Para quem ainda guarda uma carta de condução rosa, vincada, metida atrás de cartões de fidelização e talões de combustível, o relógio está a contar. A França está a retirar de circulação o documento centenário em cartão e a passar totalmente para uma carta moderna, ao estilo de um cartão bancário, equipada com tecnologia de segurança e, cada vez mais, com um “gémeo” digital no smartphone.
O fim da carta rosa francesa após cem anos
A carta de condução em papel cor-de-rosa existe desde 1922. Para gerações de automobilistas franceses, simbolizou liberdade, burocracia e uma era muito física da administração. Desdobrável, em três painéis, ligeiramente incómoda em qualquer carteira, mudou muito pouco ao longo de décadas.
O formato era simples: papel rosa espesso, uma fotografia agrafada, menções manuscritas e alguns carimbos oficiais. Funcionava numa época de almofadas de tinta e armários de arquivo. Mas o tempo não lhe foi favorável. Muitas cartas estão hoje desbotadas, rasgadas e parcialmente ilegíveis. O material não aguenta bem o desgaste do dia a dia e a disposição não corresponde às atuais normas europeias de segurança.
A partir de 19 de janeiro de 2033, a clássica carta de condução francesa rosa deixará de ser legalmente válida.
Essa data é importante. Depois de 19 de janeiro de 2033, manter o documento antigo colocará os condutores em incumprimento durante uma fiscalização rodoviária em França. As orientações atuais referem uma coima de baixo valor na ordem dos 11 €, podendo subir para 38 € se não for paga prontamente, para quem continuar a conduzir com um formato desatualizado.
Ninguém é obrigado a correr para o computador esta semana, mas a transição já não é uma perspetiva distante. O prazo está definido, e a carta rosa está agora a viver “emprestada”.
Uma nova carta ao estilo da UE centrada na segurança
Na realidade, a França introduziu a carta no novo formato em setembro de 2013. Desde então, a maioria dos condutores recém-habilitados ou com renovação recente já a possui. A mudança só agora se está a tornar num verdadeiro fim de linha para os condutores mais antigos que nunca fizeram a troca.
A carta moderna tem o tamanho de um cartão de crédito. É feita de plástico rígido, pensada para sobreviver a bolsos, malas, porta-luvas e capas de telemóvel sem se desfazer.
A segurança é onde a diferença se torna evidente. O novo cartão inclui:
- Um chip eletrónico incorporado
- Hologramas difíceis de copiar
- Tintas especiais e técnicas de impressão visíveis sob determinada luz
Estas funcionalidades dão à polícia e à gendarmerie formas muito mais rápidas de verificar se a carta é autêntica. Os documentos antigos em papel eram mais fáceis de falsificar ou alterar, sobretudo quando ficavam gastos. Para um país que lida com tráfego transfronteiriço dentro da UE, essa fragilidade tornou-se um problema real.
A carta em formato de cartão alinha a França com um modelo europeu único, tornando as verificações mais simples através das fronteiras da UE.
Quase todos os Estados da UE usam hoje um cartão de plástico semelhante, rosa e azul. Isso não significa que uma carta francesa lhe dê automaticamente direitos de residência noutro país, mas torna muito mais simples as fiscalizações na estrada e os contratos de aluguer de automóveis.
Há também um lado prático: a nova carta tem um período de validade padrão, geralmente 15 anos para condutores particulares. Isso não implica voltar a fazer o exame. Serve apenas para permitir às autoridades atualizar a fotografia e os dados pessoais, reduzindo o número de pessoas que conduzem com fotos pouco reconhecíveis tiradas há décadas.
Como e quando os condutores franceses têm de mudar a carta
Um processo totalmente online através da plataforma ANTS
Para trocar a carta rosa em papel pela carta em cartão, os residentes em França passam agora pela Agence nationale des titres sécurisés (ANTS), o portal utilizado para passaportes, cartões de identidade e registos de veículos.
A troca é feita online, sem deslocação à prefeitura e sem custo para a carta em si.
Os passos são relativamente simples:
- Iniciar sessão no site da ANTS usando o FranceConnect ou criando uma conta ANTS.
- Selecionar a opção para pedir a emissão de uma carta de condução.
- Escolher a categoria que abrange perda, roubo, deterioração ou alteração de estado civil, que também se aplica à renovação voluntária da carta rosa.
- Carregar os documentos exigidos.
- Validar o pedido e acompanhar o estado online.
Que documentos são necessários
O sistema exige alguns ficheiros e referências padrão, semelhantes a outros pedidos de documentos de identificação em França:
| Documento | Finalidade |
|---|---|
| Fotografia digital com assinatura | Fotografia oficial e assinatura eletrónica usadas na carta |
| Comprovativo de morada | Confirma para onde o cartão deve ser enviado e o local de residência |
| Documento de identificação válido (cartão de identidade ou passaporte) | Verifica a identidade e a nacionalidade ou estatuto de residência |
| Digitalização ou foto da carta rosa | Mostra as categorias e habilitações atuais |
Muitas cabines fotográficas e fotógrafos em França já estão ligados ao sistema ANTS e fornecem um código de fotografia em vez de uma folha física. Se não estiverem, ainda pode usar fotografias tradicionais e enviá-las por correio, conforme indicado durante o processo.
Uma vez aceite o pedido, o novo cartão é enviado por correio registado, geralmente dentro de duas a três semanas. Durante esse período, os seus direitos de condução mantêm-se em vigor, pois está a atualizar uma habilitação já existente e não a candidatar-se do zero.
Do cartão de plástico ao smartphone: a ascensão da carta digital
O cartão físico não é o fim da história. A França está a ligar gradualmente as cartas de condução à aplicação France Identité, que pretende centralizar documentos digitais de identidade seguros num smartphone.
Dentro da aplicação, pode ser apresentada uma versão digital da sua carta para certas verificações. Os dados são encriptados e concebidos para serem acessíveis apenas quando o utilizador o autoriza. Os controlos ainda estão a evoluir, e recomenda-se que os condutores mantenham por agora o cartão físico, sobretudo fora de França, onde as autoridades podem não reconhecer o formato digital francês.
Para condutores conectados, a era do papel rosa está a dar lugar não só ao plástico, mas a uma carta híbrida físico-digital.
O que esta mudança significa para residentes estrangeiros e condutores transfronteiriços
A mudança também afeta estrangeiros a viver em França que ainda tenham uma carta rosa francesa emitida há anos. O mesmo prazo de 2033 aplica-se. Isso inclui britânicos que se tornaram residentes em França antes do Brexit e trocaram na altura a carta do Reino Unido, bem como outros cidadãos da UE de longa duração.
Para não residentes que conduzem em férias com uma carta estrangeira, a reforma não tem impacto direto. Uma carta do Reino Unido ou dos EUA usada numa estadia curta em França segue as regras nacionais próprias. A alteração só diz respeito às cartas rosas emitidas em França, quer sejam detidas por cidadãos franceses, quer por residentes estrangeiros que já tenham feito no passado um processo de troca.
Porque a carta rosa tinha de desaparecer: fraude, controlos e dados
Por trás do valor sentimental, a carta em papel criava uma série de problemas. Falsificar ou alterar informações era mais fácil. Os dados eram estáticos e dispersos, o que complicava sanções, interdições de condução e aplicação transfronteiriça.
Com o cartão com chip, as autoridades francesas podem ligar o documento físico a bases de dados centrais, tornando mais difícil apresentar cartas falsas ou continuar a conduzir num país depois de ter sido proibido noutro. A coordenação a nível da UE sobre interdições ainda é irregular, mas a infraestrutura já existe para partilhar mais informação.
Há também debates sobre privacidade. Alguns condutores sentem-se desconfortáveis com qualquer coisa que soe a um perfil digital da sua vida ao volante. A lei francesa impõe limites ao que pode ser armazenado e partilhado, mas a confiança pública dependerá de uma gestão cuidadosa desses sistemas e de uma comunicação clara por parte do Estado.
Cenários práticos: quando faz sentido renovar mais cedo
Esperar até 2032 ou 2033 é legalmente permitido, mas nem sempre é prático. Algumas situações do dia a dia tornam atraente uma troca antecipada:
- A sua carta atual está quase ilegível, o que pode causar problemas em fiscalizações ou no aluguer de automóvel.
- Conduz frequentemente no estrangeiro dentro da UE e quer um documento que os agentes reconheçam de imediato.
- Vai mudar de morada ou de apelido em breve e já terá de tratar de outra papelada.
- Planeia mudar de emprego e o seu empregador precisa de uma cópia clara e atualizada do seu registo/carta.
Para condutores mais velhos, a validade de 15 anos pode trazer clareza. O novo cartão apresenta uma data de fim para o documento, separada de quaisquer considerações médicas. Essa data é apenas um lembrete para renovar o cartão, não uma perda automática do direito de conduzir por motivo de idade.
Noções-chave: validade, categorias e pontos
As cartas francesas combinam vários conceitos que podem confundir quem não está habituado ao sistema. O cartão físico tem uma data de validade. Isso diz respeito ao documento em si, como um passaporte, e não ao direito subjacente de conduzir. Para a maioria das cartas de automóvel e motociclo, o direito mantém-se enquanto cumprir as condições médicas e legais e renovar o cartão quando solicitado.
Depois existem as categorias, como B para automóveis ou A para motociclos. Ao trocar a carta rosa, essas categorias devem transitar exatamente tal como aparecem. Os condutores devem verificar cuidadosamente o novo cartão quando o receberem, para garantir que todas as habilitações estão corretamente listadas.
Por fim, a França usa um sistema de pontos. Os novos condutores começam com um número limitado de pontos, aumentando até 12 após alguns anos sem infrações graves. Os pontos estão ligados ao registo da carta, não apenas ao cartão de plástico. A mudança de formato não reinicia os pontos nem apaga penalizações anteriores.
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