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Fósseis vivos: mergulhadores franceses captam pela primeira vez imagens raras de uma espécie emblemática nas águas da Indonésia.

Dois mergulhadores exploram um recife de coral vibrante, rodeados por peixes coloridos e corais sob águas claras.

A primeira coisa que viram foi o brilho das suas próprias lanternas a refletir numa parede de rocha a pique, a 40 metros de profundidade ao largo da costa de Sulawesi. O mar era perfeitamente negro, um veludo denso que engolia som e luz em segundos. Os mergulhadores franceses avançavam devagar, respirações ruidosas nos reguladores, barbatanas a levantarem pequenas nuvens de plâncton fosforescente, como pirilampos subaquáticos.

Depois, algo se mexeu na escuridão.
Uma forma, grande e atarracada, suspensa na água com uma imobilidade que parecia quase… teimosa. O feixe de uma lanterna varreu barbatanas em forma de lobo, uma cauda maciça, olhos que pareciam encarar de volta. Por um segundo, ninguém se mexeu. As câmaras, essas, já estavam a gravar.

Tinham acabado de encontrar uma criatura que não devia estar ali.
Um peixe que parece ter saído de outra era.

Um fantasma do passado, diante das lentes

Os mergulhadores conheciam a lenda antes de verem a silhueta. O celacanto. Um peixe dado como extinto há quase 65 milhões de anos e depois, milagrosamente, reencontrado em 1938 ao largo da África do Sul. Um “fóssil vivo” com barbatanas carnudas que parecem estar a meio caminho entre um peixe e um membro primitivo. Para os biólogos marinhos, é como encontrar um dinossauro que, de alguma forma, escapou ao asteroide.

Nas águas frias e pesadas deste desfiladeiro indonésio, a equipa francesa veio com base numa suspeita calculada. Rumores de pescadores locais, capturas estranhas à noite, histórias sussurradas ao café no porto. A maioria das expedições regressa sem nada, além de sombras desfocadas e frustração.

Desta vez, um corpo escuro e ancestral atravessou lentamente o feixe de luz. Sem fugir. Apenas a existir.

O encontro aconteceu nas águas do Norte de Sulawesi, numa zona agreste de falésias subaquáticas onde o fundo desce brutalmente para o abismo. Os mergulhadores franceses, juntando curiosidade científica e pura teimosia, planearam esta viagem durante meses. Estudaram correntes, ciclos lunares, até os hábitos das embarcações locais, para escolher a janela menos perturbada.

O primeiro vislumbre surgiu na terceira descida da semana. Por volta dos 45 metros, com o ar já pesado e o risco de doença descompressiva a aumentar, um mergulhador avistou uma cauda como uma folha larga a deslizar atrás de uma rocha. A equipa imobilizou-se. Câmaras levantadas. Luzes ligeiramente reduzidas, quase por instinto.

No vídeo, ouve-se uma exclamação abafada através do regulador quando o celacanto reaparece. Escamas espessas azul-acinzentadas, manchas brancas como constelações ao acaso, barbatanas lentas e deliberadas. Um ritmo pré-histórico num mundo hiperconectado.

Os biólogos descrevem muitas vezes o celacanto como uma cápsula do tempo da evolução. A sua anatomia conserva traços próximos dos primeiros vertebrados que tentaram andar em terra. É por isso que os cientistas o chamam uma “espécie emblemática”: conta uma história que começou há centenas de milhões de anos, muito antes dos humanos, muito antes das baleias, até antes da maioria dos dinossauros.

Ver um vivo, no seu habitat natural, é mais do que uma imagem-troféu. Confirma que estes peixes misteriosos ainda patrulham certas grutas e saliências subaquáticas na Indonésia, longe das populações sul-africanas e comorianas que eram mais conhecidas até agora. Cada novo vídeo, cada encontro, afina o mapa de onde vivem e como se movem.

Os mergulhadores franceses não trouxeram apenas imagens bonitas. Trouxeram prova de que este nosso vizinho discreto ainda encontra espaço nos mares mais pressionados do planeta.

Como filmar um peixe que odeia as luzes da ribalta?

Seguir um celacanto não é um mergulho de férias com uma GoPro. A equipa recorreu a um método paciente, quase à antiga: ouvir. Dias passados no porto, a conversar com pescadores indonésios ao café e cigarros de cravinho. Perguntar por “peixes estranhos”, “grandes azuis com manchas brancas”, “aqueles que vêm de muito fundo e morrem depressa”.

Depois vieram mapas, rabiscados em cadernos húmidos. Recifes, encostas, grutas subaquáticas. Cruzaram os relatos antigos com dados de sonar e publicações científicas anteriores, construindo o seu próprio atlas mental de possíveis refúgios. Já na água, o plano era simples e exigente: mergulhos ao fim do dia, ao longo de paredes que desciam para lá dos 100 metros, olhos fixos na zona crepuscular onde se sabe que os celacantos circulam.

As câmaras foram configuradas para pouca luz. Os flashes ficaram desligados o máximo de tempo possível. Queriam ver o animal, não cegá-lo.

Esta é a parte que a maioria das pessoas subestima: a espera. O frio que se infiltra no fato após 30 minutos em profundidade. O cálculo mental de quanto ar resta, quanto tempo falta para as paragens de descompressão se tornarem obrigatórias. A dúvida quando uma forma escura acaba por ser apenas um mero ou uma ilusão da rocha.

Todos já passámos por isso: o momento em que aquilo que persegues começa a parecer fantasia. É aí que decisões lógicas se tornam emocionais. Mais um minuto. Mais um metro. Mais uma espreitadela à volta da esquina. Ironicamente, é também aí que acontecem acidentes.

Sejamos honestos: ninguém respeita todas as recomendações de segurança em todos os mergulhos. A equipa francesa sabia disso e, por isso, revezou-se, limitou o tempo no fundo e aceitou que falhar o peixe era melhor do que não regressar.

As imagens raras que finalmente captaram são o resultado de um equilíbrio frágil entre obsessão e disciplina.

Mais tarde, um dos membros da equipa resumiu assim:

“Ver um celacanto à tua frente, vivo, a mover as barbatanas como remos lentos, reinicia o teu relógio interno. De repente, sentes-te muito, muito jovem enquanto espécie.”

Para manter essa noção de escala, as imagens não mostram apenas grandes planos. Mostram também o celacanto na sua catedral escura de rocha, emoldurado pelo vazio, apenas uma pequena presença numa paisagem gigantesca.

Regressaram com horas de vídeo, mas algumas sequências vão ficar icónicas:

  • A primeira aproximação: o peixe a pairar na vertical, cabeça para cima, como um guardião à entrada de uma gruta.
  • A vista lateral: as barbatanas a rodarem num padrão quase robótico, completamente diferente dos movimentos típicos dos peixes.
  • A retirada: uma viragem lenta e digna, a cauda a bater com quase nenhum esforço visível, desaparecendo no negro.

Porque é que este “fóssil vivo” importa mais do que um clip viral

Estas imagens vão correr o mundo, de conferências científicas a reels virais no Instagram. Serão partilhadas, comentadas, transformadas em miniaturas com setas vermelhas e títulos dramáticos. É assim que o jogo funciona agora. Mas, por baixo dos cliques, há uma pergunta mais silenciosa: o que significa partilhar um planeta com um ser que quase não mudou em 400 milhões de anos?

O celacanto sobreviveu a cinco extinções em massa. Asteroides, invernos vulcânicos, mudanças climáticas drásticas. Escondeu-se nas sombras de falésias submarinas enquanto ecossistemas inteiros desapareciam. A sua sobrevivência não é um conto de fadas - e também não é uma garantia. Desenvolvimento costeiro, pesca com dinamite, redes de profundidade e o aquecimento das águas estão todos a aproximar-se dos seus últimos refúgios.

Vê-lo em vídeo é um privilégio. Saber que ainda cá está é uma responsabilidade.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Encontro raro Mergulhadores franceses filmaram um celacanto vivo em águas indonésias Dá um vislumbre tangível de uma espécie normalmente vista apenas em documentários
Fóssil vivo Os celacantos mantêm traços anatómicos antigos dos primeiros vertebrados Ajuda a compreender como a vida evoluiu do mar para a terra
Refúgio frágil A espécie depende de grutas subaquáticas profundas, escuras e pouco perturbadas Mostra por que preservar zonas marinhas específicas muda o panorama geral

FAQ:

  • O celacanto é mesmo um “fóssil vivo”? Os cientistas usam este termo porque o seu plano corporal mudou muito pouco ao longo de centenas de milhões de anos, embora continue a ser um animal vivo e em evolução.
  • Onde foi filmado este celacanto? Os mergulhadores franceses captaram estas imagens ao largo do Norte de Sulawesi, Indonésia, num desfiladeiro subaquático profundo perto de falésias rochosas.
  • A espécie está em perigo? Os celacantos são considerados vulneráveis, com populações pequenas e localizadas e necessidades de habitat específicas, sensíveis à pesca e ao desenvolvimento costeiro.
  • Mergulhadores recreativos podem ver um celacanto? Os encontros são extremamente raros e acontecem a profundidades e em condições arriscadas para mergulhadores não especializados, pelo que não é um objetivo realista para a maioria das pessoas.
  • Porque é que esta descoberta importa para a ciência? Cada novo vídeo ou observação melhora o que sabemos sobre a distribuição, o comportamento e o habitat do celacanto, influenciando estratégias de conservação para recifes profundos e montes submarinos.

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