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Não percebia quanto a incerteza alimentava o meu stress.

Pessoa escreve em caderno sob janela ensolarada, com chávena de café e relógio ao lado. Nota diz "plano de hoje".

A noite em que percebi que havia algo de errado, estava sentada no chão da cozinha ao lado da máquina de lavar loiça. O portátil aberto, o telemóvel a vibrar, a roupa pela metade, ainda por dobrar. O peito apertado sem razão aparente. Nada de terrível tinha acontecido nesse dia. Nenhuma tragédia. Nenhuma grande discussão. Apenas mil pequenos “e se…?” a encherem a divisão como convidados não convidados.

Eu não estava a pensar “estou stressada”; estava a pensar “E se aquele email significar que vou perder o emprego?” e “E se o resultado do exame não for bom?” e “E se eu nunca conseguir sair deste caos?”

Era como se a minha mente me arrastasse três meses para o futuro enquanto eu continuava descalça na minha cozinha.

Foi aí que me caiu a ficha: eu não estava apenas cansada. Eu estava a viver dentro da incerteza.

Quando o teu cérebro trata o “não saber” como perigo

O stress, para muitos de nós, não aparece como um pensamento claro do tipo “estou sobrecarregada”.

Aparece como aquela energia zumbidora, inquieta, que não combina com o que está realmente a acontecer à tua frente. Um dia normal de trabalho, de repente, parece a beira de um precipício. Uma mensagem simples do teu chefe soa a ameaça.

Os nossos cérebros odeiam espaços em branco. No momento em que há algo que não sabemos, correm a preenchê-lo com cenários de pior caso.

Chamamos-lhe “ser realista” ou “só me estou a preparar para o pior”, mas por dentro parece carregar uma mochila cheia de pedras que nem consegues ver.

Pensa na última vez em que estiveste à espera de resultados de exames, de uma resposta a uma candidatura, ou de uma mensagem que parecia nunca mais chegar. A espera em si foi brutal.

Não porque algo mau já estivesse a acontecer, mas porque algo mau podia estar a acontecer. Essa palavrinha - “podia” - tem mais poder do que admitimos.

Um estudo sobre incerteza e ansiedade descobriu que as pessoas, muitas vezes, se sentem mais stressadas à espera de um possível choque elétrico do que sabendo que vão, com certeza, levar um. O “talvez” doeu mais do que o “sim”.

Isto é surpreendente. Significa que o teu corpo pode reagir com mais intensidade a resultados desconhecidos do que a resultados garantidamente maus.

Ao nível básico da sobrevivência, este tipo de resposta era útil. Os nossos antepassados precisavam de estar alerta quando ouviam um ruído nos arbustos, mas não conseguiam ver o animal.

Hoje, os “arbustos” são emails sem resposta, políticas que mudam, habitação instável, manchetes confusas. A nossa biologia ainda não acompanhou o ritmo e a complexidade da vida moderna.

Por isso, o cérebro faz o que sempre fez: trata a incerteza como perigo imediato. A frequência cardíaca sobe, os músculos contraem-se, os pensamentos aceleram. Sentes que tens de resolver tudo agora, mesmo que, na prática, ainda não esteja a acontecer nada.

É assim que o stress, discretamente, se torna um colega de casa a longo prazo - e a incerteza fica com o contrato de arrendamento.

Aprender a reduzir o desconhecido, só um pouco

Um passo pequeno e concreto que mudou as coisas para mim foi este: comecei a dar nome à incerteza exata. Não à nuvem vaga. À frase única.

Em vez de “O meu trabalho é um caos”, escrevi: “Não sei se o meu contrato vai ser renovado em junho.” Em vez de “Tudo pode desmoronar”, escrevi: “Tenho medo de que o meu parceiro se esteja a afastar porque tem estado mais calado ultimamente.”

Quando dás nome ao intervalo exato, deixas de lutar contra nevoeiro e começas a encarar uma porta. Talvez ainda não a consigas abrir, mas pelo menos estás a olhar para algo sólido.

Este movimento simples não apaga o stress, mas transforma uma trovoada num boletim meteorológico específico.

A maioria de nós faz o contrário. Deixamos a incerteza ficar enorme e desfocada.

Dizemos “A minha vida é um caos” quando, na verdade, é uma conta, uma conversa, um email sem resposta. Essa falta de nitidez mantém o stress no comando. Quanto mais vago for o medo, mais espaço ocupa no teu corpo.

Então acordas já tenso. Fazes scroll em notícias que te apertam o estômago. Repetes histórias inacabadas na cabeça. Podes achar que a resposta é controlar mais, planear mais, prever mais. Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias, sem falhar.

Um gesto mais gentil é aproximar o zoom de uma incerteza de cada vez e perguntar: “O que, exatamente, é que eu não sei aqui?” e “Quando, realisticamente, vou saber mais?”

Há outra camada que dói: muitas vezes sentimo-nos culpados por termos dificuldade com a incerteza. Dizemos a nós próprios para “relaxar”, “confiar no processo”, “ser gratos”.

Essa palestra interna não acalma o sistema nervoso; só acrescenta vergonha em cima do stress. O teu cérebro não está a portar-se mal; está a fazer o melhor que consegue com informação incompleta.

Uma pergunta mais útil é: “Que pedacinho desta incerteza eu consigo reduzir hoje?” Talvez seja enviar uma mensagem em vez de entrares numa espiral sobre a relação. Telefonar para a clínica em vez de catastrofizar durante mais uma semana. Perguntar ao teu chefe qual é o prazo em vez de estares a adivinhar.

Não estás a resolver todo o desconhecido. Estás a fazer um pequeno furo para deixar entrar alguma luz.

Criar micro-âncoras quando o futuro parece instável

Quando a vida parece areia molhada debaixo dos pés, as micro-âncoras podem manter-te de pé. Uma micro-âncora é qualquer coisa pequena e previsível que escolhes de propósito.

Uma caminhada de cinco minutos todas as manhãs depois do café. Acender a mesma vela antes de abrires o portátil. Ligar ao mesmo amigo todas as quintas-feiras.

Isto não são “hacks” de produtividade. São sinais para o teu sistema nervoso: “Algumas coisas são estáveis, mesmo quando outras não são.” Estás a ensinar o teu corpo que incerteza numa área não significa caos em todo o lado.

O futuro pode estar desfocado, mas este momento tem pelo menos um ponto fixo que consegues tocar.

Há aqui uma armadilha, e muitos de nós caímos nela. Decidimos que a nossa âncora vai ser uma rotina perfeita. Acordar às 5h, meditar, treinar, escrever no diário, sumo verde, inbox a zero, paz interior às 7h15.

Depois a vida faz o que a vida faz: a criança fica doente, o carro avaria, o prazo muda, o humor cai. E, de repente, não só nos sentimos stressados - sentimos que falhámos por não termos “mantido a rotina”.

As âncoras devem ser indulgentes, não mais um pau para te bateres. Se o teu ritual só sobrevive em dias perfeitos, não é uma âncora; é uma performance. Escolhe coisas que possam dobrar sem partir: uma volta ao quarteirão, três respirações profundas antes de dormir, escrever uma frase desalinhada num caderno.

Às vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer é aceitar que não controlas o calendário, apenas os próximos dez minutos.

  • Micro-âncora 1: Uma coisa “igual” todas as manhãs
    Beber água, alongar durante dois minutos, ou abrir as cortinas enquanto fazes três respirações lentas. Simples e repetível.

  • Micro-âncora 2: Uma pergunta diária de check-in
    Pergunta a ti próprio: “O que é que eu estou realmente com medo que possa acontecer?” Escreve uma frase. Isto mantém o medo específico, não infinito.

  • Micro-âncora 3: Uma ação pequena em direção à clareza
    Enviar um email, marcar uma chamada, ler um artigo credível em vez de quinze. Foca-te no menor passo que te dá um pouco mais de informação.

  • Micro-âncora 4: Um sinal de encerramento à noite
    Fecha o portátil no mesmo sítio, ou deixa o telemóvel noutra divisão. Diz ao teu cérebro: “Até amanhã, nada de problemas do futuro.”

  • Micro-âncora 5: Uma pessoa que conhece os teus “e se…?”
    Ter pelo menos um amigo que já ouviu o teu cenário mais assustador. Dizê-lo em voz alta muitas vezes reduz o poder que ele tem no teu corpo.

Viver com perguntas que não têm respostas rápidas

Há um ponto de viragem silencioso nisto tudo: o momento em que deixas de esperar que a tua vida esteja 100% certa para voltares a respirar.

O stress costuma sussurrar: “Vais relaxar quando os resultados chegarem, quando o contrato estiver assinado, quando a relação estiver estável, quando os números na conta forem maiores.” A fasquia continua a mexer-se, e a paz fica sempre no horizonte.

E se a paz não estiver à espera na meta, mas escondida naquela parte estranha do meio, onde ainda não sabes? Esse lugar intermédio onde fizeste as perguntas difíceis, deste o próximo passo honesto e agora… esperas.

Sentar-te nessa sala de espera da vida não é passivo. É uma competência. É escolher tratares-te com gentileza nos dias em que tens mais perguntas do que respostas.

É dizer: “Hoje não sei como isto vai acabar, mas posso escolher como falo comigo sobre isto.” Isso pode parecer trocar “Está tudo condenado” por “Isto assusta-me, e estou a fazer o que posso.”

Não tens de amar a incerteza. Provavelmente nunca vais. Mas podes deixar de permitir que ela controle todo o teu sistema nervoso como um gestor em pânico a carregar em todos os botões de alarme ao mesmo tempo.

Algumas das pessoas mais calmas que conheces não têm mais controlo do que tu. Apenas fizeram uma espécie de trégua estranha com o não saber. Ainda se preocupam, ainda acordam às 3 da manhã em algumas noites, ainda pensam demais em mensagens, dinheiro e saúde.

A diferença é que reconhecem o padrão mais cedo. Conseguem dizer: “Ah, isto não é verdade - é o meu cérebro a reagir à incerteza outra vez.” Essa pequena distância é tudo.

Podes começar aí. Não forçando-te a ser positivo, nem fingindo que não tens medo. Apenas reparando, com suavidade: “Este stress é, sobretudo, sobre o que eu ainda não sei.” E só essa perceção já pode afrouxar o aperto.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A incerteza alimenta o stress mais do que pensamos O cérebro reage com força a cenários de “talvez” e preenche lacunas com histórias de pior caso Ajuda-te a perceber porque te sentes esmagado mesmo quando, na prática, ainda não aconteceu nada de mau
Dar nome ao desconhecido exato reduz a ansiedade Transformar medos vagos em frases específicas torna os problemas mais geríveis Dá-te uma forma prática de encolher o stress: de nevoeiro para um alvo mais claro e pequeno
Micro-âncoras criam estabilidade em tempos instáveis Ações pequenas e previsíveis acalmam o sistema nervoso sem exigir rotinas perfeitas Oferece hábitos realistas que te apoiam em dias caóticos, não apenas nos ideais

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se o meu stress é mesmo sobre incerteza e não outra coisa?
    Repara quando os teus pensamentos saltam constantemente para o futuro com frases do tipo “e se…?”. Se a maior parte da tua preocupação é sobre coisas que ainda não aconteceram, a incerteza provavelmente está a conduzir uma grande parte do teu stress.

  • Pergunta 2 E se eu não conseguir obter respostas claras para as coisas com que me preocupo?
    Haverá sempre situações em que não consegues ter clareza total. Nesses casos, foca-te no que controlas: como falas contigo, pequenas ações que podes fazer hoje e rotinas mínimas que dão ao teu corpo alguma sensação de segurança.

  • Pergunta 3 Preocupar-me com o futuro não é simplesmente ser responsável?
    Planear com antecedência é responsável. Viver em cenários constantes de pior caso é desgastante. Um bom teste é: “Depois de pensar nisto, sinto-me mais preparado ou apenas mais em pânico?” Se for a segunda opção, isso já não é planeamento - é ansiedade.

  • Pergunta 4 E se as micro-âncoras parecerem demasiado pequenas para os meus grandes problemas?
    Grandes problemas raramente têm soluções grandes e instantâneas. As micro-âncoras não resolvem tudo; ajudam o teu sistema nervoso a acalmar o suficiente para conseguires pensar com clareza e enfrentar as coisas grandes em vez de entrares em shutdown.

  • Pergunta 5 Devo tentar eliminar completamente a incerteza da minha vida?
    Não - isso é impossível e exaustivo. O objetivo não é remover a incerteza, mas mudar a tua relação com ela. Estás a aprender a viver com perguntas em aberto sem deixares que roubem cada momento de paz que tens agora.

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