A pergunta escapou-se por cima dos pratos de sobremesa, algures entre o último gole de vinho e o primeiro olhar para a conta. “Então… quando é que vocês os dois vão ter filhos?” A mesa ficou em silêncio por meio segundo, como acontece sempre quando cai uma granada e ninguém quer reconhecer o som. A minha amiga sorriu e deu a resposta que anda a ensaiar há anos: “Não vamos. Não queremos filhos.”
O garfo da tia ficou suspenso a meio do ar. “Isso é um bocado egoísta, não é?”
Ninguém levantou a voz. Ninguém se foi embora. O empregado chegou com o terminal de pagamento, toda a gente riu demasiado alto, e a conversa voltou a deslizar para o trabalho, as férias, receitas do TikTok.
E, no entanto, por baixo do tilintar dos talheres, uma pergunta simples e desconfortável continuou a pairar por cima da mesa.
Quem é que está mesmo a ser egoísta aqui?
Porque é que “não quero filhos” toca num nervo tão sensível
Passe algum tempo no fim dos vinte ou nos trinta e verá isto a repetir-se como um vídeo em loop. Anúncio de noivado. Fotografias do casamento. Primeiro bebé. Depois um segundo “por acaso”. No meio desta passadeira rolante, a pessoa que diz “eu não vou fazer isso” parece alguém a subir uma escada rolante no sentido errado.
As pessoas olham. Nem sempre com maldade, mas com aquela mistura de curiosidade e julgamento silencioso que faz o pescoço aquecer.
O guião diz que, se pode ter filhos, então deve tê-los. Recusar esse papel soa a rejeitar uma personagem que a humanidade ensaia há milhares de anos.
Por isso, a pessoa sem filhos por opção é frequentemente colocada no papel de vilã. Ou, pelo menos, de personagem secundária egoísta.
Pergunte a alguém porque não quer filhos e as respostas raramente são frívolas. Falam de saúde mental frágil, habitação instável, dívidas de estudo que pairam como nevoeiro. Uma mulher disse-me que, como está, já não dorme uma noite inteira por causa da ansiedade. “Se eu tivesse um bebé, desmoronava”, disse ela, mexendo o café já frio.
Há dados que sustentam esta intuição. As taxas de natalidade estão a cair em muitos países enquanto o custo de vida sobe. Millennials e a Geração Z apontam repetidamente a insegurança financeira e as preocupações climáticas como grandes motivos para adiar ou recusar a parentalidade.
Isto não tem a ver com comprar tostas de abacate em vez de um carrinho de bebé. Tem a ver com perguntar que tipo de mundo uma criança iria herdar.
Quando as pessoas colam a essa hesitação o rótulo de egoísmo, comprimem uma mistura complexa de medo, ética e simples sobrevivência num único insulto afiado.
A acusação de egoísmo costuma esconder uma dor mais silenciosa. Pais que sacrificaram carreiras ouvem “não quero filhos” como um julgamento das suas escolhas. Avós em espera sentem as suas futuras histórias e almoços de domingo a dissolverem-se. Amigos com dificuldades de fertilidade podem sentir essa recusa como sal numa ferida.
Assim, a pessoa sem filhos por opção torna-se um espelho conveniente. O seu “não” reflete o “sim” de toda a gente, e nem todos gostam do que veem.
Os seres humanos são especialistas em traduzir desconforto em linguagem moral. “Isto desafia-me” transforma-se depressa em “isto está errado”. Mas optar por não ser pai ou mãe não é um ataque a quem opta por ser.
Às vezes, é apenas uma frase honesta dita em voz alta numa sala que ainda não está pronta para a ouvir.
É egoísta… ou é responsável?
Há um lado mais silencioso, menos glamoroso, da escolha de não ter filhos que não faz tendência nas redes sociais. São as noites de folhas de cálculo, as sessões de terapia, as conversas longas em que um parceiro diz: “Não acho que consiga ser o pai/mãe que uma criança merece.” Escolher não ter filhos pode ser um ato brutal de autoconhecimento.
Um homem que entrevistei contou-me que cresceu com um pai que nunca quis filhos e fazia questão de o mostrar. “Prefiro quebrar o ciclo”, disse. Não por ter um filho e tentar “fazer melhor”, mas por não colocar uma nova pessoa nessa roleta emocional.
Isto não é frieza. É uma recusa radical de apostar com a única vida de outra pessoa.
Há também o argumento ambiental, por vezes gozado como “culpa ecológica performativa”, mas raramente vindo de um lugar superficial. Algumas pessoas olham para incêndios, cheias e relatórios climáticos assustadores e simplesmente não conseguem imaginar empurrar um carrinho de bebé para esse futuro.
Uma enfermeira de 32 anos explicou assim: “Vejo crianças com oxigénio todos os dias. Não consigo deixar de ver isso e depois decidir: ‘Bora acrescentar mais uma ao caos.’” A escolha dela não tem a ver com financiar mais férias ou comprar um carro melhor. Aliás, ela trabalha fins de semana e feriados a cuidar dos filhos dos outros.
Quando alguém cujo trabalho inteiro é cuidar ainda assim escolhe não ter filhos, o rótulo de egoísmo começa a soar bastante preguiçoso.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias-acorda, estuda o mundo, interroga os próprios motivos e depois molda as escolhas de vida em conformidade. Muitos de nós limitamo-nos a seguir o padrão.
A verdade simples é que o egoísmo não tem a ver com ter filhos ou não ter filhos. Tem a ver com a forma como se vive no mundo, independentemente de quem lhe chama “mãe” ou “pai”. Há pessoas profundamente generosas sem filhos por opção que financiam bolsas, orientam adolescentes, ou cuidam de pais idosos. E há pais negligentes cujos filhos crescem com fome de afeto emocional.
Os filhos não transformam automaticamente alguém num santo. Noites sem dormir e marmitas são sacrifícios, sim, mas não apagam narcisismo nem sentido de direito.
Por outro lado, querer tempo, silêncio ou liberdade criativa não significa automaticamente que alguém seja superficial. Significa que essa pessoa sabe o que, para si, torna a vida digna de ser vivida.
Por vezes, a honestidade de não querer filhos é menos egoísta do que tê-los “porque é o que se faz” e esperar que o amor apareça magicamente depois.
Como navegar conversas quando não quer ter filhos
Se não quer ter filhos, aprende depressa que o silêncio raramente é uma opção. As pessoas perguntam. A família insiste. Colegas fazem piadas. Uma ferramenta simples que ajuda é criar um guião curto e calmo que lhe soe verdadeiro. Algo como: “Decidimos não ter filhos. Estamos muito felizes com essa escolha.”
Seja breve. Não se apresse a preencher o silêncio com desculpas ou uma TED Talk sobre a sua filosofia de vida. Quanto mais firme e quotidiano for o tom, mais clara é a mensagem: isto é uma escolha, não uma confissão.
Também pode redirecionar com delicadeza: “Estamos focados noutros projetos agora. E o vosso pequeno, como está a correr a escola?”
Não está a mentir. Está a proteger limites.
O impulso de explicar demais é forte, sobretudo quando sente julgamento. Quer que entendam o trauma, as razões médicas, os extratos bancários, o medo do clima. No entanto, despejar a alma raramente converte críticos. Só o deixa esgotado.
Uma regra interna útil é: quem merece a história completa? Talvez amigos próximos, talvez o seu terapeuta, talvez o seu diário. Não o colega da contabilidade durante o bolo na sala de convívio.
Se alguém pressionar-“vais mudar de ideias” ou “vais arrepender-te”-pode devolver-lhes calmamente o medo: “É algo em que pensei muito. Estou confortável com a minha decisão.”
Não deve a ninguém uma apresentação em PowerPoint sobre o seu útero ou o seu plano financeiro a longo prazo.
Às vezes, o que mais magoa não é a pergunta, mas o tom à volta dela. As pequenas alfinetadas. As piadas sobre “todo esse tempo livre”. Ou o olhar de pena, como se a sua vida fosse uma sala de espera e a verdadeira ainda não tivesse começado.
É aqui que ajuda um filtro emocional simples:
“Não és egoísta por escolheres a vida que te assenta. És responsável por viveres uma vida que consegues defender, não uma que ganha mais aprovação.”
Quando as coisas pesam, pode ajudar lembrar-se do que a sua vida sem filhos, de facto, lhe dá espaço para. Não como uma lista defensiva de conquistas, mas como um lembrete silencioso de que os seus dias estão cheios, não vazios.
- Foco profundo num ofício, carreira ou forma de arte que o/a ilumina
- Espaço emocional para apoiar amigos, irmãos e comunidade
- Flexibilidade para cuidar de pais idosos ou familiares vulneráveis
- Tempo e recursos para ativismo, voluntariado ou mentoria
- Espaço para descanso, terapia e cura da sua própria história
Repensar o que é uma “boa vida”
Quanto mais se ouve, mais claro se torna: não existe um único caminho honesto pela vida adulta. Existem muitos. Para uns, a alegria parece-se com levar e trazer da escola, Lego no chão e bracinhos ao pescoço antes de dormir. Para outros, parece-se com embarcar num avião com uma única mala de cabine, ou fechar a porta de um estúdio silencioso cheio de telas a meio e plantas por regar.
Todos já passámos por aquele momento em que a felicidade de outra pessoa não se parece com aquilo que nos ensinaram a querer. Pode parecer ameaçador, como se as nossas escolhas tivessem subitamente de ir a exame. Mas talvez a verdadeira mudança seja esta: permitir que diferentes versões de “boa vida” coexistam sem que uma anule a outra.
O rótulo de “sem filhos por opção” não é um veredicto sobre a parentalidade. É apenas uma forma honesta de dizer: isto é quem eu sou, esta é a vida que consigo viver por inteiro.
Talvez a melhor pergunta não seja “as pessoas sem filhos por opção são egoístas?”, mas “o que aconteceria se confiássemos nos adultos para conhecerem os seus limites, a sua capacidade de amar, a sua própria visão de sentido?”
É aí que a conversa fica interessante. E mais confusa. E muito mais humana.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| Sem filhos por opção ≠ egoísmo por defeito | As motivações incluem frequentemente saúde mental, finanças, ética e história familiar | Ajuda a parar de culpar a si próprio/a ou aos outros por escolhas ponderadas |
| A honestidade pode ser um ato de cuidado | Não ter filhos pode evitar repetir padrões nocivos ou exceder a própria capacidade | Convida a ver limites como responsabilidade, não frieza |
| Guiões e limites importam | Respostas curtas e calmas e limites claros reduzem conflito nas conversas | Dá ferramentas práticas para lidar com perguntas intrusivas e julgamentos |
FAQ:
- Escolher não ter filhos é egoísta? Pode ser, tal como ter filhos também pode ser egoísta, mas a escolha em si não o é. O que importa é se está a agir com consciência e cuidado, e não por sentido de direito ou desconsideração pelos outros.
- As pessoas sem filhos por opção arrependem-se mais tarde? Algumas arrependem-se, outras não-tal como alguns pais se arrependem de ter tido filhos. Estudos sugerem que a maioria das pessoas se ajusta ao caminho que escolheu, e é por isso que tomar uma decisão consciente importa.
- Como respondo quando a família me pressiona para ter filhos? Use uma frase simples, como: “Não estamos a planear ter filhos e estamos felizes com a nossa decisão.” Repita com calma, mude de assunto e evite ser arrastado/a para debates que não quer.
- É possível viver uma vida com sentido sem filhos? Sim. O sentido pode vir de relações, trabalho, criatividade, cuidado pelos outros, ativismo ou pequenas alegrias diárias. Ser pai/mãe é uma via poderosa para o sentido, mas não é a única.
- E se o meu parceiro quiser filhos e eu não? É um conflito de valores centrais de vida, não uma pequena discordância. Normalmente exige conversas honestas e repetidas, possivelmente terapia de casal, e por vezes uma decisão dolorosa de separar caminhos para que cada pessoa possa procurar a vida de que precisa.
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