O café estava barulhento o suficiente para transformar a maioria das conversas num suave zumbido de fundo.
Exceto uma. Na mesa ao lado da minha, um homem de blazer azul-marinho falava para o seu par, não com ela. “Eu construí isto… eu disse-lhes… eu sempre soube…” A voz dele enchia todos os espaços; os “eu” caíam como batidas de tambor. As mãos dela mantinham-se fechadas à volta da chávena de café, o sorriso preso num modo educado de sobrevivência. Quase se conseguia ver o momento em que ela desligou por dentro.
Enquanto ele falava, comecei a reparar noutras vozes pela sala. A que fazia perguntas. A que terminava todas as frases com “estás a ver o que quero dizer?”. A tímida que pedia desculpa por existir. Histórias diferentes, contadas não só pelas palavras, mas pela forma como eram cosidas umas nas outras.
Os psicólogos dizem que este padrão invisível não é aleatório. A tua linguagem deixa escapar, em silêncio, a tua personalidade. Às vezes, mais do que gostarias.
As palavrinhas que te denunciam
Os psicólogos chamam-lhes “palavras funcionais”: pronomes, preposições, pequenos conectores em que a maioria de nós nunca pensa. No entanto, são o primeiro sítio para onde os investigadores olham quando querem espreitar por trás da máscara. A forma como dizes “eu”, “nós”, “tu”, “eles” traz pistas sobre como te vês em relação a toda a gente.
Em gravações de laboratório e em conversas da vida real, as pessoas com traços egocêntricos tendem a cair nos mesmos padrões. Falam mais sobre si, menos sobre o que os outros sentem. Enquadram as histórias como vitórias ou lutas pessoais, mesmo quando descrevem algo partilhado. O conteúdo parece normal. A gramática inclina, discretamente, o holofote de volta para elas.
Todos já passámos uma noite com alguém que transforma qualquer tema num espelho. Tu mencionas um dia mau, a pessoa conta-te um pior. Tu dizes que estás cansado, ela explica por que é que está exausta. Nem sempre é maldade. Às vezes é apenas um hábito de uma vida inteira a recentrar a experiência própria. Sob pressão, esse hábito torna-se mais alto. Está no “eu acho” a mais, no “a minha opinião é…” repetido, na forma como se esquecem de perguntar: “E tu?”
Um estudo bem conhecido da Universidade do Texas acompanhou padrões linguísticos ao longo de milhares de conversas. As pessoas com pontuações mais altas em narcisismo não falavam apenas mais sobre si. Usavam “eu” e “mim” de forma diferente, como se fossem as personagens principais e toda a gente à volta fosse figurante. As frases curvavam-se em torno dos próprios pensamentos, não em torno do momento partilhado. Até as piadas, muitas vezes, acabavam por voltar à história delas.
Há também o que falta. Pessoas com um estilo mais egocêntrico usam menos expressões de tomada de perspetiva como “imagino como isso foi para ti” ou “como é que isso foi?”. Não entram, linguisticamente, nos sapatos do outro. Os psicólogos chamam-lhe “baixa empatia cognitiva na alternância de turnos”. Em linguagem simples: não deixam muito espaço para a voz de mais ninguém.
A lógica por trás disto é brutalmente simples. A linguagem é uma ferramenta para mapear o mundo. Se o teu mapa interior te coloca mesmo no centro, as tuas palavras vão refletir isso. Vais destacar naturalmente o teu passado, as tuas emoções, as tuas opiniões. Com o tempo, isto cria uma impressão digital verbal que amigos, colegas e até desconhecidos conseguem captar. Podem não citar estudos. Mas vão dizer: “É sempre sobre ele/ela.”
Como falar sem te tornares a personagem principal
Há um truque pequeno e concreto que terapeutas usam frequentemente com clientes que têm dificuldades com hábitos egocêntricos. Parece quase demasiado simples: conta as tuas perguntas. Em qualquer conversa com mais de alguns minutos, acompanha mentalmente quantas perguntas genuínas fizeste sobre o mundo da outra pessoa.
Não as falsas, que só servem para preparar a tua própria história. Perguntas reais, abertas: “Como é que isso foi para ti?”, “O que fizeste a seguir?”, “O que esperas que aconteça?”. Esta pequena mudança obriga o teu cérebro a sair do seu tema favorito - tu - e a entrar na cabeça de outra pessoa. Se o teu contador de perguntas ficar perto de zero, isso é um sinal. Não para te castigares. Apenas para, com calma, voltares a virar o volante.
Um hábito prático: deixa a outra pessoa acabar a frase, faz uma pausa e depois conta em silêncio “um, dois” antes de responder. Esses dois segundos criam um intervalo onde podes decidir se vais reagir com mais uma opinião, ou se vais aprofundar o que ela acabou de partilhar. Num dia cheio, isto parece lento, até estranho. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas fazê-lo às vezes já chega para reescrever o tom de uma relação.
A maioria das pessoas cai numa linguagem egocêntrica quando se sente insegura ou invisível. Falam mais de si porque estão à procura, quase desesperadamente, de validação. É por isso que envergonhar-te raramente ajuda. Em vez disso, repara nos teus momentos “eu, eu, eu” com curiosidade. Pergunta: “O que é que estou a tentar proteger aqui?” Só essa pergunta pode suavizar o teu tom.
As armadilhas mais comuns são traiçoeiras. Transformar qualquer elogio numa história sobre o quanto trabalhaste. Dar conselhos não solicitados em vez de dizer “Isso parece difícil.” Raptar a notícia de alguém com a tua versão (“Quando isso me aconteceu…”). Estes hábitos não te tornam um monstro. Mas vão desgastando a confiança. As pessoas sentem-se usadas como ruído de fundo para o teu monólogo.
“As nossas palavras são como espelhos que erguemos em público sem querer. Nem sempre gostamos do reflexo, mas é o primeiro passo para o mudar.” - Psicólogo clínico, Londres
Há pequenos interruptores concretos que podes experimentar:
- Troca “Acho que devias…” por “O que estás a pensar fazer?”
- Substitui “Deixa-me dizer-te o que eu faria” por “Queres conselhos ou só alguém para te ouvir?”
- Troca “Sinto que estás a exagerar” por “Ainda não tenho a certeza de que percebi; podes contar-me mais?”
Isto não são fórmulas mágicas. São rodinhas de treino que empurram a tua linguagem para longe do espelho e em direção à janela. Quanto mais praticares, mais natural vai parecer.
Ouvir-te com ouvidos novos
Quando percebes que a linguagem revela a personalidade, é difícil deixar de o ver. Começas a repetir mentalmente áudios antigos, a ler as tuas mensagens com um olhar mais frio. Onde foi que te puseste no centro depressa demais? Quando é que passaste a direito por cima do medo ou do entusiasmo de alguém?
Num nível mais fundo, isto tem menos a ver com julgamento e mais com alinhamento. A forma como falas corresponde ao tipo de pessoa que achas que és? Muitas pessoas que valorizam bondade, generosidade ou curiosidade não soam assim quando o stress aperta. Os guiões automáticos tomam conta. Esses guiões foram escritos há muito: em jantares de família dominados por um progenitor barulhento, em salas de aula onde só o mais rápido a falar recebia atenção, em relações onde ouvir parecia perigoso.
A linguagem dá-te uma pega. Não consegues mudar a tua personalidade instantaneamente. Mas podes, sem dúvida, experimentar com as tuas palavras. Tenta passar um dia a reduzir deliberadamente o número de “eu” nas conversas e a aumentar “tu” e “nós”. Repara como a cara das pessoas muda quando dizes “Conta-me mais” e, depois, te calas de facto. Essa reação é dado. Diz-te que tipo de presença tens oferecido até agora.
Num registo mais vulnerável, isto também é sobre ter coragem para seres menos central. Quando deixas de preencher cada silêncio com a tua história, arriscas sentir-te menos impressionante, menos necessário. E, no entanto, é nesse espaço vazio que a ligação verdadeira entra de mansinho. É onde as outras pessoas finalmente têm espaço para existir por inteiro à tua frente.
A tua voz continuará a ser tua. As tuas experiências continuarão a importar. Não tens de te apagar para seres menos egocêntrico. Só passas de personagem principal constante para coautor atento. E essa pequena mudança - do holofote para a luz partilhada - pode mudar, discretamente, as tuas relações, o teu trabalho e a forma como falam de ti quando não estás na sala.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| As palavras funcionais revelam o ego | O uso intensivo de “eu”, “mim” e a falta de perguntas denunciam uma postura centrada em si | Permite identificar sinais de linguagem egocêntrica em si e nos outros |
| Contar as perguntas muda a dinâmica | Acompanhar o número de perguntas reais obriga a sair da própria narrativa | Oferece um método simples e aplicável de imediato para falar de forma mais empática |
| Pequenas frases, grandes efeitos relacionais | Ajustar formulações como “Como foi isso para ti?” cria mais ligação | Ajuda a melhorar a qualidade das trocas sem mudar radicalmente a personalidade |
FAQ
- Como posso perceber se a minha forma de falar é mesmo egocêntrica? Vais notar um padrão em que a maioria dos temas volta às tuas histórias, sentimentos ou opiniões, e as pessoas raramente te confiam coisas mais profundas. Gravar-te em algumas conversas e voltar a ouvir com este filtro pode ser surpreendentemente revelador.
- Usar muito “eu” é sempre um mau sinal? Não. Usar “eu” para nomear sentimentos ou necessidades pode ser saudável. Torna-se um sinal de alerta quando o “eu” atropela perguntas, empatia e curiosidade real pelos outros.
- Alguém consegue mudar o seu estilo verbal ao fim de anos de hábitos? Sim. Estudos sobre sessões de terapia mostram que as pessoas vão mudando gradualmente pronomes e estrutura frásica à medida que ganham autoconsciência e capacidade relacional. Exige prática, não perfeição.
- As mensagens escritas também mostram traços egocêntricos? Sim. Monólogos longos, “eu acho” constante e ignorar o que a outra pessoa acabou de dizer podem aparecer nas mensagens. Emojis e reações não escondem totalmente esse padrão.
- E se eu for introvertido e falar de mim porque estou nervoso? Acontece muito. A diferença-chave é a intenção e a flexibilidade: se consegues mudar para escuta e fazer perguntas quando te lembram disso, provavelmente não estás preso a um estilo egocêntrico rígido.
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