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Heranças: nova lei em fevereiro altera regras para herdeiros.

Cinco pessoas sentadas à mesa, concentradas em documentos e joias, com calendário de fevereiro na parede ao fundo.

Naquela manhã de terça-feira, no cartório notarial, a sala de espera parecia mais uma sala de embarque do que um espaço jurídico. Olhos vermelhos, dedos nervosos a deslizar nos telemóveis, uma tia a resmungar sobre “o que o teu pai teria querido”. Na parede, um cartaz emoldurado sobre testamentos digitais estava torto, como se já tivesse desistido de ficar direito.

Dois irmãos discutiam em sussurros sobre a casa. A irmã fitava o chão, a apertar uma pasta abarrotada de extractos bancários e notas manuscritas. O notário chamou o nome deles e levantaram-se a ritmos diferentes, nenhum verdadeiramente pronto.

Lá fora, o mundo continuava como sempre. Cá dentro, uma nova lei estava prestes a mudar o guião para os herdeiros.

E, a partir de Fevereiro, cenas como esta já não se vão desenrolar da mesma forma.

O que muda exactamente para os herdeiros a partir de Fevereiro

A partir de Fevereiro, a herança deixa de ser apenas “a coisa de que tratamos depois de um funeral”. Passa a ser um labirinto jurídico que está a ser discretamente redesenhado nos bastidores. Entram em cena novas regras sobre quem recebe o quê, com que rapidez e em que condições.

Para muitas famílias, isso significará surpresas. Algumas boas, outras bem menos agradáveis.

O objectivo é claro: trazer o direito sucessório para a era das famílias recompostas, das contas online e do imobiliário que custa mais do que três vidas de poupanças. O choque virá no dia em que alguém perceber que a divisão “óbvia” de uma herança já não é a divisão legal.

Veja-se o caso de Marc, 49 anos, divorciado, com dois filhos adolescentes e uma nova companheira com quem vive há seis anos. Até agora, assumia vagamente: “os miúdos ficam com tudo, a minha companheira fica com o apartamento, e a família resolve”. Nunca foi mais fundo.

Com o novo enquadramento que entra em vigor em Fevereiro, estas suposições começam a ruir. A lei torna mais rigorosa a forma de calcular a quota reservada dos filhos e dá mais peso às intenções escritas do que a acordos vagos à volta da mesa de domingo. A companheira, não casada, descobre que está numa posição mais frágil do que pensava.

Quando Marc morre subitamente de um ataque cardíaco, os filhos querem vender o apartamento para “desbloquear” a sua parte. A companheira percebe que o que antes era um entendimento informal já não chega para proteger o tecto onde vive.

O que está realmente por detrás destas reformas é um exercício de reequilíbrio. Os legisladores tentam conciliar três realidades: a protecção dos direitos das crianças, o aumento de famílias não casadas e recompostas, e a explosão do património imobiliário e digital.

A lei está a empurrar as famílias a passar de desejos ditos para estratégias escritas e coerentes. Acordos silenciosos, “toda a gente sabe o que eu queria”, estão a perder força.

As novas regras obrigam-nos a pôr no papel aquilo que antes deixávamos nas entrelinhas.

Para os herdeiros, isso significa menos zonas cinzentas no primeiro dia da sucessão, mas também menos margem para improvisar.

Como preparar-se já para que a nova lei não destrua a sua família

O gesto mais concreto que pode fazer antes de Fevereiro é brutalmente simples: faça o inventário da sua vida. Não apenas da casa e da conta poupança, mas também das coisas que quase sempre se esquecem. O seguro que não usa. A carteira de criptomoedas meio abandonada. O empréstimo que fez ao seu irmão “só por uns meses”.

Sente-se com um caderno ou uma folha de cálculo e liste: bens, dívidas, contratos, herdeiros. Depois pergunte a si próprio, com frieza: quem quero realmente proteger primeiro? Filhos? Cônjuge? Companheiro(a)? Um progenitor vulnerável?

Este primeiro mapa, mesmo imperfeito, muda tudo. Transforma uma bomba emocional numa equação resolúvel.

A maioria das pessoas espera demasiado. Dizem a si próprias que são demasiado novas. Que não têm “o suficiente” para justificar um testamento. Ou que a lei “trata disso”.

É assim que irmãos acabam a discutir por causa de um carro, um anel ou um pequeno apartamento comprado há 30 anos. É assim que um segundo cônjuge se vê perante enteados hostis munidos de uma impressão das novas regras legais. Todos já vimos isso: aquele momento em que um jantar de família vira um tribunal porque alguém menciona a palavra “herança”.

Sejamos honestos: ninguém lê direito sucessório numa tarde tranquila de domingo.

Ainda assim, uma reunião de uma hora com um notário nas próximas semanas pode evitar dez anos de ressentimento.

“Sempre que a lei evolui, as famílias descobrem tarde demais que ‘o que tínhamos decidido entre nós’ já não vale”, explica um notário de Paris com quem falei. “A partir de Fevereiro, os mais expostos serão os que não puseram nada por escrito ou não actualizaram testamentos antigos. A lei não vai adivinhar as intenções.”

  • Revise o seu testamento antes de Fevereiro: documentos antigos podem entrar em conflito com as novas regras, especialmente no que toca às quotas reservadas e ao tratamento de enteados.
  • Fale abertamente com os seus herdeiros: dizer com clareza quem recebe o quê - e porquê - reduz o choque quando o notário lê os valores.
  • Proteja primeiro a pessoa mais frágil: um filho com deficiência, um(a) companheiro(a) sem rendimento, um progenitor idoso. A lei define o enquadramento; você escolhe as prioridades.
  • Pense para além da casa:
  • Liste activos digitais, seguros de vida e empréstimos informais.

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