O que, à primeira vista, parecia ser os restos mortais de um santo homem acabou por se revelar algo muito mais raro: uma mulher cujo corpo foi encerrado em pesadas correntes como parte da sua vida religiosa, e não como cumprimento de uma pena criminal.
Um túmulo acorrentado sob um mosteiro bizantino
A história começa em 2017, durante escavações no mosteiro bizantino de Khirbat el-Masani, a noroeste da Cidade Velha de Jerusalém. Arqueólogos estavam a inspecionar várias criptas usadas por monges há mais de 1.500 anos.
No interior de uma dessas câmaras funerárias, encontraram um caixão que se destacou de imediato. O esqueleto estava enredado em correntes de ferro, algumas ainda pousadas sobre os ombros, a bacia e as pernas.
O corpo foi sepultado ainda preso, o que sugere que as correntes eram centrais para a identidade da pessoa em vida e na morte.
De início, a equipa que trabalhava com a Autoridade de Antiguidades de Israel presumiu que os restos pertenciam a um asceta do sexo masculino, uma figura semelhante a um eremita que praticava a auto-negação extrema por motivos religiosos. Fontes escritas do período bizantino associam frequentemente correntes a santos homens que procuravam desconforto físico constante como forma de oração.
Não foram encontrados sinais de grilhões típicos de prisioneiros, e o próprio espaço funerário não era uma masmorra. Integrava um complexo monástico, o que reforçou a ideia de que o indivíduo falecido tinha sido respeitado, e não castigado por autoridades seculares.
Uma reviravolta dramática: o “santo homem” era uma mulher
Só anos mais tarde um novo estudo científico viria a derrubar essa primeira interpretação. Os ossos estavam mal preservados, o que tornou pouco fiáveis os métodos tradicionais de determinação do sexo - como a análise da bacia ou do crânio.
Uma equipa de especialistas recorreu então a uma técnica mais recente: a análise de péptidos, pequenas cadeias de aminoácidos preservadas no esmalte dentário. Estes vestígios microscópicos podem revelar se o esmalte se formou num corpo masculino ou feminino.
A análise de péptidos mostrou que a asceta acorrentada era biologicamente do sexo feminino, provavelmente com idade entre os 30 e os 60 anos no momento da morte.
A descoberta, publicada numa revista académica e discutida por investigadores, incluindo Elisabetta Boaretto do Instituto Weizmann de Israel, levantou de imediato questões mais amplas. Textos históricos mencionam ascetas mulheres no mundo bizantino, mas raramente as descrevem em correntes.
A maioria dos relatos escritos concentra-se em “portadores de correntes” masculinos, conhecidos em algumas fontes como anacoretas. Usavam restrições metálicas durante anos, por vezes fixas a paredes ou rochas, como lembrete permanente dos seus votos.
Ascetas mulheres e um nível inesperado de severidade
As evidências de mulheres a adotarem as mesmas práticas extremas são escassas. Quando autores bizantinos escreviam sobre mulheres santas, sobretudo a partir do século IV, descreviam-nas muitas vezes como viúvas de origem nobre ou virgens que renunciavam ao casamento e ao luxo.
Estas mulheres viviam normalmente em mosteiros ou pequenas comunidades, jejuando e rezando, mas nem sempre levando o corpo tão longe quanto os seus pares masculinos. Muitos relatos apresentam o seu percurso como rigoroso, mas ligeiramente menos duro.
A mulher acorrentada de Khirbat el-Masani desafia essa imagem. O seu sepultamento sugere que, pelo menos em alguns círculos, uma mulher podia adotar - ou ser submetida a - a mesma disciplina corporal radical que os homens.
As correntes funcionavam como uma teologia física: cada movimento doía, e essa dor era enquadrada como devoção.
Os historiadores acreditam que as correntes simbolizavam autocontrolo, submissão a Deus e rejeição dos prazeres mundanos. Para uma mulher, isto poderia também expressar uma rutura com expectativas de fertilidade, vida familiar e visibilidade social.
Correntes, punição e piedade: onde está a linha?
O caso esbate de forma desconfortável a fronteira entre devoção voluntária e punição religiosa. Num olhar moderno, manter alguém acorrentado durante anos levanta questões sobre consentimento e coerção.
Na Antiguidade tardia, porém, o sofrimento físico ocupava frequentemente o centro da prática religiosa. Jejuar até à fraqueza, permanecer de pé ou ajoelhado durante horas, ou viver em isolamento eram vistos como caminhos para a santidade.
- As regras monásticas elogiavam a renúncia a comida, sono e conforto.
- Alguns ascetas viviam em celas minúsculas ou no topo de pilares, à vista do público.
- Correntes e pesos acrescentavam dor constante a estilos de vida já extremos.
- As comunidades, por vezes, reverenciavam essas figuras como santos vivos.
Para os arqueólogos, a questão central é se esta mulher escolheu as correntes por iniciativa própria ou se a comunidade as impôs como forma de disciplina. Os ossos podem revelar lesões e idade, mas não motivos nem convicções íntimas.
O que o túmulo nos diz - e o que não nos diz
O enterro em Khirbat el-Masani oferece um raro vislumbre do estatuto final desta mulher, mas muito sobre a sua vida permanece oculto.
| Aspeto | O que os investigadores sabem | O que permanece incerto |
|---|---|---|
| Sexo | Feminino, identificado através de péptidos no esmalte dentário | Papel de género e identidade social dentro do mosteiro |
| Idade | Estimada entre 30 e 60 anos à data da morte | Idade exata, historial de saúde e causa de morte |
| Estatuto | Sepultada numa cripta monástica, tratada como figura religiosa | Se era de origem nobre, escravizada ou de família modesta |
| Correntes | Correntes pesadas de ferro colocadas sobre ou em torno do corpo | Prática ascética voluntária ou punição religiosa imposta |
Não foram relatados no túmulo objetos pessoais como joias, tabuletas de escrita ou fragmentos de vestuário. Essa ausência é compatível com um estilo de vida ascético centrado na renúncia, mas também dificulta a ligação a grupos específicos ou a santos conhecidos.
Jerusalém bizantina e o apelo do sofrimento
Durante a era bizantina, aproximadamente do século IV ao VII, Jerusalém tornou-se um íman para peregrinos cristãos. Mosteiros multiplicaram-se em torno da cidade, servindo tanto como retiros espirituais como palcos onde a santidade extrema podia ser vista e admirada.
Alguns ascetas viviam nas margens dessas instituições: em encostas montanhosas, grutas ou pequenas estruturas de pedra. Outros permaneciam em comunidades organizadas, mas adotavam votos individuais que iam além das regras monásticas padrão.
A mulher acorrentada pode ter sido uma dessas figuras. O seu túmulo dentro de um complexo monástico sugere que, no momento da morte, era aceite - e talvez venerada - por quem a rodeava.
Porque é que este esqueleto importa muito para além de um único túmulo
Este esqueleto, por si só, obriga os académicos a reconsiderar a forma como leem textos antigos. Quando cronistas se concentravam em santos homens, podem simplesmente ter ignorado mulheres que praticavam formas de piedade igualmente exigentes.
Também evidencia como o viés de género pode moldar a interpretação arqueológica. A avaliação inicial do esqueleto como masculino seguiu uma suposição antiga: correntes equivalem a ascetismo masculino.
À medida que os métodos científicos se tornam mais precisos, suposições antigas sobre papéis de género no passado começam a ruir, osso a osso.
Estudos futuros poderão reexaminar outros sepultamentos anteriormente classificados como masculinos ou deixados indeterminados. A análise de péptidos e os testes de ADN, quando possível, podem transformar a forma como museus rotulam esqueletos e como historiadores escrevem sobre as primeiras comunidades cristãs.
Termos-chave que ajudam a compreender o caso
Vários termos especializados aparecem nas discussões sobre esta descoberta e ajudam a esclarecer o contexto mais amplo:
- Ascetismo: estilo de vida de rigorosa auto-negação, frequentemente incluindo jejum, celibato e privação, seguido com fins de crescimento espiritual.
- Era bizantina: o Império Romano do Oriente, centrado em Constantinopla, que controlou Jerusalém antes das primeiras conquistas islâmicas.
- Péptidos: pequenas cadeias de aminoácidos; em arqueologia, certos péptidos no esmalte dentário podem indicar se um esqueleto é masculino ou feminino.
- Monaquismo: vida religiosa comunitária ou semi-comunitária, organizada em torno de oração, regras e rejeição partilhada do estatuto mundano.
Imaginar a vida quotidiana em correntes
Para perceber o que esta mulher suportou, os investigadores costumam imaginar cenários simples. Andar teria sido lento e doloroso. Dormir preso a ferro provocaria feridas e problemas crónicos nas costas ou nos ombros. O calor do verão e o frio do inverno amplificariam o desconforto.
Nesse contexto, cada ação rotineira transforma-se num ritual de resistência. Comer, permanecer de pé em oração ou receber visitantes carrega o peso do sofrimento físico. Dentro do sistema de crenças da época, esse sofrimento não era visto como crueldade sem sentido; era tratado como moeda de santidade.
Para leitores modernos, o caso coloca uma questão difícil: onde termina a devoção pessoal e onde começa a pressão comunitária? Os ambientes monásticos eram coesos e hierárquicos. Uma mulher que procurasse respeito ou um sentido de vocação poderia sentir-se atraída - ou empurrada - para práticas mais duras do que inicialmente imaginara.
Arqueólogos e historiadores não conseguem resolver essa tensão para este indivíduo em particular. O que conseguem mostrar, através do estudo cuidadoso do esmalte, da ferrugem e do osso, é que, na Jerusalém bizantina, as mulheres por vezes eram envolvidas em punições e disciplinas religiosas que narrativas mais antigas reservavam quase exclusivamente aos homens.
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