Numa noite enevoada em Riade, o ar fica pesado de pó e ambição. Os condutores avançam lentamente pela Estrada Rei Fahd, levantando os olhos para uma linha do horizonte que já parece uma renderização 3D tornada real. As gruas giram, o aço sobe e, algures a norte da cidade, topógrafos vão traçando discretamente os contornos de uma estrutura que supostamente vai quebrar tudo o que pensávamos saber sobre edifícios altos.
Esqueça o Burj Khalifa a brilhar no Dubai. Esqueça a Shanghai Tower a torcer-se nas nuvens. A Arábia Saudita está, discretamente, a preparar-se para um arranha-céus que não se limita a flertar com o céu - planeia atravessá-lo à força.
Ninguém sabe exatamente como será estar a 1.000 metros e olhar para baixo, para o resto do mundo.
O novo gigante que quer ultrapassar o Burj Khalifa
No papel, a ideia parece quase irrazóavel: uma torre de um quilómetro nos arredores de Jidá, retomada e reenergizada no meio da grande transformação da Arábia Saudita. Em tempos, as pessoas riram-se do conceito de um edifício com 1.000 metros, da mesma forma que se riram da ideia de uma cidade no deserto.
E, no entanto, o Reino volta a este sonho como um arquiteto teimoso que se recusa a fechar o caderno de esboços. O projeto, muitas vezes referido como a Torre de Jidá (Jeddah Tower), reapareceu nas conversas de planeamento, com concursos a serem relançados e empresas globais a aproximarem-se em silêncio.
O objetivo simples está longe de ser simples: recuperar o título de edifício mais alto do mundo e transformá-lo em algo mais permanente.
Pergunte aos locais em Jidá e ouvirá o mesmo tom meio cético, meio orgulhoso. Lembram-se de quando as obras iniciais começaram, com o núcleo de betão a subir antes de o local ficar silencioso. Agora, com o dinheiro da Visão 2030 a circular e mega-projetos a surgirem de NEOM ao Mar Vermelho, a máquina de rumores sobre a torre voltou a girar.
Os promotores falam de plataformas de observação a flutuar acima das nuvens, apartamentos de luxo com vistas que acompanham a curvatura da Terra e pisos de escritórios mais altos do que a maioria das montanhas. Os investidores falam de visibilidade, marca e do efeito de choque de ver “1.000 m” num folheto.
Para os rankings globais de skylines, é como uma nova temporada de uma série dramática: personagens frescas, apostas mais altas, a mesma pergunta - quem se atreve a ir mais alto?
Há uma lógica crua por trás desta obsessão vertical. Um arranha-céus recordista não é apenas betão e aço; é um enorme outdoor para o futuro de uma nação. Para a Arábia Saudita, esta agulha de um quilómetro sinalizaria um salto definitivo de uma narrativa do petróleo para uma narrativa da inovação.
Economistas urbanos gostam de lembrar que torres icónicas remodelam o mapa mental de uma cidade. O Dubai antes do Burj Khalifa não é o Dubai que a maioria das pessoas imagina hoje. A Shanghai Tower fez o mesmo por Pudong. Um edifício de 1.000 metros na Arábia Saudita colocaria Jidá - e, por extensão, o Reino - em todas as conversas sobre cidades globais durante décadas.
Esse tipo de poder simbólico é difícil de comprar de outra forma.
Como é que se constrói sequer um arranha-céus de 1.000 metros no deserto?
Para erguer um edifício desta altura, os engenheiros começam por ir na direção oposta: para baixo. Fundações para uma torre de um quilómetro significam florestas de estacas profundas, misturas experimentais de betão e estudos de solo que parecem mais exames médicos do que documentos de obra.
O vento é o inimigo seguinte. Aos 1.000 metros, as rajadas podem torcer um edifício como uma régua de plástico. Por isso, os designers esculpem a forma da torre para confundir o vento, quebrando vórtices, deslocando arestas e escondendo apoios estruturais dentro de uma espécie de exoesqueleto vertical.
O problema dos elevadores talvez seja o mais surreal: não é apenas “subir”; é fazer transbordos, saltar, deslizar por zonas como se estivesse a mudar de linha num metro no céu.
Todos já vivemos aquele momento em que entramos num elevador de alta velocidade e sentimos os ouvidos a estalar a meio do percurso. Agora imagine empilhar essa sensação três vezes. Essa é a realidade quotidiana que os planeadores estão a desenhar para futuros residentes e trabalhadores de uma torre de um quilómetro.
Os promotores estão a testar elevadores de vários níveis, átrios elevados (sky lobbies) e fluxos geridos por IA para evitar estrangulamentos. Os sistemas de arrefecimento têm de lidar com o calor brutal do deserto junto ao chão e com o ar mais rarefeito e fresco no topo. As equipas de manutenção vão precisar, literalmente, de estratégias para limpar vidro onde se formam nuvens.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem que uma parte de si pense: “E se faltar a eletricidade?”
Apesar de todo o glamour, este tipo de projeto é um campo minado de erros clássicos. Apressar os estudos iniciais do solo pode condenar uma torre antes de ela subir. Subestimar tempestades de areia, o ar salgado do Mar Vermelho ou o impacto psicológico da altura nos residentes pode transformar uma montra global numa dor de cabeça silenciosa.
Os críticos também se preocupam com o que acontece ao nível do chão. A zona vai tornar-se um bairro vivo ou apenas uma auréola de torres de luxo, centros comerciais e engarrafamentos? A altura recorde vai ofuscar as questões da acessibilidade económica, mobilidade e vida quotidiana?
Como me disse, ao café, um planeador baseado em Riade - um pouco exausto, um pouco divertido:
“Toda a gente quer a fotografia para o Instagram a partir do topo. O meu trabalho é continuar a perguntar: o que acontece cá em baixo?”
- A altura extrema traz custos extremos que nem sempre se pagam rapidamente.
- As torres icónicas funcionam melhor quando ligadas a transportes, habitação e espaços públicos.
- O valor de marca é real, mas só se as pessoas usarem de facto o lugar, e não apenas o fotografarem.
O que esta mega-torre saudita realmente diz sobre o futuro das cidades
Quando se dá um passo atrás em relação ao drama arquitetónico, a aposta saudita numa torre de 1.000 metros parece um teste: até onde conseguem as cidades esticar-se para cima antes de começarem a parecer menos humanas? O Dubai respondeu a uma versão dessa pergunta com o Burj Khalifa. Xangai respondeu a outra com a sua torre sinuosa envolvida em torno de um átrio central.
A Arábia Saudita parece estar a escrever o seu próprio guião, ligando a altura a uma reconfiguração mais ampla da imagem do país. Isto não é apenas sobre Jidá; é sobre NEOM, a Line, portos flutuantes, resorts de montanha e uma narrativa em que o deserto se torna um laboratório para uma vida futurista.
Para os viajantes, o valor é óbvio: um novo miradouro obrigatório no planeta, um novo ponto na lista de “os mais altos do mundo”. Para os residentes, é mais ambíguo. Uns veem orgulho, empregos e um novo íman cultural. Outros receiam desigualdade, subida de preços e o risco de construir símbolos verticais sem progresso social equivalente.
Edifícios altos não criam automaticamente cidades vibrantes. Amplificam o que já está a acontecer cá em baixo. Se o espaço público funcionar, uma torre de um quilómetro torna-se um farol. Se não funcionar, a torre torna-se um ponto de interrogação muito alto.
Urbanistas admitem discretamente que a corrida à altura não vai parar nos 1.000 metros. Assim que a barreira técnica for novamente quebrada, alguém, algures, vai desenhar 1.200 ou 1.500. A verdadeira pergunta não é “Quão alto?”, mas “Porquê?” e “Para quem?”
À medida que a Arábia Saudita se aproxima de reiniciar a sua escalada para as nuvens, o resto do mundo estará a observar. Alguns vão aplaudir, outros revirarão os olhos, e a maioria clicará nas fotografias daquele primeiro pôr do sol visto do topo.
Aquilo em que esta torre finalmente se tornar - uma peça viva de cidade ou apenas um recorde numa base de dados - dirá muito sobre para onde caminham, a seguir, os nossos horizontes urbanos e as nossas prioridades.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A ambição saudita dos 1.000 m | Planos para reativar e avançar com uma torre de um quilómetro em Jidá como parte da Visão 2030 | Ajuda a perceber por que razão este projeto importa para lá de um simples recorde de altura |
| Desafios de engenharia e vida diária | Fundações, vento, elevadores, calor e a experiência humana a alturas extremas | Dá contexto concreto às manchetes e às renderizações virais |
| Impacto nas cidades do futuro | Poder simbólico, risco económico e a questão de quem realmente beneficia | Convida os leitores a pensar criticamente sobre mega-projetos e futuros urbanos |
FAQ:
- Esta torre saudita será mesmo mais alta do que o Burj Khalifa? Sim, o projeto está desenhado para ultrapassar a marca simbólica de 1.000 metros, o que a colocaria significativamente acima dos 828 metros do Burj Khalifa, se for concluída como previsto.
- A Torre de Jidá está oficialmente em construção neste momento? O trabalho no núcleo começou há anos e depois foi interrompido. Os movimentos mais recentes envolvem relançar concursos e estudos de design, pelo que o projeto está numa fase de relançamento e reconfiguração, e não de construção a todo o vapor.
- Porque construir um arranha-céus tão alto em primeiro lugar? Para além do desafio de engenharia, a torre funciona como símbolo global da Visão 2030, atraindo investidores, turistas e atenção mediática, ao mesmo tempo que sinaliza uma mudança para uma economia diversificada e orientada para a inovação.
- Visitantes comuns poderão ir ao topo? Os conceitos atuais incluem plataformas de observação públicas, restaurantes nas alturas e possivelmente hotéis, pelo que se espera que turistas e residentes tenham acesso a pelo menos alguns dos níveis mais elevados.
- Poderão surgir torres ainda mais altas depois desta? Tecnicamente, sim. Assim que uma torre de 1.000 metros provar ser viável, outras cidades ou países poderão tentar estruturas ainda mais altas, embora o verdadeiro limite seja o custo, a procura e a vontade política - mais do que os limites puros da engenharia.
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