Você larga a mala, chuta os sapatos, finalmente aterra no sofá… e, em vez de se derreter nas almofadas, o peito aperta. O cérebro começa a zumbir, a perna começa a saltitar, o maxilar fecha-se sem motivo aparente. Esperou o dia inteiro por esta pausa e, no entanto, no segundo em que se senta, parece que alguém aumentou discretamente o volume de cada preocupação enterrada na sua vida.
A sala está calma, o telemóvel está por perto, talvez a televisão esteja ligada em fundo, mas por dentro sente-se estranhamente em alerta. Descansar não sabe a descanso.
Há qualquer coisa em si que está em posição de defesa, como se ainda estivesse a correr.
E o corpo recusa-se a acreditar que, finalmente, pode parar.
Porque é que sentar-se pode parecer acionar um gatilho emocional
Os psicólogos falam de “mudanças de estado” - aquela turbulência estranha quando se passa, de repente, de um modo para outro. Durante o dia, pode estar em modo de ação: a responder a emails, a conduzir, a cuidar de crianças, a resolver problemas antes que aconteçam. O seu sistema nervoso aprende a manter-se ligeiramente ativado para conseguir acompanhar.
Depois senta-se. Já não há tarefas óbvias, não há incêndios imediatos para apagar. O ruído exterior baixa e o ruído interior apressa-se a preencher o espaço.
É aí que a tensão o atinge como uma onda atrasada.
Imagine isto. Uma enfermeira termina um turno brutal de 12 horas. Chega a casa depois das 21h, come qualquer coisa em pé, põe a máquina da loiça a funcionar, responde a uma última mensagem.
Só quando finalmente se deixa cair no sofá é que a garganta aperta. Faz scroll, meio presente, meio entorpecida. Surge-lhe na mente o rosto de um doente, depois a culpa por aquele que não conseguiu ajudar, depois as contas, depois a saúde da mãe. Em poucos minutos, está tensa da cabeça aos pés, “sem razão”.
No papel, está em casa e em segurança. Por dentro, o sistema continua preso em modo de sobrevivência.
A psicologia explica isto como uma resposta emocional tardia. Quando estamos ocupados, o cérebro dá prioridade ao desempenho e à resolução de problemas, empurrando sentimentos desconfortáveis para o lado.
No momento em que as exigências externas caem, esses sinais reprimidos finalmente têm autorização para vir à superfície - ansiedade, tristeza, ressentimento, até simples exaustão. O corpo não esquece aquilo que andou a aguentar o dia inteiro; apenas espera por uma brecha na agenda para apresentar a conta.
Sentar-se torna-se a brecha.
Por isso, não está a “exagerar”. O seu sistema nervoso está apenas a recuperar o atraso.
O que pode fazer nos primeiros 60 segundos de tensão
O primeiro minuto depois de se sentar é crucial. Em vez de pegar logo no telemóvel, experimente um mini-ritual que diga ao seu corpo: “Estás seguro, estamos a aterrar agora.”
Um método simples da terapia somática é o reset de 5 respirações. Sente-se, deixe as costas sentirem o apoio e expire primeiro. Depois faça cinco respirações lentas, com a expiração ligeiramente mais longa do que a inspiração. Imagine que está, fisicamente, a expulsar o dia pelos ombros.
Parece quase simples demais. E, no entanto, este pequeno intervalo entre “sentar” e “fazer scroll” pode suavizar esse choque de tensão.
Muita gente, sem se aperceber, aumenta o stress precisamente no momento em que quer relaxar. Abre uma app de notícias, responde a “só mais uma” mensagem ou começa a fazer doomscrolling antes de o corpo sequer ter aterrado no sofá. O sistema nervoso nunca recebe a mensagem de que a ameaça já passou.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. Apressamo-nos. Deixamo-nos cair. Anestesiamos com conteúdo. Mas esse primeiro micro-momento - aqueles segundos em que o cérebro muda de engrenagem - é como uma ponte frágil.
Ou a atravessa com cuidado, ou pisa-a com força com mais estimulação.
A verdade simples é que o descanso é uma competência que a maioria de nós nunca aprendeu.
O psicólogo e especialista em trauma Bessel van der Kolk lembra frequentemente os doentes de que o corpo não esquece. Também não esquece o ritmo. Se viveu anos em modo “sempre a andar”, ficar quieto desencadeia quase automaticamente uma sensação de perigo, porque a imobilidade costumava significar “hora de pensar nas coisas difíceis”.
“As pessoas acham que são más a relaxar”, explicou-me um psicólogo clínico que entrevistei. “Não são más nisso. O sistema nervoso foi treinado para associar abrandar a vulnerabilidade. Por isso, no momento em que se sentam, o cérebro entra em patrulha.”
- Repare nos primeiros 30–60 segundos depois de se sentar, em vez de os ignorar.
- Enraíze o corpo: sinta os pés, o peso das pernas, o apoio da cadeira ou do sofá.
- Faça 3–5 respirações lentas, com a expiração mais longa do que a inspiração.
- Adie pegar no telemóvel ou no comando até depois dessas respirações.
- Nomeie mentalmente uma emoção que note: “inquieto”, “cansado”, “em alerta”.
Aprender a deixar o corpo chegar antes de a mente disparar
Em algumas noites, a tensão ao sentar-se não desaparece por completo. Pode continuar a sentir aquele zumbido no peito, aquele nó no estômago. O objetivo não é tornar-se um monge zen no sofá da sala.
Em vez disso, pense nisto como aprender a chegar por camadas. Primeiro chega o corpo - apoiado, enraizado, a respirar de novo. Depois chegam as emoções - às vezes confusas, às vezes ruidosas. E depois, lentamente, os pensamentos deixam de sprintar e começam a andar.
Não está a falhar no descanso quando se sente tenso. Está apenas a entrar na parte do dia em que o seu verdadeiro estado finalmente aparece.
Se começar a prestar atenção, pode notar padrões. Talvez a tensão seja pior em dias com demasiadas pequenas decisões. Talvez aumente depois de eventos sociais. Talvez seja mais forte quando passou o dia inteiro a cuidar de outros e nem uma vez verificou como estava.
Este tipo de consciência não serve para culpar o trabalho, os filhos ou a sua personalidade. Serve para mapear como o seu sistema nervoso se move ao longo do dia. Quando vê o padrão, pode fazer pequenos ajustes: uma caminhada de três minutos antes de chegar a casa, uma nota de voz para si mesmo no carro, um pequeno limite do tipo “sem conversas pesadas nos primeiros 10 minutos depois de me sentar”.
Estes pequenos retoques, quase invisíveis, podem mudar todo o tom emocional das suas noites.
Há também uma camada mais silenciosa aqui, que muitos leitores reconhecem mas raramente dizem em voz alta. Para alguns, essa onda de tensão ao sentar-se não tem apenas a ver com o stress de hoje. Tem a ver com luto antigo, raiva antiga, medo antigo a infiltrar-se pelas fendas quando a vida finalmente fica quieta.
Já todos passámos por isso: aquele momento em que o silêncio na sala torna, de repente, o interior da cabeça muito, muito barulhento. Não tem de desmontar toda a sua infância no sofá às 21h, mas pode admitir com gentileza: “Ah, há mais em mim do que apenas cansaço.”
Às vezes, falar com um terapeuta - ou até escrever num diário durante cinco minutos desalinhados antes de ligar uma série - chega para impedir que essa tensão se transforme em pavor. O seu corpo está a bater à porta. Não tem de a escancarar todas as noites. Mas também não tem de fingir que não o ouve.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| As mudanças de estado desencadeiam tensão | A passagem do modo de ação para o descanso pode ativar emoções e stress enterrados | Ajuda a perceber que não é “estranho” sentir-se pior quando finalmente se senta |
| O primeiro minuto conta | Um curto ritual de enraizamento e respiração mais lenta logo ao sentar-se pode acalmar o sistema nervoso | Dá uma ferramenta concreta para noites que começam com ansiedade inesperada |
| Descansar é uma competência aprendida | Reparar em padrões, definir pequenos limites e permitir que alguns sentimentos venham à tona pode aliviar a tensão | Mostra um caminho para um descanso mais genuíno, em vez de apenas se anestesiar no sofá |
FAQ:
- Porque é que me sinto mais ansioso à noite quando finalmente me sento? Porque o cérebro passa o dia focado em tarefas e, muitas vezes, empurra sentimentos desconfortáveis para o lado. Quando para de se mexer, o sistema nervoso finalmente tem espaço para processar o que se foi acumulando, e a ansiedade vem à superfície.
- É normal sentir tensão física quando descanso? Sim. Muitas pessoas vivem num estado crónico de “ligado”, com músculos tensos e respiração superficial. Quando se sentam, apercebem-se subitamente de uma tensão que já lá estava, o que pode parecer intenso ou até assustador.
- Fazer scroll no telemóvel ajuda ou prejudica nesse momento? Pode distrair a curto prazo, mas normalmente mantém o sistema nervoso ativado. Isso significa que a tensão de base raramente tem oportunidade de abrandar e, na verdade, pode sentir-se ainda mais acelerado depois.
- Qual é uma pequena coisa que posso experimentar hoje à noite? Quando se sentar pela primeira vez, faça uma pausa para cinco respirações lentas antes de tocar em qualquer ecrã. Repare em três sensações físicas - por exemplo, os pés no chão, as costas na cadeira, as mãos a repousar num sítio seguro.
- Quando devo considerar falar com um profissional? Se a tensão se transformar em pânico, pavor ou dor emocional constante, ou se começar a evitar o descanso por completo, um psicólogo ou terapeuta pode ajudar a compreender o que o corpo está a tentar dizer e ensinar formas mais seguras de descontrair.
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