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Mesmo uma bebida por dia pode aumentar o risco de cancro da boca.

Mulher a beber água, com caderno, laranja fatiada e plantas sobre a mesa em cozinha iluminada.

Novas evidências sugerem agora que até esse “miminho” pode ter um custo escondido.

Dados recentes de um grande estudo com homens na Índia estão a pôr em causa a ideia reconfortante de que beber pouco é seguro. Os investigadores acompanharam milhares de pessoas durante mais de uma década e concluíram que até uma única bebida diária estava associada a um aumento perceptível do risco de cancro da boca, com certas bebidas espirituosas tradicionais a revelarem um impacto especialmente elevado.

O que a nova investigação realmente mostra

O estudo, publicado na revista BMJ Global Health, acompanhou mais de 3.700 homens tratados em cinco grandes centros oncológicos na Índia entre 2010 e 2021. Os investigadores compararam os seus hábitos de consumo de álcool com padrões observados em pessoas sem cancro.

O foco foi o cancro oral, que afeta o revestimento da boca: bochechas, língua, gengivas e o céu da boca (palato) ou o pavimento da boca. Em algumas partes da Ásia, este tipo de cancro é comum e agressivo, muitas vezes diagnosticado tardiamente e com consequências graves para falar, comer e para a qualidade de vida em geral.

Mesmo uma bebida padrão por dia - cerca de 9 gramas de álcool puro - foi associada a um risco aproximadamente 50% mais elevado de desenvolver cancro no revestimento da boca.

Este aumento do risco não exigiu consumo elevado nem episódios de consumo excessivo (“binge drinking”). Um consumo regular, aparentemente moderado, foi suficiente para surgir um sinal claro nos dados.

Risco a aumentar com apenas alguns gramas de álcool

Uma das conclusões mais marcantes foi quão cedo a curva de risco começou a subir. Para algumas bebidas, em particular a cerveja, os investigadores já observaram um aumento significativo a partir de cerca de 2 gramas de álcool por dia. Isso é menos de um quarto do que muitos países ainda definem como uma “bebida padrão”.

A equipa agrupou os consumidores em categorias aproximadas com base na quantidade de álcool ingerida por dia:

  • Consumidores ligeiros: menos de 9 gramas de álcool por dia
  • Consumidores regulares: mais de 9 gramas de álcool por dia

Em comparação com não consumidores, o aumento do risco foi claro em ambos os grupos. Nos consumidores mais ligeiros, o índice de risco atingiu cerca de 1,56. Entre consumidores regulares, subiu para 1,81. Em termos simples: quanto mais as pessoas bebiam, maior era a probabilidade de desenvolver cancro da boca, mesmo dentro de intervalos relativamente baixos.

Os dados sustentam uma perspetiva crescente entre especialistas em cancro: não existe um “limiar seguro” comprovado de álcool quando se trata de tumores orais.

Esta mensagem contrasta de forma acentuada com a ideia antiga de que apenas o consumo elevado e prolongado leva ao cancro. Aqui, mesmo a exposição diária baixa pareceu prejudicial.

Porque é que as bebidas espirituosas tradicionais podem ser especialmente perigosas

A investigação foi além de perguntas simples do tipo “álcool sim ou não”. Comparou o impacto de bebidas globais amplamente vendidas - como cerveja, uísque, vodka e rum - com cerca de 30 bebidas espirituosas tradicionais locais, consumidas frequentemente em zonas rurais da Índia.

Bebidas locais versus marcas internacionais

Ambas as categorias aumentaram o risco de cancro, mas não na mesma medida. As bebidas internacionais estiveram longe de ser inofensivas: associaram-se a cerca de 72% mais risco de cancro da boca em comparação com não beber.

No entanto, as bebidas produzidas localmente - muitas vezes fermentadas ou destiladas em contextos informais - pareceram ainda mais perigosas. Em média, associaram-se a 87% mais risco.

Tipo de álcool Aumento aproximado do risco de cancro da boca
Bebidas internacionais (cerveja, uísque, vodka, rum) +72%
Bebidas espirituosas tradicionais locais (várias bebidas caseiras ou de aldeia) +87%
Bebida local específica: desi daru +84%
Bebida local específica: tharra Aumento de risco acima de 200%

Alguns destes produtos tradicionais, como o desi daru no norte da Índia ou o tharra em Uttar Pradesh, são produzidos sem controlos de qualidade padronizados. Os níveis de etanol podem ser extremamente altos, por vezes a aproximarem-se dos 90%. Além disso, o processo de destilação pode deixar compostos tóxicos.

Duas substâncias são particularmente preocupantes: metanol, que é tóxico mesmo em pequenas doses, e acetaldeído, um carcinogénio conhecido formado quando o organismo metaboliza o álcool. As bebidas espirituosas locais podem conter mais impurezas do que as bebidas produzidas industrialmente, o que pode explicar a associação mais forte com o cancro.

Álcool e tabaco sem fumo: uma combinação perigosa

O estudo também destacou um padrão repetidamente observado na investigação oncológica: o álcool raramente atua sozinho. Na Índia, o tabaco sem fumo - como tabaco de mascar ou misturas em pasta - é amplamente utilizado. Quando combinado com consumo regular de álcool, os riscos multiplicaram-se de forma acentuada.

Pessoas que bebiam álcool e usavam tabaco sem fumo enfrentavam mais de quatro vezes o risco de cancro da boca, em comparação com quem não fazia nenhum dos dois.

Os investigadores estimaram que cerca de 62% dos casos de cancro da boca na população estudada estavam ligados a este hábito duplo. O álcool, por si só, foi responsável por cerca de 11,3% dos casos, ultrapassando 14% em alguns estados como Assam, Madhya Pradesh e Meghalaya.

Parte da explicação reside na forma como o álcool afeta os tecidos do revestimento da boca. O etanol torna as membranas mucosas mais permeáveis. Quando alguém mastiga tabaco ao mesmo tempo, moléculas carcinogénicas conseguem penetrar mais fundo e mais facilmente nas células, dando mais oportunidades para que mutações se instalem.

Padrões culturais que moldam o risco

Os hábitos documentados no estudo não se limitam a consumidores mais velhos e com consumo elevado. Em várias comunidades rurais, rapazes e jovens começam a beber e a usar tabaco sem fumo na adolescência. Quase metade dos doentes do estudo tinha menos de 45 anos no momento do diagnóstico.

Este início precoce, combinado com álcool barato e não regulado e com acesso fácil ao tabaco, cria uma longa janela de exposição. Quando os sintomas aparecem - uma ferida persistente na boca, uma mancha que não cicatriza, dor inexplicável - a doença pode já estar avançada.

O que isto significa para quem bebe “só um bocadinho”

Para leitores no Reino Unido, EUA ou Europa, os padrões de consumo e os tipos de álcool podem ser diferentes dos das zonas rurais da Índia. No entanto, a biologia subjacente não muda. Cada bebida introduz etanol no organismo. As células que revestem a boca e a garganta estão entre as primeiras a entrar em contacto com ele.

Mesmo onde o álcool é fortemente regulado e controlado quanto à qualidade, o organismo continua a converter o etanol em acetaldeído. Esta substância pode danificar o ADN e interferir com a reparação celular. Quando este dano ocorre repetidamente, dia após dia, o risco de transformação maligna aumenta.

Várias agências de saúde pública em diferentes países já estão a caminhar para limites recomendados mais baixos. Algumas organizações de apoio ao doente oncológico afirmam agora de forma aberta que, para prevenção do cancro, a opção mais segura é não beber de todo, reconhecendo ainda assim que muitas pessoas continuarão a escolher beber ocasionalmente.

Formas práticas de reduzir o risco de cancro da boca

As pessoas muitas vezes assumem que só grandes mudanças no estilo de vida fazem diferença, mas passos menores também podem alterar as probabilidades a seu favor. Alguns pontos práticos com base na investigação atual:

  • Ter dias sem álcool todas as semanas para quebrar a rotina do consumo diário.
  • Evitar combinar álcool com qualquer forma de tabaco, incluindo produtos de mascar e vaping.
  • Estar atento a sinais de alerta precoces: aftas/úlceras na boca que não cicatrizam, manchas brancas ou vermelhas, dificuldade em engolir ou hemorragia inexplicável.
  • Consultar um dentista ou médico para avaliações regulares da cavidade oral, sobretudo se bebe na maioria das semanas.
  • Ter cautela com bebidas espirituosas caseiras ou informais, onde quer que viva, pois a graduação e os contaminantes são mais difíceis de controlar.

Reduzir de uma bebida todos os dias para algumas bebidas por mês pode parecer um ajuste pequeno, mas pode diminuir o stress contínuo sobre os tecidos da boca. Para pessoas que já usam tabaco - fumado ou sem fumo - deixar também o álcool faz ainda mais diferença, porque elimina essa combinação perigosa.

Termos-chave e contexto que pode ouvir

Várias expressões técnicas surgem frequentemente em discussões sobre álcool e cancro:

Bebida padrão: as entidades de saúde pública usam este termo para descrever uma quantidade fixa de álcool puro, muitas vezes entre 8 e 14 gramas, dependendo do país. Na prática, pode corresponder a um pequeno copo de vinho, meia caneca de cerveja comum ou uma dose de bebidas espirituosas.

Risco relativo: quando os investigadores dizem que o risco é “50% mais alto”, estão a falar de risco relativo. Se 2 pessoas em 1.000 desenvolvem uma doença num grupo e 3 em 1.000 noutro, isso é um aumento relativo de 50%, embora a diferença absoluta seja 1 caso extra por 1.000.

Tabaco sem fumo: são produtos de tabaco mastigados, chupados ou colocados na boca em vez de serem fumados. Exemplos incluem tabaco de mascar, snus e betel quid com tabaco. Não produzem fumo, mas continuam a ter riscos elevados de cancro, especialmente na boca e na garganta.

Compreender estes termos ajuda a interpretar as manchetes sobre investigação. Quando se ouve que “até uma bebida por dia” aumenta o risco, isso não significa que toda a gente que bebe pouco irá desenvolver cancro. Significa que, numa população, mais pessoas nesse grupo terão cancro da boca do que entre não consumidores - e que a diferença começa em níveis surpreendentemente baixos de consumo.

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