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Estátua humana de 12.000 anos encontrada numa parede pode mudar a história da civilização.

Pessoa pinta estátua antiga em pedra num museu ou local histórico, com caderno aberto e materiais de pintura ao lado.

Uma estátua humana selada em pedra

A peça foi encontrada em Göbekli Tepe, a cerca de 15 km de Şanlıurfa (sudeste da Turquia). O sítio é conhecido por recintos monumentais muito antigos, geralmente datados de cerca de 9600 a.C. - milhares de anos antes dos megálitos mais famosos em Portugal (que são, em grande parte, do 4.º milénio a.C.).

Numa campanha recente liderada pelo professor Necmi Karul (Universidade de Istambul), os arqueólogos identificaram uma figura humana colocada na horizontal dentro de uma cavidade num muro de pedra. Ou seja: não estava “caída” no chão; foi incorporada na própria arquitetura.

Não parece ser um acidente de ruína: foi selada de forma intencional no muro.

A estátua ainda está em conservação e, até ao momento, não foi descrita em detalhe numa publicação científica completa. É comum que imagens e medições fiquem temporariamente restritas enquanto se estabiliza a superfície (muito vulnerável a fissuras, sais e micro-escamação) e se removem depósitos acumulados ao longo de milénios.

A descoberta insere-se no projeto Taş Tepeler (“colinas de pedra”), que reúne dezenas de instituições e centenas de investigadores em vários sítios neolíticos da região. O trabalho combina escavação e estratigrafia com prospeção geofísica (para “ver” estruturas enterradas) e registo fotogramétrico/3D, essencial para interpretar como estes edifícios foram usados e alterados ao longo do tempo.

Porque é que esta estátua é tão invulgar

Desde as escavações de grande escala iniciadas nos anos 1990, Göbekli Tepe revelou muitas esculturas e relevos - mas quase sempre com animais (raposas, javalis, serpentes, aves). Figuras humanas completas são raras.

Aqui, o que se destaca é a combinação de dois fatores:

  • aparenta ser uma figura humana “inteira”, e não apenas mãos, membros ou torsos estilizados;
  • está integrada num muro, em vez de ser uma escultura independente.

Uma figura humana completa, embutida num edifício tão antigo, pode indicar que o “humano” tinha um peso simbólico comparável ao bestiário à volta.

A datação preliminar aponta para o Neolítico Pré-Cerâmico A (PPNA), em termos gerais entre o final do 10.º e o início/meados do 9.º milénio a.C. (há margens de erro e fases internas). Nesta fase, muitas comunidades ainda dependiam bastante da caça e recolha, mas já testavam formas de permanência no território e organização coletiva.

Noutros sítios Taş Tepeler, como Karahantepe, existem figuras humanas esculpidas em bancos e elementos arquitetónicos. Ainda assim, uma estátua humana colocada “dentro” de um muro continua a ser um caso pouco comum - e isso abre hipóteses como oferta fundacional, marcador de limiar/limite, ou “guardião” do recinto.

Göbekli Tepe: não uma aldeia, mas uma máquina ritual

Um ponto essencial: Göbekli Tepe não se parece com uma aldeia típica. Faltam, pelo menos até agora, sinais claros de vida doméstica contínua (casas, fornos, áreas de armazenamento extensas) à escala que esperaríamos num povoado permanente. O conjunto é dominado por arquitetura cerimonial.

O sítio inclui estruturas circulares/ovais com pilares em calcário em forma de T. A chamada Estrutura C ultrapassa os 20 m de diâmetro. Alguns pilares chegam a ~6 m e podem atingir muitas toneladas, o que implica planeamento, mão de obra e logística (extração, transporte, talhe e montagem) numa época sem metal e sem roda.

Intervenções de conservação recentes (incluindo trabalhos atribuídos a 2025 no programa “Geleceğe Miras”) procuraram estabilizar muros e reposicionar elementos. Em restauros deste tipo, é frequente usar argamassas compatíveis e fibras orgânicas para controlar fissuração - mas estes materiais também exigem monitorização porque podem reagir de forma diferente à humidade e aos sais no longo prazo. Prospeções geofísicas continuam a indicar mais arquitetura por escavar.

A estátua agora identificada reforça a ideia de edifícios pensados como sistemas simbólicos: paredes, pilares, gravuras e objetos não seriam “decoração”, mas componentes ativos do ritual.

O edifício não é só o cenário; faz parte do próprio ato ritual.

Ao selar uma figura humana no muro, os construtores podem ter fixado um antepassado, um ser mítico ou uma “presença” permanente, literalmente fundida com o lugar de encontro.

Repensar como começou a civilização

Durante muito tempo, contou-se uma sequência simples: agricultura → aldeias → templos → Estados. Göbekli Tepe é um dos sítios que tornam essa linha mais difícil de sustentar sem nuance.

A evidência aponta para encontros de grande escala entre grupos de caçadores-recoletores que investiam trabalho pesado em recintos rituais antes da agricultura estar plenamente estabelecida. Em muitos cenários, as pessoas podem ter construído primeiro espaços cerimoniais, aumentado a permanência nas redondezas e só depois acelerado a domesticação de plantas e animais.

Um cuidado importante: isto não significa “religião antes de tudo” nem que a agricultura começou aqui. Significa, sobretudo, que rituais, alianças e identidade coletiva podem ter sido forças organizadoras tão importantes quanto a produção de alimento.

Terão as crenças vindo antes do pão?

Neste quadro, uma estátua humana embutida num muro encaixa bem no debate: se foi colocada num edifício de caráter sagrado, sugere regras partilhadas, narrativas e memória coletiva muito antes de cidades, escrita ou leis formais.

Pode ser mais um indício de que a coesão social - e não apenas as colheitas - ajudou a juntar grandes grupos.

Karul e a sua equipa têm defendido que encontros regulares e rituais comuns podem ter exigido previsibilidade: mais comida, mais materiais, mais coordenação. Isso poderia empurrar comunidades para experiências de cultivo e gestão de recursos - invertendo a ideia de que o ritual é apenas “efeito secundário” da agricultura.

Dentro do esforço de investigação Taş Tepeler

A estátua é uma peça dentro do mosaico Taş Tepeler, um conjunto de sítios do Neolítico inicial no sudeste da Anatólia. O valor aqui é comparativo: cada lugar mostra soluções diferentes para o mesmo problema - como criar vida coletiva mais complexa.

  • Göbekli Tepe: recintos monumentais, iconografia animal e agora uma figura humana selada num muro.
  • Karahantepe: bancos e esculturas humanas emergindo da rocha; possíveis sinais de ocupação mais “mista”.
  • Outras colinas: edifícios menores, variações arquitetónicas e pistas sobre mudanças na subsistência.

Todos ficam no Crescente Fértil, onde surgem cedo várias experiências com sedentarismo e domesticação. Ao cruzar arquitetura, arte e vestígios biológicos (sementes, ossos, micro-restos), os investigadores conseguem distinguir o que é tradição partilhada do que é inovação local.

A Turquia também tem projetado este património em exposições internacionais (como Roma em 2023 e iniciativas previstas para 2026), reforçando Göbekli Tepe como referência global para as origens de sociedades complexas.

O que a estátua poderá representar

Como a peça ainda está em conservação, as interpretações devem ficar no condicional. Mesmo assim, há hipóteses plausíveis:

Interpretação O que poderá significar
Figura de antepassado Memória e legitimidade do grupo “presas” à arquitetura.
Ser mítico ou divindade Presença permanente de uma narrativa partilhada no espaço ritual.
Oferta ritual Objeto depositado/“sacrificado” para consagrar o edifício.
Representação da comunidade Símbolo do coletivo, mais do que de um indivíduo.

Os próximos detalhes a observar tendem a ser decisivos: rosto, proporções, postura, marcas de ferramentas e eventuais objetos nas mãos. Noutros contextos do Próximo Oriente, a posição das mãos (sobre o peito, abdómen, etc.) pode marcar estatuto, papel ritual ou uma convenção iconográfica - mas é fácil sobre-interpretar antes de haver imagens, medições e contexto estratigráfico completos.

Termos-chave que mudam a forma como lemos o passado

Alguns termos ajudam a ler notícias como esta sem perder o essencial.

Neolítico Pré-Cerâmico A (PPNA): fase inicial do Neolítico no Próximo Oriente, em geral entre o fim do 10.º e o início do 9.º milénio a.C. Não há cerâmica; predominam ferramentas de pedra. Muitas comunidades continuam a caçar e recolher, mas já constroem arquitetura robusta e passam mais tempo em lugares fixos (nem sempre de forma permanente).

Oferta votiva: objeto colocado deliberadamente num ponto específico (sob um piso, num nicho, num muro) como parte de um gesto ritual. A intenção conta mais do que o “valor” do objeto; o contexto é o que permite defender esta leitura.

Crescente Fértil: arco geográfico que vai do Levante até à Mesopotâmia e zonas da Anatólia e do Irão ocidental. É uma das regiões onde aparecem cedo evidências de sedentarismo, domesticação e novas formas de organização social.

O que isto significa para nós hoje

Uma estátua humana selada num muro há cerca de 12.000 anos é um lembrete físico de algo simples: significado partilhado move pessoas, tempo e recursos. O esforço de talhar, transportar e erguer pedra em escala monumental não se explica só por “produtividade”.

Isso tem eco atual. Quando cidades e bairros se transformam, infraestruturas e emprego contam - mas também contam memória, identidade e lugares simbólicos (praças, santuários, estádios, miradouros, cemitérios). Göbekli Tepe sugere que a necessidade de pertencer e de repetir rituais coletivos pode organizar comunidades tanto quanto a economia.

A estátua no muro, por si, ainda não “reescreve” tudo. Mas acrescenta um dado concreto ao mesmo ponto: muito antes de Estados e escrita, já existiam projetos comuns suficientemente fortes para moldar paisagens - e para fundir pessoas, histórias e pedra num só objeto.

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