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Más notícias: a partir de 3 de fevereiro, jardineiros que usem água da chuva sem autorização terão multa de 135 euros.

Homem segura um documento enquanto colhe água de um tambor para regar plantas num jardim.

O jardineiro fixa o olhar no seu depósito de plástico para água da chuva como se ele se tivesse acabado de transformar num radar de velocidade. O céu está carregado, a terra está sedenta e, ainda assim, a mão dele hesita na pequena torneira. Há dez anos que rega os tomates com esta água do telhado, recolhida gota a gota em noites de tempestade. Hoje, faz as contas: um regador, dois regadores… 135 euros se alguém decidir que ele não está “autorizado”.

A rua está silenciosa, mas a notícia foi passando de vizinho em vizinho, como um mau boato. A partir de 3 de fevereiro, usar água da chuva no jardim sem a papelada certa pode significar uma coima.

O depósito não saiu do sítio.

A lei, sim.

Água da chuva, coimas e um travo muito amargo

Por toda a França, desde pequenas hortas de aldeia até relvados suburbanos impecáveis, a mesma pergunta começa a surgir: desde quando é que regar os gerânios passou a ser um risco legal? Durante anos, autarquias e sites de aconselhamento ecológico incentivaram os moradores a instalar depósitos, recuperar cada gota, poupar água potável. De repente, o tom mudou.

Agora, esse mesmo gesto pode custar 135 euros se for feito “sem autorização”. A formulação soa vaga; a ameaça, muito concreta. Pessoas que, em silêncio, enchiam um regador perguntam-se agora se escorregaram para o papel de fora-da-lei por acidente.

Veja-se o caso do Luc, 57 anos, jardineiro entusiasta numa rua sem saída tranquila nos arredores de Lyon. No verão passado, durante a seca, mostrou com orgulho os seus quatro grandes depósitos de água da chuva. Tinha feito tudo “como deve ser”: filtros, extravasamento ligado ao escoamento, uma pequena placa a explicar o sistema aos vizinhos curiosos. Daqueles que leem cada nota em folhetos oficiais.

Quando ouviu falar da coima de 135 euros, pegou no telemóvel e começou a pesquisar. Encontrou jargão jurídico, referências a regras de saúde pública, ao Código do Ambiente francês, a potenciais contaminações de redes. Encontrou menos tranquilidade do que confusão.

No papel, a lógica é esta: a água da chuva não é água potável e, assim que é usada para além de usos muito específicos, o Estado quer manter controlo. Por detrás dos famosos 135 euros, há todo um enquadramento sobre “redes de água não potável”, ligações à rede pública, riscos de refluxo para as condutas públicas. O cenário de pesadelo: água suja a voltar para a rede limpa.

No entanto, em muitos jardins não há rede, nem tubagens escondidas - apenas um simples depósito de plástico e um regador de metal. O mesmo sistema simples, de baixa tecnologia, elogiado em todas as reuniões municipais “verdes” da última década. E é nessa distância entre o texto e a realidade dos quintais que a revolta começa agora a fermentar.

Como continuar a recolher água da chuva sem perder 135 euros

Para quem não quer abdicar dos depósitos, o primeiro reflexo é separar dois mundos. De um lado: jardineiros “faça você mesmo” com depósitos autónomos, sem ligação à canalização da casa. Do outro: sistemas mais complexos com bombas, depósitos enterrados e tubagens a entrar no interior.

Se o seu depósito fica apenas debaixo de uma caleira e você usa um regador para flores e canteiros, já está no campo “mais simples”. A ideia central: manter-se longe de tudo o que possa ser confundido com uma rede paralela de água. Nada de mangueiras ligadas a torneiras interiores, nada de pontos de mistura com o sistema de água potável, nada de tubagens misteriosas que desaparecem numa parede.

Muitos jardineiros estão agora a voltar ao básico. Desligam bombas, dispensam a rega automática sofisticada, mantêm separações visíveis entre a água da chuva e o resto da casa. O objetivo é quase infantil: qualquer pessoa que entre no jardim deve conseguir ver, num relance, que o depósito é apenas isso - um recipiente autónomo usado no exterior.

Alguns também imprimem orientações oficiais de sites do governo e colocam-nas numa bolsa de plástico perto do depósito, como quem diz: “Estou a cumprir as regras, veja.” Há um humor nervoso nestes gestos, mas também um medo bem real de uma multa inesperada no para-brisas… ou na porta de casa.

Entre duas conversas preocupadas no viveiro, uma frase repete-se: “Já não sabemos onde está a linha.” As pessoas não são contra regras. São contra alvos móveis.

“Ontem disseram-nos para poupar cada gota”, suspira Marie, 42 anos, que cuida de um pequeno jardim urbano espremido entre dois prédios. “Hoje dizem-nos que a mesma gota, no mesmo regador, pode custar 135 euros. Eu não mudei. A mensagem é que mudou.”

  • Mantenha o sistema simples
    Depósito visível, caleira, regador. Sem tubagens enterradas, sem válvulas escondidas.
  • Fique no exterior
    Reserve a água da chuva para usos exteriores: plantas, caminhos, ferramentas. Nada de autoclismos ou máquinas de lavar sem autorização formal.
  • Verifique as regras locais
    Alguns municípios impõem condições mais rigorosas ou, pelo contrário, mais flexíveis. Um telefonema pode poupar muito stress.
  • Identifique o depósito
    Uma pequena etiqueta “Água não potável” tranquiliza inspetores e visitantes e mostra que conhece as regras.
  • Guarde prova escrita
    Capturas de ecrã de orientações nacionais oficiais, regulamentos locais ou e-mails da câmara municipal podem pesar muito em caso de litígio.

Para lá dos 135 euros: que futuro da água estamos a escolher?

Por detrás desta história aparentemente pequena de depósitos e coimas, esconde-se uma pergunta maior, quase desconfortável. Quem “é dono” da chuva depois de ela bater nos nossos telhados? Caminhamos para um modelo em que cada gota é indexada, contada, regulada - ou para uma cultura partilhada de bom senso e responsabilidade?

Todos conhecemos aquele momento em que vemos, orgulhosos, o depósito a encher durante uma tempestade de verão, sentindo que estamos a fazer pelo menos uma coisa certa pelo planeta. A coima de 135 euros cai em cima dessa satisfação silenciosa. Transforma um gesto ecológico numa potencial infração. Sejamos honestos: ninguém lê os textos legais completos antes de encaixar uma caleira num depósito.

Ainda assim, esta confusão pode também desencadear algo útil: conversas entre vizinhos, pressão coletiva sobre autarquias para clarificar, oficinas em hortas comunitárias para explicar a diferença entre instalações autorizadas e instalações arriscadas. Talvez a verdadeira batalha não seja “a favor ou contra a coima”, mas por regras claras e justas que não criminalizem o bom senso. Regras que protejam a saúde pública sem humilhar pessoas que estão a tentar, à sua escala, adaptar-se a um clima mais seco e mais frágil.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Coima de 135 euros Aplica-se em caso de utilização não autorizada de água da chuva, sobretudo se os sistemas se assemelharem a uma rede paralela Compreender o risco financeiro antes de instalar ou alterar um sistema de água da chuva
Sistemas simples e isolados Depósito + caleira + regador, sem ligação à canalização interior, apenas uso exterior Continuar a usar água da chuva no jardim mantendo-se numa zona legal mais segura
Clarificação local Regulamentos municipais, orientação da câmara e instruções escritas podem variar de zona para zona Adaptar as práticas ao seu território em vez de depender apenas de manchetes nacionais

FAQ:

  • Todo o jardineiro que usa um depósito de chuva está agora em risco de uma coima de 135 euros?
    Não automaticamente. A coima visa utilizações não autorizadas, sobretudo quando os sistemas de água da chuva são complexos, ligados à canalização interior ou com risco de contaminar a rede pública. Um depósito simples, autónomo, usado com regador para plantas no exterior costuma ser visto de forma diferente de uma “rede alternativa” completa. As regras locais continuam a contar.
  • Que tipos de utilização de água da chuva são mais sensíveis do ponto de vista legal?
    Utilizações no interior (autoclismos, máquinas de lavar) e qualquer configuração em que tubagens de água da chuva se aproximem de tubagens de água potável. Assim que existe a possibilidade de refluxo para o sistema público, as regras tornam-se muito mais exigentes e pode ser necessária autorização formal ou instalação profissional.
  • Ainda posso regar a horta com água da chuva?
    Em muitas zonas, sim - desde que o sistema esteja claramente separado da água da rede e se mantenha no exterior. As orientações nacionais tradicionalmente permitem a rega exterior, mas algumas autoridades locais podem definir limites, sobretudo durante restrições por seca. Verifique sempre os avisos mais recentes da sua câmara municipal.
  • Como me posso proteger em caso de inspeção?
    Mantenha a instalação visível e simples, identifique o depósito com “Água não potável”, evite qualquer ligação à canalização interior e imprima ou guarde documentos oficiais que expliquem os usos permitidos. Em caso de dúvida, peça esclarecimento por escrito às autoridades locais e guarde a resposta num local acessível.
  • Esta coima de 135 euros já está em vigor em todo o lado a partir de 3 de fevereiro?
    A data referida diz respeito à entrada em vigor de novas práticas (ou clarificações) de fiscalização associadas a enquadramentos legais já existentes. No entanto, a forma exata de aplicação pode variar localmente. Alguns municípios serão mais rígidos, outros mais pedagógicos. O melhor é manter-se informado, falar com os vizinhos e ajustar passo a passo, em vez de entrar em pânico ou desistir da água da chuva.

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