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A psicologia explica porque algumas pessoas parecem calmas, mas lutam contra a ansiedade por dentro.

Mulher sentada num sofá com almofada no colo, segura uma chávena e sorri; grupo de pessoas desfocado ao fundo.

A mulher no quadrado do Zoom ao lado parece perfeita.
Cabelo escovado, fundo neutro, olhar firme.

A voz não treme quando diz: “Sim, posso ficar com isso”, pela terceira vez esta semana. Ninguém vê as marcas das unhas na palma da mão, escondidas mesmo abaixo da câmara. Ninguém ouve os pensamentos acelerados a afogarem metade da reunião.

Quando a chamada termina, fecha o portátil e encosta-se à parede, a respirar como se tivesse subido dez andares pelas escadas. No telemóvel, o chat do grupo chama-lhe “a calma”, aquela com quem se pode sempre contar.

Ela adora isso.
E isso esgota-a.

Porque é que algumas pessoas parecem serenas enquanto a mente lhes arde?

A vida secreta de “a calma” na sala

Há sempre aquela pessoa que parece inabalável.
Os colegas entram em pânico, os amigos desabam, o mundo cambaleia de crise em crise - e ela mantém-se fresca, organizada, quase tranquilizadora.

Solta uma piada leve mesmo quando a tensão dispara. Lembra-se dos aniversários. Envia aquele e-mail de seguimento que toda a gente esqueceu. Por fora, parece um ansiolítico ambulante.

Por dentro, muitas vezes é outra história.
Para um número surpreendente de pessoas, a cara calma é menos um traço de personalidade e mais uma estratégia de sobrevivência. Uma máscara usada durante tanto tempo que quase parece pele.

Os psicólogos estão a ver isto cada vez mais, sobretudo entre pessoas muito ambiciosas e aquelas que tentam agradar a toda a gente.
Num inquérito no Reino Unido, quase 60% das pessoas que se descreveram como “sempre compostas” também relataram sintomas frequentes de ansiedade: pensamentos acelerados, problemas de sono, ruminação constante.

Pense no Luca, 32 anos, gestor de projetos. O chefe elogia-o como “imperturbável”.
Nunca levanta a voz, nunca falha um prazo. É a pessoa a quem os outros recorrem quando algo avaria.

O que ninguém vê é o Luca sentado no carro depois do trabalho, a agarrar o volante com tanta força que os dedos ficam dormentes. Repassa cada conversa, convencido de que soou estúpido. Às 2 da manhã, o cérebro ainda está a escrever respostas imaginárias a e-mails.

A psicologia tem um nome para parte deste padrão: supressão emocional.
Sente a ansiedade, mas empurra-a para baixo, cerra o maxilar e apresenta a versão de si que acha que o mundo quer.

Para muitos, isto começou cedo. Talvez em criança fosse elogiado por ser “tão maduro” ou “tão fácil”. Talvez emoções fortes fossem tratadas como drama, e aprendeu depressa: não dar trabalho, ser estável, ser a rocha.

Com o tempo, esse guião cola-se. Torna-se o amigo calmo na festa, o colega estável na crise.
Mas o sistema nervoso não quer saber do guião - continua a soar o alarme.

Porque é tão difícil tirar a máscara de calma

Um motor poderoso por trás do padrão “calmo por fora, ansioso por dentro” é o controlo.
Quando a ansiedade parece caótica, o exterior arrumado oferece uma sensação de ordem.

Então controla o tom. Controla a expressão. Controla os e-mails, o calendário, os problemas dos amigos. Essa estrutura externa pode realmente ajudá-lo a funcionar. Não é falso; é uma forma de autodefesa.

A parte difícil é que as pessoas começam a depender dessa versão de si.
Em pouco tempo, “estar bem” deixa de ser uma escolha e passa a ser um trabalho para o qual não se lembra de se ter candidatado.

Veja a Sara, 27 anos, a “amiga terapeuta” do grupo. Ouve com paciência histórias de separações, stress no trabalho, dramas familiares. Raramente fala de si.

Numa noite, depois de uma semana brutal, tenta abrir-se no chat do grupo: “Mais alguém se sente ansioso sem razão?”
As respostas chegam rápidas: “Tu? Nem pensar, és a mais forte aqui.” “Tu tens sempre tudo controlado, queria ser como tu.”

Eles dizem isso como elogio.
A Sara lê aquelas mensagens e apaga, em silêncio, o que ia partilhar. Se precisam que ela seja a forte, o que acontece se ela disser que não é?

Psicologicamente, isto é um ciclo clássico de reforço.
Quanto mais calmo parece, mais o elogiam por isso. Quanto mais o elogiam, mais o seu cérebro liga “ser amado” a “nunca quebrar”.

Com o tempo, pode até fazer gaslighting a si próprio.
Pensa: “Se estou tão ansioso, porque é que toda a gente me vê como calmo? Se calhar estou a exagerar. Se calhar não é assim tão mau.”

O sistema nervoso conta outra história: ombros tensos, respiração curta, dores de cabeça, problemas de estômago.
Por fora, está a tomar notas numa reunião. Por dentro, o corpo está a procurar perigo onde ele não existe. A máscara mantém-se, porque tirá-la parece mais arriscado do que a própria ansiedade.

Como viver com ansiedade sem encenar perfeição

Um pequeno movimento, contraintuitivo, pode começar a mudar as coisas: deixar escapar mais 5% do seu estado interno.
Não numa confissão dramática, mas em frases pequenas e humanas.

Em vez de “Está tudo bem”, experimente “Estou um bocado stressado, mas a aguentar.”
Em vez de acenar em silêncio numa reunião, diga: “Isto é muita coisa, preciso de um segundo para processar.”

Esses 5% são um balão de ensaio.
Não está a deitar fora a sua calma; está apenas a permitir uma fenda por onde a ligação real pode entrar. Às vezes, é tudo o que o sistema nervoso precisa para deixar de sentir que está a carregar um segredo sozinho.

Muitas pessoas ansiosas “calmas por fora” caem numa armadilha específica: só se permitem desmoronar em privado.
Chorar sozinho no duche. Ataques de pânico silenciosos na cama. Quebras em viagens de carro à noite, a sós.

Não há nada de errado em ter momentos privados, mas quando toda a emoção é escondida, ensina o cérebro a achar que sentimentos são perigosos à frente dos outros. Isso aumenta a pressão no dia seguinte para parecer ainda mais estável.

Um caminho mais gentil é praticar partilhar um degrau mais cedo.
Não já em crise total, mas no “estou a começar a sentir-me sobrecarregado”. Ao início, parece desajeitado. Pode sair estranho. Está tudo bem. A fluência emocional é uma linguagem que se aprende falando-a mal durante algum tempo.

“Calma não é a ausência de ansiedade”, diz uma psicóloga clínica com quem falei, “é a capacidade de deixar a ansiedade existir sem mentir sobre ela o tempo todo.”

  • Comece com uma pessoa segura
    Escolha o amigo ou colega que já mostrou conseguir lidar com nuance. Diga-lhe que muitas vezes sente ansiedade mesmo quando parece estar bem.
  • Use linguagem simples, sem teatralidade
    Frases como “Hoje estou um bocado em tensão” ou “O meu cérebro está barulhento agora” mantêm as coisas assentes e honestas.
  • Repare no corpo, não só nos pensamentos
    Pergunte: tenho os ombros junto às orelhas? O maxilar está preso? Estou a cerrar os punhos debaixo da mesa?
  • Permita uma pequena imperfeição na sua persona “calma”
    Atrase uma resposta. Admita que se esqueceu de algo. Recuse um pedido. Sejamos honestos: ninguém consegue isto todos os dias.
  • Considere ajuda profissional se a máscara nunca sai
    A terapia pode assustar pessoas com ansiedade “de alto funcionamento”, mas é muitas vezes o primeiro lugar onde se sentem ansiosas e aceites ao mesmo tempo.

Viver sendo ao mesmo tempo “a calma” e “a ansiosa”

Algumas pessoas vão sempre transmitir compostura. Isso não é um defeito; pode ser uma força genuína. O objetivo não é oscilar para o extremo oposto e narrar cada preocupação em voz alta.

O que muda tudo é a permissão silenciosa que dá a si próprio para ser ambos. Com ar calmo e com medo. Capaz e sobrecarregado. O amigo fiável que às vezes cancela planos. O colega focado que ocasionalmente diz: “Não consigo pegar em mais.”

Quando deixa de tratar a sua ansiedade como uma contradição vergonhosa, ela torna-se informação. Um sinal de que algo é demasiado, demasiado rápido, demasiado solitário.

Pode notar que, quando deixa algumas pessoas de confiança verem por trás da calma, a ansiedade não desaparece - mas parece menos uma tempestade privada e mais um estado do tempo que pode ser nomeado, partilhado, atravessado.

É aí que começa a verdadeira mudança: não em ficar menos ansioso de um dia para o outro, mas em já não ter de fingir que não está.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Ansiedade escondida por trás de um comportamento calmo Muitas pessoas “estáveis” usam a supressão emocional como estratégia de sobrevivência Normaliza a experiência e reduz o autojulgamento
Reforço social da máscara de calma O elogio por ser “imperturbável” torna mais difícil mostrar vulnerabilidade Ajuda a reconhecer porque é tão difícil pedir ajuda
Pequenas revelações honestas Partilhar mais 5% do seu estado interno começa a quebrar o padrão tudo-ou-nada Oferece uma forma realista e de baixa pressão de viver com mais autenticidade

FAQ:

  • É normal sentir ansiedade mas parecer calmo?
    Sim. Muitas pessoas vivem o que alguns terapeutas chamam de “ansiedade de alto funcionamento”, em que parecem compostas, produtivas e fiáveis enquanto sentem tensão interna constante.
  • Esconder a minha ansiedade piora?
    Muitas vezes, sim. Suprimir emoções pode aumentar sintomas físicos como tensão muscular, fadiga e dores de cabeça, e pode intensificar a sensação de ser “falso” ou de estar sozinho com a sua experiência.
  • Como posso perceber se preciso de ajuda profissional?
    Se o seu sono, concentração, relações ou saúde forem afetados de forma consistente, ou se sentir que a máscara nunca sai, falar com um profissional de saúde mental é um próximo passo sensato.
  • Ser mais aberto sobre a minha ansiedade vai fazer as pessoas perderem respeito por mim?
    Na maioria das vezes, acontece o contrário. Uma honestidade ponderada e medida tende a aprofundar a confiança. Escolher com quem partilha e como formula ajuda a proteger os seus limites.
  • Posso continuar a ser “a calma” se começar a mostrar vulnerabilidade?
    Sim. Calma não significa nunca ter dificuldades. Pode continuar centrado e fiável e, ao mesmo tempo, admitir quando está ansioso, cansado ou no limite. Essa versão de calma costuma ser mais sustentável.

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