737-10 ou um evento técnico sério criaria dores de cabeça operacionais para a Alaska e poderia forçar alterações de horários de última hora ou o aluguer de aeronaves.
Por agora, porém, a mensagem é clara: a principal rival da Boeing, a Airbus, não terá caminho livre na América do Norte. Com o compromisso multibilionário da Alaska, a Boeing entrou novamente, de forma firme, na corrida.
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