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A psicologia revela porque o controlo emocional muitas vezes se desenvolve de forma silenciosa.

Pessoa escreve em caderno, com chá fumegante e planta na janela ao fundo. Ambiente iluminado pelo sol.

Estás sentado(a) ao jantar, a ver um(a) amigo(a) contar uma história com as mãos a voar por todo o lado, voz alta, olhos vivos. Do outro lado da mesa, outra pessoa ouve em silêncio, sorri por educação, quase não se mexe. Quando chega a piada final, ri-se um segundo mais tarde, quase como se tivesse verificado primeiro se era seguro reagir. Ninguém comenta, mas tu sentes. Uma pessoa está viva nas suas emoções. A outra parece… editada.

A psicologia tem uma palavra para essa edição invisível.

E raramente começa com uma decisão.

Quando a contenção emocional se torna uma segunda pele

A contenção emocional normalmente não chega com um anúncio dramático. Vai-se instalando através de pequenos ajustes: um maxilar contraído durante uma discussão, uma lágrima engolida num comboio cheio, uma piada em vez de uma resposta honesta. Com o tempo, o corpo aprende uma regra silenciosa: não mostres demasiado.

Muitos psicólogos falam disto como uma espécie de “armadura emocional”. Ao início, protege. Evitas conflitos. Pareces competente. Escapas ao embaraço de chorar à frente de pessoas que não sabem o que fazer com isso. Depois, um dia, percebes que não levantaste verdadeiramente a voz nem choraste há anos.

Essa armadura tornou-se a tua personalidade.

Pensa na infância, onde a maioria destas regras é escrita. Uma criança que cresce com pais que ficam sobrecarregados com emoções aprende muitas vezes a encolher as suas. O pai zangado que bate portas, a mãe que suspira: “Pára de chorar, estás a piorar as coisas” - o sistema nervoso da criança começa a fazer contas. Zanga é igual a perigo. Tristeza é igual a culpa. Expressar coisas é igual a problemas.

Então a criança adapta-se. Torna-se “a calma”, “a fácil”, aquela que os professores elogiam por não fazer barulho. Por fora, essa contenção parece maturidade. Por dentro, é uma estratégia de sobrevivência. Essa criança não pensa: “Estou a desenvolver contenção emocional como mecanismo de coping.” Apenas sente o alívio de ser menos um problema.

Treino silencioso, lição após lição, ano após ano.

Do ponto de vista psicológico, isto é condicionamento emocional clássico. O cérebro aprende quais os sentimentos que trazem ligação e quais trazem castigo, distância ou vergonha. Cada vez que um sentimento é desvalorizado, gozado ou ignorado, o cérebro arquiva-o como “inseguro”. Com o tempo, o sistema emocional deixa de enviar esses sinais com tanta força.

Os neurocientistas vêem isto como eficiência. O cérebro detesta desperdiçar energia. Se chorar nunca leva a conforto, os circuitos que desencadeiam lágrimas acalmam mais depressa. Se a zanga leva sempre à rejeição, esses impulsos são redireccionados para ruminação, sarcasmo ou agradar aos outros. A contenção parece escolha, mas é sobretudo cablagem.

Na idade adulta, já não estás “a conter-te”. Estás apenas a ser quem o teu sistema nervoso te treinou para seres.

Como afrouxar, com suavidade, travões de uma vida inteira

Um dos pontos de partida mais simples são os micro check-ins. Não o grande plano de “vou escrever num diário uma hora todas as noites e transformar a minha vida”. Apenas pausas de dez segundos durante o dia para perguntar: “O que é que estou realmente a sentir agora?” Depois, dá-lhe um nome com uma ou duas palavras na tua cabeça.

“Irritado(a).”
“Só.”
“Preocupado(a).”

Este pequeno hábito vai, lentamente, aumentando o volume das emoções que aprendeste a silenciar. De acordo com investigação sobre rotulagem emocional, o simples acto de nomear sentimentos reduz a sua intensidade e aumenta a tua sensação de controlo. É como acender a luz numa divisão por onde tens andado às escuras.

Uma armadilha comum é passar do zero para a exposição emocional total de um dia para o outro. Decides ser “mais expressivo(a)” e, de repente, tentas despejar dez anos de silêncio numa terça-feira qualquer com um(a) amigo(a) a ouvir pela metade. A queda depois disso só reforça a velha história: “Vês? É por isto que eu guardo as coisas para mim.”

Sê mais gentil com o teu ritmo. Músculos emocionais que estiveram rígidos durante anos não alongam sem alguma dor. Tenta partilhar um nível acima do habitual, não dez. Em vez de dizer “Estou bem”, diz “Estou um bocado cansado(a), para ser sincero(a).” Em vez de te rires para desvalorizar, acrescenta: “Isso doeu mais do que eu esperava.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.

O psicólogo John Bowlby, que estudou a vinculação, escreveu que quando os sentimentos de uma criança não encontram uma resposta segura, ela “afasta-se não só dos outros, mas gradualmente também dos seus próprios sinais internos”.

  • Começa onde o teu corpo está
    Repara em dentes cerrados, ombros tensos, respiração superficial. A tensão física é muitas vezes a primeira pista de que uma emoção está a ser contida.
  • Usa prática de baixo risco
  • Testa honestidade emocional em contextos pequenos e seguros: com um(a) amigo(a) de confiança, um(a) terapeuta, até numa app de notas no telemóvel.
  • Fica atento(a) aos reflexos do “Estou bem”
    O “Estou bem” automático é muitas vezes uma defesa incorporada. Quando te ouvires a dizê-lo, pára e pergunta em privado: “O que é que está por baixo disto?”
  • Permite o desconforto
  • O descongelar emocional pode parecer desajeitado ou demasiado intenso no início. Isso não é falhanço, é recalibração.
  • Protege as tuas histórias
    Nem toda a gente merece acesso ao teu mundo interior. Partilhar mais não significa partilhar com toda a gente. Escolhe o teu público com cuidado.

Viver com sentimentos que foste treinado(a) para esconder

Há um momento estranho que acontece quando alguém que sempre foi “o(a) calmo(a)” finalmente deixa transparecer um pouco mais. Amigos podem dizer, meio a brincar: “Uau, nunca te vi assim.” Parceiros podem recuar, não habituados às lágrimas, à frustração, à verdade. Tu próprio(a) podes até assustar-te um pouco.

Esta é a parte sobre a qual ninguém publica nada. A contenção emocional não desaparece simplesmente; negocia. Alguns dias falas. Outros dias voltas ao velho silêncio. Ambos fazem parte da mesma história: um sistema nervoso a aprender que expressão não leva automaticamente ao desastre.

O trabalho não é tornares-te dramático(a) ou “muito emocional”. É tornares-te congruente - aquilo que sentes por dentro mais próximo daquilo que mostras por fora.

Ponto-chave Detalhe Valor para o(a) leitor(a)
A contenção emocional é muitas vezes aprendida, não escolhida Respostas na infância, feedback social e regras familiares moldam discretamente o quanto mostras Reduz a auto-culpabilização e abre a porta à auto-compaixão
Pequenas práticas mudam padrões profundos Micro check-ins, nomear emoções e honestidade gradual re-treinam o teu sistema nervoso Dá ferramentas concretas em vez de conselhos abstractos
Podes definir o ritmo e o público Escolher quando, como e com quem te expressas protege-te de “chicote emocional” Cria uma sensação de segurança enquanto experimentas ser mais aberto(a)

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se sou emocionalmente contido(a) ou apenas naturalmente calmo(a)?
    Pergunta-te o que acontece dentro de ti. Se sentes as coisas intensamente mas raramente deixas que se vejam, isso é contenção. Se o teu mundo interior é, na maior parte do tempo, estável e não sentes que estás a reprimir, isso está mais perto de seres naturalmente calmo(a).
  • Pergunta 2 A contenção emocional pode prejudicar relações?
    Pode criar distância. Parceiros e amigos podem sentir-se excluídos ou assumir que não te importas. Com o tempo, isso pode levar a mal-entendidos, ressentimento ou à sensação de viverem vidas paralelas em vez de uma vida partilhada.
  • Pergunta 3 A contenção emocional é sempre má?
    Não. A capacidade de regular e fazer uma pausa antes de reagir é uma força. Torna-se um problema quando não consegues aceder ou partilhar o que sentes mesmo quando queres ligação ou apoio.
  • Pergunta 4 E se fui elogiado(a) a vida inteira por ser “pouco dramático(a)”?
    Podes manter as partes dessa identidade que te parecem verdadeiras, enquanto questionas com suavidade de onde vieram. Ser “pouco dramático(a)” não tem de significar ter pouca emoção ou pouca honestidade contigo próprio(a).
  • Pergunta 5 Devo trabalhar isto sozinho(a) ou procurar um(a) terapeuta?
    Podes começar sozinho(a) com pequenas práticas, mas se te sentires entorpecido(a), cronicamente desligado(a) ou com medo dos teus próprios sentimentos, um(a) terapeuta oferece um espaço seguro para experimentares estar mais presente emocionalmente.

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