O que descobriram não vai entusiasmar os amantes de cerveja: o copo que tem na mão pode estar a transformá-lo num íman zumbidor de insetos muito antes de a espuma desaparecer.
Como um festival de música se transformou num laboratório de mosquitos
A investigação no centro desta história não decorreu num laboratório esterilizado, mas no Lowlands, um enorme festival anual de música nos Países Baixos. Dezenas de milhares de pessoas acampam lá durante dias, a beber, a dançar e a dormir demasiado pouco.
Investigadores da Universidade Radboud, em Nijmegen, viram ali uma oportunidade. Em 2023, montaram um laboratório temporário dentro de contentores marítimos convertidos no recinto do festival e recrutaram cerca de 500 voluntários.
Cada participante respondeu a perguntas sobre a sua alimentação, higiene e comportamento no festival. Depois veio a parte inquietante: colocaram um braço dentro de uma gaiola cheia de fêmeas de mosquito famintas do género Anopheles, um grupo conhecido em todo o mundo por transmitir malária.
Usando câmaras, a equipa contou quantos mosquitos aterravavam na pele dos participantes em comparação com uma fonte de açúcar colocada ali perto dentro da mesma gaiola.
A variável-chave: se a pessoa tinha bebido cerveja nas 12 horas anteriores.
Bebedores de cerveja atraíram mais 35% de mosquitos
O padrão foi claro. As pessoas que tinham consumido cerveja nas últimas doze horas tinham 1,35 vezes mais probabilidade de atrair mosquitos do que as que não tinham - um aumento de cerca de 35%.
Essa diferença não é trivial. Quando há muitos mosquitos, um aumento de 35% na atração pode significar várias picadas extra numa única noite, sobretudo em condições quentes e sem vento.
As conclusões, divulgadas no servidor de preprints bioRxiv em 26 de agosto de 2025, acrescentam detalhe novo a uma questão antiga: porque é que os mosquitos parecem “preferir” algumas pessoas a outras?
A cerveja não apenas mexeu ligeiramente nos números. Ao longo de centenas de festivaleiros, inclinou de forma consistente as probabilidades a favor dos insetos.
Porque é que a cerveja muda a forma como os mosquitos o veem - e cheiram
O estudo centrou-se na associação, não nos mecanismos exatos, mas os cientistas já têm várias pistas sólidas.
Pele mais quente, alvo mais fácil
O álcool faz com que os vasos sanguíneos da pele se dilatem. Este processo, chamado vasodilatação, aumenta o fluxo sanguíneo mais perto da superfície e pode elevar ligeiramente a temperatura da pele. Esse rubor quente depois de uma imperial não é só imaginação.
O especialista australiano em mosquitos Nigel Beebe, da Universidade de Queensland, sugeriu que o álcool pode aguçar a “assinatura térmica” do corpo, fazendo-o sobressair em relação ao ar mais fresco à volta.
Pele mais quente e bem irrigada é como ligar um farol mais brilhante para insetos que caçam usando calor e cheiro.
Uma alteração no odor corporal e no hálito
A cerveja também altera a forma como o corpo processa açúcares e outros compostos. A equipa neerlandesa salientou que a cerveja pode tornar o sangue mais “açucarado”, mas a história não fica confinada às veias.
Metabolizar álcool muda o conjunto de químicos libertados no suor e na pele. Ao mesmo tempo, a respiração tende a aprofundar-se ligeiramente e a produção de dióxido de carbono (CO₂) aumenta após beber.
Os mosquitos são extremamente sensíveis ao CO₂ e a odores específicos da pele. Uma mistura química diferente, combinada com uma pluma mais intensa de CO₂, pode transformá-lo num alvo prioritário.
Não é só a cerveja: sinais de estilo de vida que os mosquitos adoram
A experiência neerlandesa fez mais do que isolar o impacto da cerveja. Ao acompanhar hábitos do festival, a equipa também notou outros comportamentos ligados a mais picadas.
Os investigadores relataram que os mosquitos mostraram uma preferência clara por pessoas que dispensavam protetor solar, bebiam cerveja e partilhavam cama ou tenda.
Os cientistas descreveram estes voluntários, em tom de brincadeira, como os “hedonistas” do festival - os mais dedicados a diversão, sol e companhia até tarde. Os mosquitos, ao que parece, estavam na mesma onda.
Porque é que evitar protetor solar importa
O protetor solar não bloqueia apenas a luz UV. Muitas fórmulas modernas também alteram ou mascaram o odor natural do corpo. Algumas até contêm compostos que repelem ligeiramente insetos.
Em contraste, pele exposta, ligeiramente suada, liberta um perfil de cheiro mais forte, rico em ácido láctico e outras moléculas que os mosquitos seguem. Quem dispensou protetor solar pode simplesmente ter cheirado de forma mais “interessante” para os insetos.
Partilhar uma cama, partilhar picadas
Os festivaleiros que partilharam cama ou tenda tenderam a atrair mais mosquitos. Há várias razões para isso:
- Mais corpos num espaço pequeno significam mais CO₂ e mais cheiro.
- Movimento e calor mantêm os mosquitos ativos durante a noite.
- Se só uma pessoa usa repelente ou se tapa, a outra torna-se um alvo preferencial.
Em tendas apertadas de festival ou quartos mal ventilados, estes fatores acumulam-se rapidamente.
Porque é que o vinho ainda não parece tão culpado
Os investigadores não observaram a mesma ligação clara entre a atração de mosquitos e outras bebidas alcoólicas, como o vinho. Isso não significa que o vinho seja neutro, mas a cerveja tem algumas características particulares.
A cerveja é frequentemente bebida em maiores quantidades e mais depressa, sobretudo em ambientes exteriores quentes. Também é rica em hidratos de carbono, o que pode influenciar a glicemia e o metabolismo de forma diferente de bebidas espirituosas ou vinho.
Além disso, quem bebe cerveja pode ter padrões de comportamento específicos: ficar no exterior a fumar, fazer filas nos bares, permanecer em zonas apinhadas e adiar o protetor solar. O estudo não separou todos estes fatores, mas a cerveja apareceu repetidamente do lado de “mais picadas” na balança.
O que isto significa para a sua próxima noite de verão
A investigação não diz que tem de abandonar a cerveja por completo. Sugere, sim, que certas combinações de hábitos o tornam mais apetecível para os mosquitos.
O risco aumenta quando vários destes elementos se alinham:
| Fator | Efeito na atração de mosquitos |
|---|---|
| Beber cerveja nas últimas 12 horas | Cerca de 35% mais probabilidade de atrair mosquitos |
| Sem protetor solar na pele exposta | Perfil de odor natural mais forte |
| Partilhar cama ou tenda | Mais CO₂ e calor corporal num espaço pequeno |
| Noite quente e húmida ao ar livre | Condições ideais de voo e alimentação para mosquitos |
Imagine uma cena típica de verão: chega a um bar junto ao lago, pede duas imperiais, dispensa protetor solar porque já é fim de tarde, e termina a noite a partilhar uma tenda à beira de água. Do ponto de vista do mosquito, acabou de colocar um letreiro néon por cima do seu corpo.
Como reduzir as picadas sem cancelar a festa
Para pessoas em zonas onde os mosquitos transmitem doenças como malária, dengue ou o vírus do Nilo Ocidental, mesmo um aumento moderado no risco de picada é relevante.
Medidas práticas podem atenuar o efeito da cerveja no seu “apelo” para mosquitos:
- Use um repelente de insetos comprovado na pele exposta, especialmente ao fim do dia.
- Aplique protetor solar durante o dia e reaplique onde o suor ou a água o removam.
- Vista mangas compridas e calças leves e folgadas quando o sol começar a baixar.
- Durma sob uma rede mosquiteira ou numa tenda/quarto com proteção (rede) sempre que possível.
- Limite o número de cervejas quando souber que vai estar ao ar livre ao crepúsculo, perto de água parada.
Nenhuma destas medidas anula completamente o efeito da cerveja, mas em conjunto podem voltar a inclinar as probabilidades a seu favor.
Porque é que as fêmeas de mosquito são tão seletivas, para começar
O estudo usou fêmeas de Anopheles por uma razão. Só as fêmeas picam humanos, e fazem-no para obter proteínas do sangue, necessárias para desenvolver os ovos.
Isso torna cada picada um investimento crucial. As fêmeas evoluíram para ser exigentes. Seguem múltiplos sinais - CO₂, calor, humidade, químicos da pele - para escolher hospedeiros que ofereçam uma refeição fácil e segura.
Cerveja, pele mais quente e camas partilhadas tornam simplesmente a decisão mais fácil.
Ler a ciência com alguma cautela
As conclusões foram publicadas como preprint, o que significa que outros cientistas ainda estão a escrutinar o trabalho. O contexto - um festival de música neerlandês - também influencia quem se voluntariou e como se comportou, o que pode diferir de um churrasco familiar tranquilo ou de uma aldeia na África Ocidental.
Mesmo com estas reservas, o estudo enquadra-se num corpo mais amplo de investigação que mostra que pequenas mudanças no comportamento, na química do corpo e no ambiente podem alterar padrões de picadas. A mensagem não é que a cerveja, por si só, decide o seu destino, mas que as suas escolhas ao longo da noite reescrevem subtilmente o seu perfil pessoal para os mosquitos.
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