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Comunidade rural luta contra projeto de parque eólico que transforma a paisagem com enormes turbinas.

Pessoa observa paisagem rural com moinhos de vento ao fundo, desenhando um mapa. Outras pessoas apreciam a vista.

A primeira coisa que se nota não é o ruído. É a forma como o céu mudou.
Numa colina que antes era uma linha limpa de sebes e carvalhos, lâminas brancas recortam agora o horizonte, girando devagar, quase preguiçosamente, por cima de campos de cevada e de vacas a pastar.

Numa noite de terça-feira, no salão da aldeia, cadeiras dobráveis raspam no chão enquanto agricultores, professores e lojistas se apertam sob luzes néon zumbidoras. À frente, uma maquete impressa mostra o vale pontilhado de turbinas tão altas como arranha-céus. Uns inclinam-se para a frente, curiosos. Outros cruzam os braços, com rostos duros como pedra.

Lá fora, no escuro, através das janelas embaciadas, as luzes vermelhas piscam no topo das primeiras torres concluídas.

Parecem algo de outro planeta.

Quando o horizonte do vale de repente fica mais alto do que a igreja

Em manhãs limpas, as turbinas aparecem muito antes de se chegar ao letreiro da aldeia.
A estrada desce e sobe entre sebes, e então surgem três, cinco, dez torres esguias, com as pás a girar acima da névoa como metrónomos enormes.

Durante décadas, a estrutura mais alta num raio de quilómetros foi a torre da igreja, uma âncora silenciosa em todas as direções. Agora, essa torre parece quase tímida ao lado dos novos gigantes. Alguns habitantes dizem que as máquinas trazem uma beleza estranha, uma sensação de entrada no futuro. Outros descrevem-no de forma mais direta: “como viver debaixo de uma fila de batedores gigantes.”

A paisagem não se moveu um centímetro.
Ainda assim, as pessoas sentem como se o chão debaixo delas tivesse mudado.

Mais abaixo, a partir da subestação, Tom e Sarah gerem uma exploração mista com 120 anos.
Nunca planearam ser ativistas. Os seus dias costumavam ter o ritmo da ordenha, das idas buscar ração e da luta contra as ervas daninhas no campo de batatas.

Depois, surgiu o primeiro aviso de licenciamento, colado na paragem de autocarro: um pedido para 18 turbinas, cada uma com mais de 200 metros de altura. O período de consulta? Quase invisível em letra pequena. Tom guardou o papel no bolso durante uma semana antes de o mencionar no pub. Em menos de um mês, um grupo de WhatsApp transformou-se numa campanha a sério, com leituras de mapas pela noite dentro e cursos intensivos sobre legislação de ordenamento.

O celeiro deles tem agora feno, vitelos e uma pilha de faixas de protesto.
A quinta tornou-se o quartel-general não oficial da resistência.

O que está a acontecer neste vale não é um guião simples de “a favor ou contra a energia eólica”.
É uma colisão entre a urgência climática, a velocidade corporativa e a memória local.

No papel, o parque eólico promete eletricidade de baixo carbono para dezenas de milhares de casas. O promotor fala de empregos verdes, fundos comunitários e um futuro de energia limpa. Para governos nacionais a correr para cumprir metas de emissões, projetos como este são irresistíveis.

Para as pessoas que acordam sob as pás, a conta parece diferente. Põem na balança a poupança de carbono contra o efeito de sombra intermitente na cozinha, o valor das casas contra noites sem dormir devido a zumbidos de baixa frequência, os objetivos globais contra a sensação silenciosa de que um mundo familiar está a escapar sem o seu consentimento.

Isto não é apenas um projeto energético.
É uma luta sobre quem tem o direito de redesenhar o mapa de “casa”.

Como uma pequena aldeia aprende a combater um plano energético de mil milhões

O primeiro verdadeiro ponto de viragem não acontece num protesto, mas à mesa da cozinha.
Quatro vizinhos espalham documentos de licenciamento entre canecas de chá e bolachas meio comidas, tentando decifrar relatórios de tráfego, modelos de ruído e estudos de aves escritos num jargão denso e cuidadosamente técnico.

Uma deles, funcionária pública reformada, começa a circular frases com caneta vermelha. “Dizem que o impacto visual é ‘moderado’ a partir desta estrada”, diz ela, baixinho. “É a estrada para a escola primária.” Outra pessoa pega num marcador fluorescente e começa a assinalar prazos: datas para apresentar objeções, períodos de recurso, consultas que parecem insultuosamente curtas.

Dessa noite confusa sai um método simples:
dividir a pilha, aprender a sua parte, voltar e explicá-la em linguagem clara.

É um trabalho lento, nada glamoroso.
Mas é aqui que a resistência aprende a andar.

A aldeia descobre que opor-se a um parque eólico não é só agitar faixas num sábado ventoso. É folhas de cálculo, petições e conversas desconfortáveis com vizinhos que não concordam.

Numa semana, o grupo foca-se no ruído, recolhendo testemunhos de outras localidades que vivem ao lado de turbinas. Na seguinte, fotografam a vida selvagem local, registando rotas de morcegos e ninhos de águias-d’asa-redonda, tentando mostrar aos planeadores que isto não é uma “zona” vazia, mas um lugar vivo. Angariam dinheiro com vendas de bolos e uma noite de quiz para pagar a um consultor independente, porque já não confiam em folhetos brilhantes com pontos de vista cuidadosamente escolhidos.

As pessoas zangam-se.
Velhos amigos deixam de se falar durante algum tempo.

Sejamos honestos: ninguém lê 600 páginas de estudos de impacte ambiental por diversão.
E, no entanto, lentamente, esta aldeola com menos de mil pessoas começa a falar a mesma linguagem densa e técnica que a empresa que tenta transformar a sua vista.

A parte mais difícil para muitos residentes é a dúvida que se infiltra tarde da noite.
Seremos apenas NIMBYs? Estaremos a travar a transição climática de que os nossos filhos tanto precisam?

“Não somos contra o vento”, diz Maria, uma professora local que agora passa as noites a redigir cartas para os vereadores. “Somos contra sermos tratados como um campo vazio num mapa. Nós vivemos aqui. Nós enterramos os nossos mortos aqui. Isso tem de contar para alguma coisa.”

O grupo começa a partilhar uma espécie de guia informal, uma lista em caixa que circula de casa em casa:

  • Pedir simulações visuais a partir de pontos de vista reais: portões da escola, janelas da cozinha, adro da igreja.
  • Solicitar avaliações independentes de ruído e vida selvagem, não apenas as encomendadas pela empresa.
  • Organizar reuniões públicas calmas onde todos os lados possam falar sem gritar.
  • Documentar a vida quotidiana: fotografias, vídeos curtos, notas que mostrem como a paisagem é realmente utilizada.
  • Considerar alternativas: projetos mais pequenos, outras localizações, modelos detidos pela comunidade.

O tom mantém-se teimosamente prático, quase suave.
Por baixo corre uma convicção feroz e partilhada: as vozes locais não são “obstáculos”, mas parte da solução climática.

Entre pás a girar e raízes teimosas

As semanas tornam-se meses, e o vale vai-se habituando lentamente a viver em suspense.
Em algumas manhãs, as turbinas parecem quase benignas, com as pás a girar preguiçosamente contra uma aurora cor de pêssego. Noutros dias, nuvens pesadas ficam baixas e as máquinas avultam escuras e industriais, como gruas que se perderam a caminho de um estaleiro.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um lugar que amamos de repente parece ligeiramente estranho, como se alguém tivesse mudado os móveis na nossa própria casa. Para esta comunidade, essa sensação não desaparece. Aprofunda-se a cada nova base de betão que é vertida, a cada camião que troveja por ruas nunca pensadas para tal peso.

A transição energética, vista de um gabinete do governo, parece gráficos coloridos e arrumados.
Vista da janela de uma quinta, parece três luzes vermelhas a piscar através das cortinas do seu quarto às 3 da manhã.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O conhecimento local importa Os residentes veem rotas de vida selvagem, padrões do solo e usos diários que os mapas não captam Ajuda-o a defender uma localização mais inteligente, não apenas uma oposição total
O processo é poder Aprender prazos, direitos e jargão devolve controlo à comunidade Dá-lhe ferramentas para participar, influenciar ou reformular um projeto
A nuance vence os slogans Ser “a favor das renováveis, contra este desenho” abre mais portas do que dizer não a tudo Torna a sua voz mais difícil de descartar como egoísta ou desinformada

FAQ:

  • Pergunta 1 As comunidades rurais estão sempre contra parques eólicos?
  • Pergunta 2 Os protestos locais conseguem mesmo travar ou alterar um projeto?
  • Pergunta 3 Quais são as preocupações mais comuns com turbinas de grande dimensão?
  • Pergunta 4 Há forma de apoiar energia limpa sem perder a paisagem?
  • Pergunta 5 O que deve uma aldeia fazer quando aparece o primeiro aviso de licenciamento?

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