À medida que aumentam as preocupações com as doenças cardiovasculares, os cientistas estão a voltar-se para um aliado inesperado escondido nas cozinhas do Médio Oriente e do Mediterrâneo: uma especiaria rara e perfumada que pode ajudar a baixar o colesterol “mau” em apenas alguns meses.
Colesterol, artérias e o risco silencioso
O colesterol elevado não dói, não causa comichão nem faz barulho. No entanto, danifica silenciosamente as artérias dia após dia. O excesso de colesterol LDL, muitas vezes chamado colesterol “mau”, favorece a formação de placas gordurosas que aderem à parede interna dos vasos sanguíneos. Com o tempo, estas placas estreitam as artérias e podem acabar por as bloquear.
Este processo de aterosclerose aumenta o risco de enfarte do miocárdio e AVC. Os médicos começam geralmente por medidas de estilo de vida: reduzir carnes gordas, alimentos ultraprocessados e álcool, ao mesmo tempo que se aumenta a fibra proveniente de vegetais, cereais integrais e leguminosas.
Para além da dieta, uma especiaria oriental em particular está agora a emergir como um aliado promissor para artérias mais saudáveis e níveis mais baixos de colesterol LDL.
A especiaria oriental sob o microscópio
A estrela de investigações recentes é o açafrão, os fios vermelho-escuros recolhidos do estigma da flor Crocus sativus. Muitas vezes chamado “ouro vermelho”, é famoso por dar cor e aroma a pratos do Irão à Espanha.
O açafrão é amplamente usado em guisados persas, biryanis indianos e paella espanhola, e surge também em chás, sobremesas e até cosméticos. Na medicina tradicional na China, Índia e em partes do Mediterrâneo, tem uma longa história de uso contra problemas cardiovasculares, condições hepáticas, questões de fertilidade e diabetes tipo 2.
O que antes era conhecimento empírico está agora a atrair escrutínio científico moderno.
O que a investigação diz sobre o açafrão e o colesterol
Equipas de investigadores, incluindo cientistas na Malásia e em Espanha, estudaram o impacto do açafrão nos lípidos do sangue. Os dados sugerem que o consumo regular pode ajudar a reduzir e estabilizar o colesterol em níveis mais saudáveis, contribuindo para um sistema cardiovascular com melhor funcionamento.
A chave está em três famílias de compostos ativos presentes no açafrão:
- Crocinas - pigmentos carotenoides com fortes propriedades antioxidantes
- Derivados das crocinas, como a crocetina - envolvidos em efeitos anti-inflamatórios e vasculares
- Picrocrocina - responsável pelo sabor característico do açafrão
A crocina parece reduzir os lípidos no sangue ao bloquear a lipase pancreática, diminuindo a absorção de gorduras alimentares e colesterol no intestino.
Ao limitar a quantidade de gordura absorvida, a crocina pode ajudar a baixar suavemente os níveis de colesterol. Alguns dados experimentais também sugerem que pode aumentar o HDL, o colesterol “bom” que ajuda a transportar o excesso de colesterol de volta para o fígado para eliminação.
O protocolo de três meses que chamou a atenção
Um estudo espanhol frequentemente citado analisou uma forma prática de usar o açafrão para gerir o colesterol. Os investigadores recomendaram uma dose e duração específicas:
| Forma | Dose diária | Preparação | Duração |
|---|---|---|---|
| Açafrão moído (tipo DOP La Mancha) | 50 mg por dia | Infusão em 200 ml de água para beber | 93 dias (cerca de 3 meses) |
Após aproximadamente três meses de ingestão diária com esta dose modesta, os participantes apresentaram efeitos de redução do colesterol suficientemente relevantes para os autores falarem em atividade “hipocolesterolemiante”.
A dose é minúscula - uma fração de um grama - mas suficiente para fornecer compostos ativos. Para referência, 1 grama corresponde a 1.000 mg, pelo que 50 mg representam apenas um vigésimo de grama.
Porque o açafrão é poderoso e caro
O açafrão é a especiaria mais cara do mundo. Na Europa, os preços de retalho podem atingir £25–£35 por grama, por vezes mais. A razão é simples: a produção é extremamente manual e intensiva em mão de obra.
Cada flor de croco produz apenas três estigmas delicados. Têm de ser colhidos à mão ao amanhecer e depois secos com cuidado para manterem a cor e o sabor. São necessárias dezenas de milhares de flores para um único quilograma de açafrão seco.
Este preço elevado pode até funcionar como travão de segurança. Tal como acontece com muitas especiarias, o açafrão pode tornar-se tóxico em grandes quantidades, com riscos referidos acima de cerca de 1,5 gramas por dia em adultos. Aos preços atuais de mercado, consumir tanto seria extremamente caro, pelo que uma sobredosagem acidental através da alimentação é improvável.
Estudos terapêuticos trabalham com doses em miligramas, muito abaixo dos níveis associados à toxicidade e muito mais baratas do que quantidades farmacológicas.
Como usar açafrão em refeições amigas do coração
Para a maioria das pessoas, o açafrão entrará na dieta como ingrediente culinário e não como suplemento. Quando bem utilizado, acrescenta sabor e reduz a necessidade de molhos pesados ou de excesso de sal.
Formas simples de introduzir o açafrão
- Água ou chá em infusão: deixar em infusão uma pitada de fios em água quente (não a ferver) durante 10–15 minutos e beber.
- Pratos de arroz integral: juntar alguns fios previamente infusionados ao arroz integral com legumes e peixe magro.
- Peixe e marisco: usar açafrão em caldos leves ou peixe no forno em vez de molhos ricos em manteiga.
- Guisados de legumes: combinar com grão-de-bico, tomate e beringela para uma refeição rica em fibra e pobre em gordura.
Na cozinha tradicional do Médio Oriente e do Mediterrâneo, o açafrão raramente é usado isoladamente. Faz par com alho, cebola, azeite e muitos vegetais. Todo este padrão alimentar contribui para melhores perfis lipídicos e menos eventos cardiovasculares.
Quem pode beneficiar - e em que condições
O açafrão não substitui estatinas nem tratamento médico. Pode adequar-se a pessoas com elevação ligeira a moderada do colesterol que já estejam a trabalhar a alimentação e a atividade física, ou a quem tenha risco aumentado por historial familiar e queira um apoio baseado em alimentos.
Para pessoas a tomar medicação para baixar o colesterol, adicionar açafrão em quantidades culinárias é geralmente considerado seguro, mas continua a ser sensato falar com um profissional de saúde, sobretudo se também tomar anticoagulantes, medicamentos para a tensão arterial ou medicação para a diabetes.
O açafrão deve ser visto como um aliado alimentar, não como uma cura milagrosa que torna comprimidos ou mudanças de estilo de vida desnecessários.
Riscos potenciais e precauções
Em pequenas doses culinárias, o açafrão é normalmente bem tolerado. Os efeitos secundários tendem a surgir com ingestões muito elevadas, muito acima do que se usa numa cozinha normal. Há relatos de toxicidade com sintomas como náuseas, tonturas, amarelecimento da pele ou das mucosas e, em doses extremas, complicações graves.
As grávidas são frequentemente aconselhadas a evitar doses medicinais de açafrão, uma vez que alguns dados sugerem que pode influenciar contrações uterinas. O uso ocasional na alimentação é geralmente considerado aceitável, mas a automedicação com cápsulas ou extratos concentrados deve ser discutida com a parteira/enfermeira obstetra ou com o médico.
Como o açafrão se compara com outros hábitos amigos do colesterol
Mesmo com dados promissores, o açafrão continua a ser apenas uma ferramenta entre muitas. Para reduzir o LDL, a evidência é mais forte para medidas de estilo de vida como:
- Trocar gorduras saturadas (manteiga, carnes gordas) por gorduras insaturadas (azeite, óleo de colza, frutos secos)
- Comer fibra solúvel de aveia, leguminosas, maçãs e cevada
- Perder mesmo 5–10% do peso corporal em pessoas com excesso de peso ou obesidade
- Atividade física regular, como 30 minutos de caminhada rápida cinco dias por semana
Nesse contexto, o açafrão pode ter um papel de apoio. Ao tornar pratos saudáveis mais saborosos e satisfatórios, pode ajudar as pessoas a manter uma alimentação centrada na saúde do coração a longo prazo.
Aplicar na prática: um cenário de três meses
Imagine alguém com colesterol LDL ligeiramente elevado que quer agir antes de precisar de medicação. Um cardiologista sugere três passos em paralelo: um padrão alimentar tipo mediterrânico, caminhadas diárias e uma infusão de açafrão todos os dias durante três meses, seguindo uma dose de 50 mg semelhante ao protocolo espanhol.
Após 12 semanas, essa pessoa poderá ver uma descida moderada mas real do LDL, uma pequena subida do HDL e, tão importante quanto isso, novos hábitos que podem ser mantidos. O açafrão em si não é uma bala mágica; o benefício vem da combinação de uma alimentação mais saudável, mais movimento e um impulso extra dos compostos bioativos da especiaria.
Termos-chave que vale a pena esclarecer
Duas palavras técnicas surgem frequentemente em estudos sobre açafrão e colesterol. Compreendê-las ajuda a decifrar a investigação:
- Efeito hipolipidémico: redução dos lípidos no sangue, sobretudo colesterol e triglicéridos.
- Lipase pancreática: enzima digestiva libertada pelo pâncreas que decompõe gorduras no intestino. Quando esta enzima é parcialmente bloqueada, absorve-se menos gordura e mais passa pelo intestino sem ser utilizada.
Ao inibir ligeiramente a lipase pancreática, a crocina altera a forma como o organismo lida com as gorduras alimentares. Em combinação com uma dieta mais baixa em gordura saturada e mais rica em fibra, este mecanismo pode contribuir para paredes arteriais mais saudáveis ao longo do tempo.
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