O primeiro dia de manhã, ele acordou duas horas mais cedo, com a gravata pousada na cadeira e a mala do portátil pronta junto à porta. Tinha acabado de conseguir aquilo que achava ser a sua oportunidade: um emprego confortável numa empresa de média dimensão, salário estável, recrutador promissor, chamada de onboarding marcada para as 9h. Fez café, abriu a caixa de entrada, atualizou. Nada. Atualizou outra vez. Continuava nada. Sem link de Zoom, sem pacote de boas-vindas, sem mensagem dos RH. Apenas silêncio e um calendário tão vazio como uma tarde de domingo.
Achou que era uma falha. Primeiro dia - talvez estivessem sobrecarregados. No segundo dia, enviou um e-mail educado. No terceiro, ligou para o número do recrutador e ouviu: “Este número já não está em serviço.” Foi aí que começou a parte estranha. No fim do mês, o salário caiu na conta. Depois no mês seguinte. E no seguinte. Sete meses passaram assim. Salário completo. Zero trabalho. Um emprego que existia apenas no papel.
Quando o teu emprego existe, mas o teu trabalho não
O homem no centro desta história - chamemos-lhe Alex - foi contratado como analista de nível intermédio para uma grande empresa ligada ao setor tecnológico. Contrato padrão. Tempo inteiro. Escritório numa zona empresarial por onde provavelmente já passaste. Mas, poucos dias depois de os RH tratarem da papelada, o recrutador que tinha defendido a sua contratação demitiu-se. Ninguém transferiu o processo do Alex. O futuro gestor nem sequer tinha sido devidamente informado. Assim, o nome dele existia no sistema, mas não na cabeça de ninguém.
O Alex ligava-se todas as manhãs às 9h, mais por hábito do que por necessidade. Consultava a intranet da empresa, à qual tinha acesso, e percorria organogramas à procura de onde se encaixava. Via equipas, projetos, departamentos. Nenhum listava a sua função. Contactava endereços genéricos de RH, preenchia formulários de tickets sem rosto, recebia respostas automáticas e promessas de “voltaremos a contactar”. Entretanto, a conta bancária recebia um salário certinho e pontual. Sete vezes seguidas.
Ao início, a situação pareceu um golpe de sorte bizarro. Depois começou a parecer uma falha na própria vida. Tecnicamente estava empregado, tecnicamente estava a ser pago, mas ninguém esperava nada dele. Sem prazos. Sem tarefas. Sem feedback. Sem colegas a adicioná-lo a chats. Começou a perceber que, para aquela empresa, era mais uma linha num ficheiro do que uma pessoa. E, a cada mês que passava, crescia a ansiedade: o que acontece quando alguém finalmente reparar?
O que este tipo de “emprego fantasma” diz realmente sobre as empresas
Histórias como a do Alex soam a lendas urbanas contadas à mesa de um bar, mas aparecem uma e outra vez em threads do Reddit, confissões no TikTok e sussurros de pausa para café. Por trás do absurdo, revelam algo muito concreto: uma enorme fratura entre recrutamento e integração real. Quando um recrutador sai, os seus candidatos podem simplesmente cair no vazio. O contrato está assinado, a folha salarial está configurada, mas a parte humana - as boas-vindas, a explicação, o trabalho do dia a dia - evapora-se.
Há também o caos da tecnologia moderna de RH. Grandes empresas equilibram ATS (sistemas de acompanhamento de candidaturas), ferramentas de HRIS, software de payroll, plataformas de onboarding. Cada sistema “fala” com outro, mas não tão bem como o pitch comercial prometia. Um recrutador clica em “contratado” numa ferramenta, o payroll entra automaticamente, enquanto o gestor não atualiza o organograma nem abre um ticket de integração. O resultado é um limbo corporativo estranho: colaboradores totalmente pagos que ninguém “detém” do ponto de vista operacional.
Num nível mais profundo, estes casos expõem o quão desumanizados alguns locais de trabalho se tornaram. A empresa vê o Alex como um centro de custo, não como uma pessoa que está silenciosamente a afundar do outro lado do ecrã. Ele sente culpa por receber sem trabalhar, medo de ser culpabilizado, vergonha só de imaginar ter de explicar mais tarde este vazio. Sejamos honestos: ninguém vive isto todos os dias, mas a maioria de nós já passou, em algum momento, por estar sentado numa secretária a sentir-se completamente inútil e estranhamente invisível.
O que fazer quando estás a ser pago mas não estás, de facto, a trabalhar
Se alguma vez te vires na situação do Alex, a primeira coisa é simples: documenta tudo. Guarda cópias do contrato, da carta de oferta, dos recibos de vencimento, dos e-mails em que pedes tarefas ou orientação. Regista datas e horas de chamadas, mesmo que ninguém atenda. Parece aborrecido, mas este pequeno arquivo pessoal torna-se a tua proteção se, mais tarde, a empresa questionar o que fizeste durante aqueles meses. Mostra que tentaste contactar. Que não desapareceste.
A seguir, escala de forma inteligente, não desesperada. Começa por RH e pelo teu suposto gestor; depois sobe um nível, se necessário. Usa mensagens curtas e concretas: quem és, qual é a tua função, quando começaste e o facto de não teres recebido quaisquer atribuições. Diz que estás totalmente disponível e disposto a contribuir. Evita soar acusatório. O objetivo é provocar uma resposta de alguém com autoridade para corrigir a falha. Não estás a implorar por trabalho - estás a pedir clareza.
Muitas pessoas nesta situação sentem uma mistura de culpa e alívio constrangido. Estás a receber dinheiro. Não estás realmente a trabalhar. Pode parecer batota, mesmo quando o erro é da empresa. Isso é normal. Muitos colaboradores simplesmente se calariam e esperariam que ninguém reparasse. Mas não fazer nada durante meses não ajuda o teu “eu” do futuro. Lacunas - mesmo pagas - são difíceis de explicar mais tarde. Um colaborador que viveu isto disse-me:
“Passei sete meses a atualizar a caixa de entrada, meio a torcer para que se esquecessem de mim para sempre e meio aterrorizado por acharem que eu é que me tinha esquecido deles. Quando a diretora de RH finalmente ligou, a primeira coisa que disse foi: ‘Não acredito que isto tenha passado despercebido.’ Eu acreditava.”
Para atravessar este limbo sem perderes a cabeça, ajuda manter alguns pontos de referência bem claros:
- Não foste tu que criaste o erro administrativo.
- Tens o direito de pedir estrutura e trabalho.
- O silêncio de uma empresa não é um julgamento do teu valor.
- Usar esse tempo “vazio” para aprender ou melhorar competências não é roubar.
- Ser honesto mais tarde é quase sempre melhor do que inventar uma história.
O que isto diz sobre nós - e o que fazemos com isso
Casos como o do Alex estão na fronteira entre a comédia absurda e a tragédia silenciosa. De um lado, há quase uma imagem cinematográfica: alguém a ser pago durante sete meses enquanto espera pela sua primeira tarefa. Do outro, há o desgaste emocional de acordar todos os dias sem propósito, sem colegas, sem estrutura. O trabalho não é só um salário. É também um lugar onde nos testamos, nos irritamos, crescemos, nos sentimos úteis e, ocasionalmente, vistos. Quando tudo isso falta, o salário sozinho começa a saber a vazio.
Estas histórias obrigam-nos a olhar para a fragilidade da nossa identidade profissional. Falha uma passagem de pasta, um recrutador sai, uma caixa fica por marcar num sistema - e um ser humano acaba a derivar nas margens de uma empresa que nem se apercebe de que ele existe. Construímos organizações que funcionam à base de processos, mas esquecem a pessoa por trás de cada ID de perfil. É assim que alguém pode ser contratado, pago e, ainda assim, sentir-se um fantasma.
Talvez leias isto e penses: “Sortudo, sete meses a receber sem fazer nada.” Ou talvez te lembres daquela semana - ou daquele trimestre - em que estavas tecnicamente empregado, mas emocionalmente ausente, a percorrer e-mails que mal precisavam de ti. Ambas as reações dizem algo honesto sobre o trabalho hoje. A linha entre presença e ausência é mais fina do que admitimos. Por detrás de cada falha absurda na folha salarial, há uma pergunta mais silenciosa: o que é que realmente devemos uns aos outros quando dizemos “Bem-vindo à equipa”?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| - | Documentar cada interação e cada tentativa de obter trabalho | Protege-te se a empresa mais tarde contestar a tua inatividade |
| - | Escalar com calma através de RH e da gestão | Aumenta as hipóteses de resolver sem queimar pontes |
| - | Usar o tempo “vazio” de forma intencional | Transforma uma situação absurda num período de aprendizagem ou reflexão |
Perguntas frequentes (FAQ)
- Pergunta 1: É legal ser pago durante meses sem fazer qualquer trabalho?
Resposta 1: Na maioria dos casos, sim. Se tens um contrato válido e estás disponível para trabalhar, o risco legal tende a recair mais sobre a empresa do que sobre ti.- Pergunta 2: Devo avisar a empresa se ninguém me atribui tarefas?
Resposta 2: Sim. Envia mensagens claras por escrito a mostrar que estás disponível e a pedir atribuições, para ficares salvaguardado mais tarde.- Pergunta 3: Posso ser despedido por não estar a trabalhar se nunca me contactaram?
Resposta 3: Podem tentar, mas as tuas tentativas documentadas de obter trabalho reforçam muito a tua posição se a situação escalar.- Pergunta 4: Como explico este período a futuros empregadores?
Resposta 4: Sê breve e honesto: diz que foste contratado para uma função que nunca foi devidamente ativada e que saíste quando ficou claro que não se iria concretizar.- Pergunta 5: Posso usar esse tempo para estudar ou fazer trabalhos freelance?
Resposta 5: Desde que o teu contrato o permita e que te mantenhas disponível durante o horário esperado, muitas pessoas investem discretamente esse tempo em aprendizagem ou projetos paralelos.
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