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A partir de 8 de fevereiro, as pensões aumentam, mas só para quem entregar o comprovativo em falta, deixando muitos a dizer: "Sabem que não temos acesso à internet."

Casal idoso examina documentos e usa uma máquina de calcular numa receção, com pessoas sentadas ao fundo.

No centro comunitário, a fila começou ainda antes de as portas abrirem. Casacos meio abotoados, bengalas encostadas à parede, um saco de plástico cheio de papéis apertado em cada mão. No placard de avisos, uma folha impressa em letras minúsculas: “A partir de 8 de fevereiro, as pensões podem ser aumentadas - desde que seja entregue um certificado em falta.”
Sem explicação. Sem balcão de apoio. Apenas uma data e uma ameaça nas entrelinhas: sem certificado, sem aumento.

Uma mulher de boina cinzenta semicerrava os olhos para ler o papel. “Eles sabem que nós não temos acesso à internet”, suspirou, numa fúria contida. À volta, cabeças acenavam. Ninguém tinha visto uma carta clara, ninguém tinha recebido uma chamada. Só boatos, meia dúzia de linhas no jornal local e familiares a reencaminhar capturas de ecrã nos telemóveis.
Alguns teriam uma pensão mais alta a partir de 8 de fevereiro. Outros ficariam de fora, simplesmente porque um ficheiro não foi carregado num site de que nunca tinham ouvido falar.

A partir de 8 de fevereiro, um aumento da pensão com condições

A promessa parece simples: a partir de 8 de fevereiro, as pensões vão subir para uma parte dos reformados. Na televisão, a medida é apresentada como progresso automático, um sinal de que o sistema “cuida dos seus idosos”.
Mas no terreno, a história é muito diferente. Nas entrelinhas surge uma condição silenciosa: um certificado em falta tem de ser enviado para os serviços de pensões, na maioria das vezes online, muitas vezes através de uma conta pessoal em que muitos maiores de 70 nunca entraram.
O risco é brutal: a mesma vida, os mesmos anos de trabalho, mas sem aumento por causa de um único documento.

Veja-se o caso do Georges, 78 anos, ex-operário fabril. Recebeu uma carta curta em dezembro: “O seu processo está incompleto. Por favor, submeta o certificado solicitado através da sua conta online antes de 8 de fevereiro.”
Sem explicação detalhada, sem proposta de marcação telefónica, nem sequer uma linha clara a dizer exatamente qual era o certificado em falta. A filha encontrou a carta ao organizar o correio. Ele tinha-a posto de lado, a achar que era “só mais uma formalidade”.
Quando ela tentou ajudar, o site estava bloqueado, a palavra-passe esquecida, e o processo de recuperação foi enviado… para um endereço de email que ele já não usa.

Por detrás destas histórias individuais, há um mecanismo simples. Para conceder o aumento, as caixas de pensões querem confirmar a situação de cada pessoa: estado civil, residência, grau de incapacidade, direitos de sobrevivência, ou rendimentos anteriores no estrangeiro. Um único certificado em falta pode congelar o recálculo.
No papel, trata-se de evitar erros e fraudes. Num ecrã, torna-se um muro digital.
Para muitos reformados, o sistema passou de “pagamos-lhe o que lhe é devido” para “prove outra vez, num site, que ainda existe”.

Como navegar no labirinto do certificado em falta

O primeiro passo prático é quase à moda antiga: pegar em todas as cartas que recebeu dos serviços de pensões desde o outono. Colocá-las em cima da mesa, uma a uma.
Na maioria delas, a frase-chave está escondida a meio: “Aguardamos o seguinte documento”, seguida de uma designação um pouco técnica. Esse é o ponto de partida.
Quando souber qual é o certificado em falta, pode escolher: pedir ajuda na junta de freguesia/câmara municipal, no serviço de finanças, num balcão da Segurança Social, ou no departamento de recursos humanos do seu antigo empregador para o obter.

A armadilha seguinte é o tempo. As pessoas dizem para si próprias: “Faço amanhã, quando estiver menos cansado, quando o meu neto vier cá, quando a fila estiver menor.” Os dias passam. O 8 de fevereiro aproxima-se. O stress aumenta.
Sejamos honestos: ninguém trata de burocracias no mesmo dia em que a carta chega. Sobretudo quando a carta fala de procedimentos online numa linguagem cheia de jargão.
Se estiver a ajudar um pai, uma mãe ou um vizinho, não diga apenas: “Depois vejo isso.” Marque uma data clara, até uma hora. Trate esse documento como uma consulta médica.

Muitos reformados sentem culpa, como se não compreender um site fosse falha pessoal. Não é. O sistema simplesmente não foi pensado para pessoas que nunca precisaram de email no trabalho.
Um reformado que conheci resumiu tudo numa frase:

“Eles sabem que nós não temos acesso à internet, e é exatamente por isso que empurram tudo para o online.”

Para evitar ficar de fora, alguns gestos simples podem mudar tudo:

  • Ligar para a linha de apoio das pensões e pedir, com calma, uma alternativa em papel.
  • Ir à câmara municipal/junta de freguesia ou a um centro social e dizer que precisa de ajuda com um formulário online.
  • Pedir a alguém de confiança que se sente consigo enquanto entra na sua conta.
  • Anotar palavras-passe num caderno físico que guarda em casa.
  • Tirar fotocópia do certificado antes de enviar, para ter prova e uma cópia de segurança.

Uma divisão silenciosa que diz muito sobre como envelhecemos

Esta medida de 8 de fevereiro não separa apenas quem recebe aumento de quem não recebe. Traça uma linha entre reformados que conseguem orientar-se no mundo digital e os que vivem totalmente offline.
De um lado, há pessoas que descarregam PDFs em dois cliques, digitalizam certificados com o smartphone e carregam documentos em minutos. Do outro, quem ainda depende da batida do carteiro, de uma caneta esferográfica e da paciência de um funcionário sobrecarregado ao balcão.
O aumento da pensão deixa de ser um direito e passa a ser uma recompensa por competências digitais adquiridas tarde na vida.

Algumas famílias começam a organizar-se em torno desta nova realidade. Um neto trata do email, outro das contas online, um vizinho verifica a caixa do correio e sinaliza “cartas complicadas”.
É comovente e prático, mas também esconde algo mais profundo. Um Estado social que empurra tudo para o online sem alternativas reais está, silenciosamente, a pedir aos seniores que se tornem gestores de projeto da própria papelada.
Nem toda a gente tem energia, rede de apoio ou espaço mental para carregar esse trabalho invisível aos 75.

No fim, esta reforma de 8 de fevereiro diz tanto sobre pensões como sobre a forma como tratamos o tempo das pessoas mais velhas. Um certificado em falta pode significar semanas de telefonemas, viagens de autocarro, salas de espera e preocupação. Por mais alguns euros por mês, o preço em stress pode ser absurdo.
E, no entanto, muitos persistem, fazem fila, tentam de novo quando o site falha, engolem o orgulho para pedir ajuda com uma palavra-passe. Não querem “cair nas falhas do sistema”, essa expressão assustadora que toda a gente já ouviu pelo menos uma vez.
Talvez a verdadeira questão não seja quem vai receber o aumento da pensão, mas quem deve adaptar-se: os octogenários sem internet, ou o sistema que finge que toda a gente está permanentemente online.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Verificar o certificado em falta Releia as cartas recentes da entidade de pensões e identifique o documento exato solicitado Reduz a confusão e evita perder tempo com papelada errada
Pedir opções offline Ligue ou vá aos serviços de pensões, à câmara/junta, ou a centros sociais para obter formulários em papel Abre um caminho mesmo sem internet ou competências informáticas
Obter apoio de terceiros Envolva família, vizinhos ou associações locais para os passos online Partilha o esforço e aumenta a probabilidade de receber o aumento

FAQ:

  • O que acontece exatamente a 8 de fevereiro relativamente às pensões? Nessa data, os serviços de pensões planeiam aplicar novos cálculos e aumentos aos reformados elegíveis, mas apenas para processos considerados “completos” no sistema. Se faltar um certificado, o aumento pode ser adiado ou bloqueado até o documento ser recebido.
  • Quem está mais em risco de perder o aumento? Reformados que não usam internet, pessoas que vivem sozinhas, pessoas com problemas de saúde e qualquer pessoa que tenha mudado recentemente de situação (viuvez, mudança de morada, mudança para o estrangeiro) são os mais expostos a ter documentos em falta no processo.
  • Como posso saber se o meu processo está incompleto? Verifique todas as cartas ou emails do seu serviço de pensões desde o final do ano passado. Procure expressões como “documento em falta”, “processo incompleto” ou “aguardamos”. Também pode ligar diretamente para a sua caixa de pensões e pedir que lhe enumerem os certificados pendentes.
  • Posso enviar o certificado por correio em vez de online? Muitas caixas de pensões ainda aceitam cópias em papel por correio, mas muitas vezes é preciso pedir a morada postal correta ou um formulário específico. Guarde sempre uma fotocópia e, se possível, envie por correio registado para poder provar a entrega.
  • E se eu não tiver família para ajudar no processo online? Câmaras municipais/juntas de freguesia, centros sociais, associações de reformados e algumas bibliotecas oferecem apoio presencial para serviços administrativos online. Pode ir lá com o seu documento de identificação, as cartas e quaisquer palavras-passe que tenha, e pedir que façam o procedimento consigo, no computador deles.

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