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“Aos 65, senti-me sobrecarregado pelo ruído”: o filtro cerebral que enfraquece com a idade

Pessoa idosa sentada à mesa com livro aberto, auscultadores, telemóvel e pílulas numa tigela.

A música no café não estava alta. Pelo menos, não para toda a gente. Mas para ela, aos 67 anos, parecia que estava sentada dentro de uma máquina de lavar. A máquina de café expresso a sibilar, cadeiras a raspar, dois adolescentes a rir alto demais atrás dela. O empregado fez uma pergunta perfeitamente normal e o cérebro dela bloqueou, como se as palavras estivessem enterradas sob camadas de ruído.

Ela costumava adorar lugares movimentados. Agora, ao fim de vinte minutos, os ombros ficavam tensos e o coração acelerava. No autocarro de regresso a casa, ficou a olhar pela janela e perguntou-se: “O que é que se passa comigo?”

Não havia nada “de errado” no sentido dramático.

Estava a acontecer algo mais silencioso no cérebro dela.

Quando os sons do dia a dia começam a parecer um ataque

Para muitas pessoas depois dos 60 ou 65 anos, o ruído não parece apenas mais alto. Parece mais confuso. O cérebro, que antes separava sem esforço a voz que quer ouvir do resto do zumbido de fundo, começa a falhar.

Um almoço de família que antes era alegre passa a sentir-se como uma colmeia em ebulição. O rádio, a loiça, as conversas sobrepostas - tudo chega com o mesmo volume, como uma parede de som a pressionar os ouvidos.

E aqui está a parte estranha: o mundo não mudou assim tanto. O seu filtro interno é que mudou.

Pergunte num qualquer centro de convívio e ouvirá histórias semelhantes. Um homem de 72 anos que antes cantava em bares e agora evita restaurantes porque “não consigo ouvir os meus próprios pensamentos lá dentro”. Uma avó que teme festas de aniversário porque os gritos das crianças e o tilintar dos copos a deixam exausta durante horas.

Os investigadores até têm um nome para isto. Falam de “processamento auditivo central” e “controlo inibitório” - formas sofisticadas de descrever a capacidade do cérebro para separar o sinal do ruído. Um estudo da Universidade de Toronto mostrou que os adultos mais velhos se distraem com mais facilidade com sons irrelevantes, mesmo quando os testes de audição parecem “normais”.

Os ouvidos funcionam. O sistema de triagem é que está a ficar cansado.

O que está a acontecer tem menos a ver com volume e mais com seleção. Num cérebro jovem, milhares de milhões de neurónios e mensageiros químicos funcionam como seguranças à porta de uma discoteca. Os sons relevantes têm passe VIP. O ruído inútil é discretamente afastado.

Com a idade, esses seguranças abrandam. Alguns “reformam-se”. O sistema de travagem do cérebro - o que diz “ignora isso” - perde força. A perda auditiva relacionada com a idade pode piorar as coisas, porque quando o som que entra vem ligeiramente distorcido, o cérebro tem de trabalhar o dobro para o descodificar.

Esse esforço extra é o motivo pelo qual alguns adultos mais velhos se sentem esgotados depois de uma simples conversa numa sala ruidosa.

Treinar o filtro do cérebro em vez de lutar contra o ruído

Um passo prático é deixar de fingir que consegue “aguentar” ambientes esmagadores. Não pode mudar o quão cheio está um supermercado, mas pode mudar a forma como entra nesse espaço.

Vá em horas mais calmas quando puder. Sente-se com as costas voltadas para a parede nos restaurantes, para que o ruído venha de uma direção em vez de todas. Peça para desligarem a televisão durante uma conversa em família, em vez de suportar em silêncio o caos de sons a competir.

Isto não são sinais de fraqueza. São formas de dar ao seu cérebro menos para processar de uma só vez.

Algumas pessoas pensam que a solução é fechar-se da vida: nada de restaurantes, nada de grandes encontros, nada de viagens. É assim que o isolamento se instala. Um caminho mais suave é “dosear” o ruído. Comece com um café semanal num café moderadamente movimentado, não na praça de alimentação de um centro comercial ao sábado.

Diga aos seus amigos: “Eu acompanho melhor se falarmos um de cada vez”, e repare quantos acenam com alívio. Muitos estão a passar pelo mesmo, só que não o dizem em voz alta. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, mas praticar nem que seja uma vez por semana ajuda o cérebro a reaprender onde deve focar-se.

Pequenos ajustes reduzem a fadiga mental que faz com que tudo pareça pior.

Os profissionais falam hoje menos de “problemas de audição” e mais de “carga de escuta”. Esta pequena mudança é importante porque inclui atenção, fadiga e emoção, não apenas decibéis num gráfico.

“As pessoas dizem-me: ‘Eu ouço-os, mas as palavras parecem lama’”, explica a Dra. Laura Niemi, audiologista que trabalha sobretudo com doentes com mais de 65 anos. “Muitas vezes, o teste auditivo só está ligeiramente alterado. O verdadeiro problema é o filtro do cérebro, não apenas os ouvidos.”

  • Faça um teste de audição mesmo que “ouça bem” - o som distorcido alimenta a sobrecarga.
  • Prefira grupos mais pequenos a grandes ajuntamentos sempre que possível.
  • Reduza sons concorrentes: uma fonte de som de cada vez, não TV + música + conversa.
  • Programe atividades ruidosas mais cedo no dia, quando o cérebro está menos cansado.
  • Planeie tempo de recuperação após um evento barulhento, em vez de passar logo para outra tarefa.

Viver com um filtro cerebral mais frágil sem encolher a vida

Há uma decisão silenciosa que muitas pessoas tomam nos 60 e 70 anos: começam a escolher o silêncio em vez da ligação. Não porque queiram estar sozinhas, mas porque o preço do ruído parece demasiado alto.

E se o verdadeiro desafio for proteger o sistema nervoso sem fechar a porta ao mundo? Isso significa permitir-se sair do café barulhento, mas ainda assim encontrar-se com esse amigo mais tarde num parque. Dizer sim ao jantar de família, e também sim a sair dez minutos para apanhar ar quando a cabeça começa a zumbir.

A arte não é evitar tudo. É negociar.

Esta mudança pede um tipo diferente de coragem. A coragem de dizer: “Não consigo acompanhar com este ruído, podemos ir para ali?” em vez de sorrir e fingir que está tudo bem. Para alguns, esta frase é mais difícil do que subir escadas. Toca no orgulho, na história, na velha imagem de si como a pessoa “rija” que nunca se queixou.

Mas cada vez que fala, ensina quem está à sua volta a encontrá-lo onde está agora, não onde estava aos 40. Também dá aos outros permissão para admitirem os seus próprios limites. É assim que uma família passa da frustração - “O avô está rabugento outra vez” - para a colaboração: “Vamos sentá-lo na ponta da mesa e baixar um pouco a música.”

Um filtro cerebral mais frágil também pode mudar aquilo de que gosta. Talvez concertos cheios desapareçam da sua vida e sejam substituídos por passeios lentos de manhã. Talvez o escritório em open space o esgote, mas fazer voluntariado numa biblioteca tranquila o encha de energia.

A verdade simples é que corpos e cérebros envelhecem, e fingir o contrário só acrescenta vergonha à fadiga. As pessoas que navegam melhor esta fase raramente são as que têm os reflexos mais “jovens”. São as que se permitem adaptar.

O ruído passa a ser algo em torno do qual se organiza, não uma falha pessoal.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O filtro do cérebro enfraquece com a idade Os adultos mais velhos têm mais dificuldade em separar sons importantes do ruído de fundo Ajuda a explicar porque situações do dia a dia se tornam subitamente esmagadoras
Pequenos ajustes no ambiente ajudam Escolher lugares, horas mais calmas, uma única fonte de som Oferece formas concretas de se sentir menos drenado em locais ruidosos
A comunicação muda tudo Pedir abertamente locais mais silenciosos e fala mais pausada Reduz o isolamento e a frustração na vida familiar e social

FAQ:

  • É normal sentir maior sensibilidade ao ruído depois dos 65? Sim, muitas pessoas relatam sentir-se sobrecarregadas pelos sons à medida que envelhecem, mesmo quando os testes de audição parecem “normais”. A capacidade do cérebro para filtrar ruído tende a enfraquecer com o tempo.
  • Isto é o mesmo que perda auditiva? Não exatamente. Pode ter boa audição, mas um fraco filtro de som. A perda auditiva associada à idade e os problemas de filtragem muitas vezes coexistem, o que torna as situações ruidosas especialmente difíceis.
  • Devo usar aparelhos auditivos se o ruído me esgota? Só um profissional pode dizer. Uma avaliação adequada da audição e da escuta cognitiva pode revelar se a amplificação, o treino ou alterações no ambiente serão mais úteis.
  • Posso treinar o meu cérebro para lidar melhor com o ruído? Certos exercícios de escuta, treino de atenção e exposição gradual a ruído controlado podem melhorar a tolerância. Um terapeuta da fala ou um audiologista pode orientar esse processo.
  • Quando é altura de me preocupar e consultar um médico? Se a sensibilidade ao ruído surgir de forma súbita, vier acompanhada de tonturas, dores de cabeça, confusão ou uma queda acentuada na audição, consulte rapidamente um médico ou um otorrinolaringologista para excluir outras causas.

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