Foram precisas décadas para que se impusesse às famílias a regra de manter o termóstato nos 19°C para poupar energia. Hoje, casas melhor isoladas, novas tecnologias de aquecimento e estilos de vida em mudança estão a redefinir essa referência - e muitos especialistas defendem que um objetivo ligeiramente mais quente faz mais sentido.
A velha regra dos 19°C e porque está a ser posta em causa
A famosa orientação dos 19°C nasceu na crise do petróleo dos anos 1970, quando os governos pressionaram fortemente para reduzir o consumo. O conforto ficou em segundo plano face à segurança energética. As casas tinham correntes de ar, as janelas eram de vidro simples e os sistemas de aquecimento eram muito menos eficientes do que os atuais.
Avançando meio século. As novas construções têm de cumprir normas rigorosas de desempenho térmico. O vidro duplo ou triplo é comum. Bombas de calor, caldeiras de condensação e termóstatos inteligentes transformaram a forma como aquecemos as nossas casas. Ao mesmo tempo, o dia a dia mudou: mais tempo em casa, mais ecrãs, mais tempo sentado.
O que parecia aceitável num apartamento mal isolado em 1975 pode saber a frio numa sala moderna onde está a trabalhar a partir de casa o dia inteiro.
Consultores de energia dizem hoje que os 19°C são uma referência útil, mas não uma regra universal. As pessoas envelhecem de forma diferente, mexem-se de forma diferente e sentem a temperatura de forma diferente. Famílias com crianças pequenas ou familiares idosos acham muitas vezes que 19°C é demasiado fresco. Quem anda de um lado para o outro o dia todo não sente o mesmo frio que um freelancer colado ao portátil.
O conforto também depende do próprio edifício e do clima interior, não apenas do número no termóstato.
- Isolamento: um apartamento mal isolado pode parecer frio mesmo a 21°C, com paredes geladas e correntes de ar.
- Humidade: o ar húmido intensifica a sensação de frio e “entra” nos ossos mais depressa.
- Nível de atividade: ler no sofá ou escrever ao computador arrefece-o mais depressa do que cozinhar ou limpar.
Reduzir o conforto a um único valor rígido ignora estas nuances. Por isso, um número crescente de especialistas está a convergir para um novo “ponto ideal”.
Porque é que os 20°C estão a tornar-se a nova referência
Em toda a Europa, os 20°C estão discretamente a emergir como o meio-termo pragmático entre conforto e contenção. A mudança pode parecer pequena, mas esse único grau faz muitas vezes a diferença entre “veste mais uma camisola” e “assim está bem”.
Para muitas famílias, 20°C trazem um aumento percetível de conforto, mantendo ainda o consumo de energia sob controlo.
Impacto energético: um grau que conta
As agências de energia estimam normalmente que cada grau extra acima dos 19°C aumenta o consumo de aquecimento em cerca de 7%. Subir para 22–23°C pode, por isso, fazer disparar as faturas. Passar de 19°C para 20°C também aumenta o consumo, mas mantém-se numa zona relativamente controlada, sobretudo se for acompanhado de bons hábitos.
- A 19°C: baixo consumo, mas muitas pessoas sentem frio quando estão paradas.
- A 20°C: consumo moderado, conforto claramente melhor para a maioria dos adultos.
- A 22–23°C: consumo elevado, muitas vezes ar demasiado quente e ambiente interior mais seco.
Na prática, 20°C funcionam melhor como referência para as zonas de estar, e não como uma temperatura uniforme para toda a casa.
Divisões diferentes, necessidades diferentes
Cada vez mais, os especialistas recomendam ajustar a temperatura por divisão, em vez de aquecer tudo por igual.
| Divisão | Temperatura recomendada | Motivo |
|---|---|---|
| Sala / escritório em casa | Cerca de 20°C | Confortável para estar sentado, ler, trabalhar ou relaxar. |
| Quartos (adultos) | 16–18°C | O ar mais fresco favorece uma melhor qualidade do sono. |
| Casa de banho (em uso) | 21–22°C | Evita o choque térmico ao sair do duche. |
| Corredores / patamares | Cerca de 17°C | Zonas de passagem precisam de menos aquecimento. |
Ao concentrar o calor onde as pessoas realmente passam tempo, é possível adotar 20°C na principal zona de estar e manter o resto da casa ligeiramente mais fresco.
Como aquecer de forma mais “inteligente” em vez de mais quente
Aumentar o termóstato sem mudar hábitos é o caminho mais rápido para uma fatura dolorosa de gás ou eletricidade. A alternativa é fazer com que esses 20°C rendam mais através de pequenos ajustes cumulativos.
Pequenas ações consistentes poupam muitas vezes mais energia do que obsessões com um único grau no termóstato.
- Use um termóstato programável ou inteligente: defina temperaturas mais baixas à noite ou quando está fora e programe o aquecimento para subir pouco antes de acordar ou regressar.
- Dê prioridade ao isolamento: isolamento do sótão, vedação de frestas, melhoria de janelas e portas isoladas reduzem drasticamente as perdas de calor.
- Aproveite o calor natural: abra os cortinados quando o sol incide nas janelas e feche-os (e também as portadas/estores, se existirem) assim que escurecer.
- Feche portas: mantenha o ar quente nas divisões que usa, sobretudo em casas antigas com corredores com correntes de ar.
- Adicione têxteis: tapetes grossos, cortinados forrados e mantas reduzem o efeito de “superfícies frias”, especialmente em pisos de mosaico ou madeira.
A ADEME (França) e agências semelhantes no Reino Unido e nos EUA estimam que a combinação destas medidas pode reduzir os custos de aquecimento em 10–15% ao ano, muitas vezes com pouco investimento.
Quando uma casa fria se torna um risco para a saúde
Com os custos da energia ainda elevados, algumas famílias baixam o termóstato bem abaixo dos 19°C para poupar dinheiro. Os médicos alertam que isto pode sair caro, sobretudo para idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crónicas.
- Problemas respiratórios: a exposição prolongada a ar frio e húmido aumenta o risco de infeções e pode agravar a asma ou a bronquite.
- Sono de pior qualidade e fadiga: um quarto ligeiramente fresco ajuda a dormir, mas um quarto muito frio provoca noites agitadas e cansaço.
- Stress no coração e nos vasos sanguíneos: o corpo trabalha mais para manter os 37°C internos, o que pode sobrecarregar o sistema cardiovascular.
A Organização Mundial da Saúde aconselha a manter pelo menos 18°C nas principais zonas de estar, e ligeiramente mais para pessoas vulneráveis.
Abaixo desse limiar, os riscos começam a superar o ganho financeiro, sobretudo ao longo de um inverno prolongado. Para alguém com doença cardíaca ou problemas respiratórios, cortar mais um ou dois graus pode parecer barato a curto prazo, mas caro em termos de saúde.
Aquecimento, clima e o novo panorama energético
O debate entre 19°C e 20°C já não acontece num vazio. O aquecimento doméstico está no cruzamento entre conforto pessoal, orçamentos familiares e política climática.
Na Europa e na América do Norte, os governos estão a promover bombas de calor, a incentivar eletricidade renovável e a oferecer apoios para isolamento e caldeiras eficientes. O objetivo é simples: manter as pessoas quentes reduzindo as emissões do aquecimento a gás e a gasóleo.
Neste contexto, a regra dos 19°C não é “errada”. Apenas se parece mais com um ponto de partida do que com um teto fixo. Para muitas casas, 20°C nas zonas de estar, controlos inteligentes e isolamento dirigido oferecem um equilíbrio mais realista entre bom senso e sustentabilidade.
O que “temperatura ideal” significa realmente na prática
A expressão “temperatura ideal” sugere um número mágico, mas na vida real é um alvo móvel. Dois vizinhos em apartamentos idênticos podem discordar sobre a definição perfeita porque os seus corpos, rotinas e expectativas não coincidem.
Em vez de perseguir um valor universal, o objetivo é ajustar a temperatura às necessidades reais - e não a hábitos herdados de há décadas.
Um casal a trabalhar a partir de casa pode dar prioridade a 20°C na sala ou no escritório das 9 às 5 e depois baixar para 18–19°C à noite, com mantas no sofá. Uma pessoa sozinha que passa o dia fora pode aquecer apenas algumas horas ao final do dia e apostar num edredão ligeiramente mais quente à noite.
Dois cenários rápidos para tornar os números concretos
Cenário 1: a família preocupada com a fatura
Atualmente aquecem toda a moradia com três quartos a 21°C. Ao setorizarem o aquecimento, baixando os quartos para 17°C, corredores para 17°C e mantendo as zonas de estar a 20°C, reduzem o consumo sem se sentirem privados. Com cortinados mais grossos e um termóstato inteligente, a família pode ver uma redução de dois dígitos na fatura anual.Cenário 2: o apartamento subaquecido
Um pensionista a viver sozinho mantém o termóstato nos 17°C todo o inverno para poupar dinheiro, passa as noites embrulhado em casacos e desenvolve infeções respiratórias mais frequentes. Subir para 19–20°C, acrescentando vedação contra correntes de ar e fechando divisões não usadas, pode aumentar ligeiramente a fatura, mas reduz riscos de saúde e melhora o conforto diário.
Conceitos-chave que vale a pena conhecer
Dois termos técnicos aparecem frequentemente em conselhos sobre aquecimento e podem ajudar as famílias a tomar melhores decisões:
- Inércia térmica: descreve a rapidez (ou lentidão) com que um edifício aquece e arrefece. Paredes grossas de pedra ou pavimentos pesados de betão acumulam calor e libertam-no gradualmente. Nestes casos, grandes oscilações no termóstato são menos eficazes; um 19–20°C estável com pequenos ajustes resulta melhor.
- Temperatura de redução (setback): é a temperatura mais baixa usada quando está a dormir ou fora de casa. Em vez de desligar o aquecimento, reduz para, por exemplo, 16–17°C. A casa não arrefece em excesso e gasta-se menos energia a voltar a aquecer do que a partir de uma base muito fria.
Compreender estas ideias ajuda a perceber porque o ideal não é simplesmente “tão baixo quanto conseguir aguentar”. O que realmente define a faixa certa de temperatura é a interação entre desempenho do edifício, padrões diários e saúde.
Para este inverno e para o próximo, o debate deverá afastar-se de slogans rígidos. A bandeira dos 19°C teve utilidade durante os choques petrolíferos; hoje, um objetivo flexível de 20°C para as zonas de estar, combinado com hábitos de aquecimento mais inteligentes, aproxima-se mais do que muitas famílias realmente precisam.
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