Estás a meio de contar uma história sobre o teu péssimo trajeto para o trabalho quando vês acontecer.
O olhar da outra pessoa fica vazio, o telemóvel inclina-se, os ombros viram-se ligeiramente para longe de ti.
Depois, mesmo a tempo: “Por falar nisso, aconteceu-me uma coisa semelhante…” e, de repente, o teu atraso, o teu dia, as tuas emoções desaparecem da conversa.
O holofote mudou de lugar. E eles estão outra vez mesmo no centro dele.
Sais da troca estranhamente cansado/a. Não zangado/a, não propriamente magoado/a. Apenas… invisível.
Mais tarde, ao reveres a conversa, começas a reparar em frases específicas. Frases familiares.
Pequenos anzóis verbais que parecem sempre puxar o foco de volta para eles.
Quando ouves essas frases com clareza, já não consegues deixar de as ouvir.
1. “Chega de falar de ti, vamos falar de mim.” (Dito a brincar… mas não bem)
Pessoas egocêntricas adoram dizer isto a rir.
Parece brincalhão, até autoconsciente, como se estivessem “a par da piada”.
Mas repara no que acontece a seguir.
A conversa volta mesmo para elas - e tende a ficar por lá.
A piada funciona como uma autorização: avisaram-te que iam ser a personagem principal e tu sorriste, por isso o espetáculo tem de continuar.
Com o tempo, esta “piada recorrente” começa a soar menos a humor e mais a hábito.
Imagina um jantar com amigos.
Estás a falar sobre mudar de carreira, sentes-te vulnerável, expões dúvidas.
O teu amigo sorri de lado: “Chega de falar de ti, vamos falar de mim - acabei de rebentar com as minhas metas trimestrais.”
Toda a gente se ri, porque é isso que o grupo faz sempre com essa frase.
Tu também ris a meio, mais por reflexo do que por graça.
Quando chega a sobremesa, a tua confissão já é uma memória distante e todos assentem enquanto ele faz um monólogo detalhado sobre bónus e promoções.
No caminho para casa, sentes que a tua grande decisão de vida quase não existiu.
Este tipo de frase “em tom de brincadeira” funciona porque os códigos sociais são educados e indulgentes.
Dizemos a nós próprios que é só humor, que estamos a exagerar, e deixamos o padrão repetir-se.
No entanto, uma frase repetida muitas vezes transforma-se num pequeno guião que define os papéis numa relação.
Eles são a estrela, tu és o público, e o palco partilhado encolhe sem que ninguém tenha concordado formalmente com isso.
Reparar nesse guião é o primeiro ato silencioso de resistência.
Quando ouves essa frase, podes escolher redirecionar com calma a conversa ou, simplesmente, falar menos e observar o que eles fazem com o silêncio.
2. “Isso não é nada, devias era ouvir o que me aconteceu a mim…”
Isto parece entusiasmo, mas chega como apagamento.
Abres-te sobre algo que realmente te importou, e a pessoa interrompe com: “Isso não é nada, devias era ouvir o que me aconteceu a mim…”
A hierarquia é clara: a tua experiência é “nada”, a dela é “algo”.
Não é só sobre superar a tua história; é sobre classificar os teus sentimentos.
Com o tempo, estas pequenas classificações treinam-te a trazeres menos de ti para a conversa.
Para quê partilhar, se vai ser sempre eclipsado?
Imagina que confessas a um amigo que estás exausto/a por cuidares de um pai ou de uma mãe doente.
Estás em carne viva, talvez um pouco envergonhado/a por te sentires tão drenado/a.
Ele inclina-se e diz: “Isso não é nada, devias era ouvir o que me aconteceu a mim o ano passado com o meu pai - foi muito pior.”
De repente, não tens “direito” a estar mesmo cansado/a, porque a situação dele foi mais dramática.
Em vez de perguntar como estás a aguentar, lança-se numa saga de 20 minutos.
Quando acaba, já dobraste as tuas emoções para dentro, em silêncio.
Um momento que podia ser de apoio transforma-se numa competição que ninguém pediu.
Muitas vezes, pessoas egocêntricas não pretendem ser cruéis com esta frase.
Estão à procura de intensidade, a tentar manter todas as conversas emocionalmente “altas” e centradas na narrativa delas.
Mas a vida emocional não é uma tabela classificativa.
A dor não precisa de atingir um limiar mínimo para ser válida.
Sejamos honestos: ninguém procura um amigo à espera de ver a sua luta avaliada com uma nota.
Quando ouves “isso não é nada”, na verdade estás a ouvir: “volta para o público, a história a sério está prestes a começar.”
3. “Eu digo as coisas como elas são.”
À superfície, esta frase soa a integridade.
Por baixo, é muitas vezes um passe livre para ser duro sem se preocupar com o impacto.
Pessoas egocêntricas usam “eu digo as coisas como elas são” como armadura.
Se ficas magoado/a, és “sensível demais”.
Se respondes, “não aguentas a verdade”.
O holofote nunca sai do “eu tenho razão” tempo suficiente para considerar a tua realidade.
É menos sobre honestidade e mais sobre controlo.
Talvez já a tenhas ouvido logo a seguir a um comentário cortante sobre o teu peso, a tua carreira ou a tua relação.
Tu encolhes-te, a pessoa repara, e sai a frase: “Relaxa, eu digo as coisas como elas são.”
Uma mulher que entrevistei descreveu como o irmão dissecava as escolhas de vida dela em todas as festas familiares.
Quando ela finalmente disse: “Isso magoa”, ele encolheu os ombros: “O que queres que eu faça, mentir? Estou só a ser realista.”
A mensagem era clara: a necessidade dele de se sentir brutalmente honesto era mais importante do que a necessidade dela de se sentir segura em família.
Ela começou a temer as visitas com meses de antecedência.
Esta frase transfere a responsabilidade emocional de quem fala para quem ouve.
Acabas por fazer o trabalho de “não levar a mal” enquanto a outra pessoa continua a disparar.
A honestidade genuína não precisa de um slogan para se justificar.
Normalmente vem com curiosidade, empatia e a disponibilidade para ajustar se algo magoa sem necessidade.
Quando alguém se esconde repetidamente atrás de “eu digo as coisas como elas são”, o que muitas vezes quer dizer é: eu não vou mudar a forma como falo; tu muda a forma como sentes.
Isto não é dizer a verdade; é autoproteção mascarada de virtude.
4. “Estás a exagerar” e “És demasiado sensível”
Estas duas frases são clássicos do manual egocêntrico.
Encolhem os teus sentimentos para manterem o conforto deles intacto.
Tu falas de algo que te incomodou e, em vez de se aproximarem, descartam.
O tom pode ser leve, até calmo.
“Uau, estás mesmo a exagerar.”
Ou o veneno mais suave: “Tu és demasiado sensível.”
Num só golpe, a tua reação passa a ser o problema - não o comportamento deles.
Pensa na última vez que alguém pisou um limite que tinhas deixado bem claro.
Talvez tenha partilhado algo pessoal que lhe contaste em confiança.
Quando o confrontaste, suspirou e disse: “Estás a fazer um filme por causa de nada.”
Uma leitora contou-me que o namorado fazia rotineiramente piadas à custa dela à frente de amigos.
Quando ela lhe pediu para parar, ele revirou os olhos: “És demasiado sensível, toda a gente acha piada.”
Em poucos meses, ela passou de se impor frequentemente a autocensurar-se antes mesmo de abrir a boca.
Começou a duvidar não dele, mas da própria perceção.
Esse é o poder silencioso destas frases: fazem gaslighting na medida certa para te pôr a questionar a tua bússola interna.
Se as ouves muitas vezes, começas a passar cada sentimento por um filtro, a verificar se é “válido o suficiente” para ser partilhado.
Uma resposta mais cuidadora soaria a: “Não era minha intenção magoar-te, conta-me mais.”
Pessoas egocêntricas saltam essa parte.
Vão diretamente para encolher a tua emoção para não terem de expandir a própria consciência.
Com o tempo, o espaço emocional na relação passa a pertencer sobretudo a elas.
5. “Não querendo tornar isto sobre mim, mas…”
Quando alguém diz “Não querendo tornar isto sobre mim, mas…”, já sabes o que vem a seguir.
Vai, sim, tornar-se sobre ela.
A frase é uma pequena nota de rodapé para soar educada e autoconsciente.
É como se estivessem a pagar adiantado pelo egoísmo, esperando que tu aceites com um sorriso.
O problema não é quererem relacionar-se; é não resistirem a puxar o centro de gravidade da conversa para a própria órbita.
A tua história vira trampolim para o monólogo delas.
Tu falas de teres perdido o emprego, assustado/a e inseguro/a em relação ao futuro.
A pessoa acena com simpatia e depois diz: “Não querendo tornar isto sobre mim, mas quando eu perdi o meu emprego foi ainda mais difícil porque tinha dois filhos e uma prestação da casa.”
De repente, estás a ouvir em vez de ser ouvido/a.
A tua situação tem de competir com a dela para ser legítima.
Uma terapeuta com quem falei disse que ouve esta frase muitas vezes em sessões de casal.
Um parceiro partilha algo vulnerável e o outro vira imediatamente com “não querendo tornar isto sobre mim…” e tira o ar da sala.
É subtil, mas é implacável.
Pessoas egocêntricas muitas vezes confundem identificar-se com redirecionar.
Acham que contar a própria história é a única forma de “conectar” e, por isso, mal deixam a tua experiência pousar na mesa antes de a substituírem pela delas.
Uma versão mais saudável seria: “Passei por algo parecido; queres ouvir ou só precisas desabafar agora?”
Essa pequena pergunta honra o teu momento em vez de o sequestrar.
Quando alguém salta esse passo todas as vezes, o que está a dizer é: a tua história é mais útil como o meu ato de abertura.
Quando vês esse padrão, fica difícil continuar a fingir que é apenas partilha amigável.
Como responder quando começas a ouvir estas frases em todo o lado
Assim que reparas nestas frases egocêntricas, elas começam a aparecer como legendas na tua memória.
Ouvimo-las em conversas antigas, nos chats de grupo, nos jantares de família.
O objetivo não é policiar cada palavra que as pessoas dizem.
Uma abordagem prática é observar o que acontece depois da frase aparecer.
Eles voltam alguma vez a ti?
Fazem perguntas de seguimento que não sejam apenas pretextos para a história deles?
Um método simples é fazer uma pausa, dar uma resposta curta e resistir ao impulso habitual de preencher o silêncio.
A reação deles nesse pequeno intervalo diz-te muito sobre a capacidade que têm para uma ligação genuinamente recíproca.
Uma armadilha comum é achares que tens de confrontar cada frase egocêntrica de frente.
Não tens.
Podes começar com limites mais silenciosos: encurtar chamadas que te deixam sempre drenado/a, mudar de assunto com mais intenção, ou partilhar menos detalhes pessoais com quem está sempre a competir contigo.
E, se falares, sê específico/a, não uses rótulos.
Em vez de “Tu és tão egocêntrico/a”, tenta: “Quando eu partilho algo e tu dizes logo ‘isso não é nada’ e passas para a tua história, eu sinto-me desvalorizado/a.”
A maioria das pessoas não consegue ouvir “és egoísta”, mas às vezes consegue ouvir “este comportamento magoa-me”.
Às vezes, a mudança não é sobre os consertar; é sobre finalmente acreditares em ti.
- Repara nas frases exatas que te drenam, não apenas na sensação geral.
- Testa pequenos limites: respostas mais curtas, mudanças suaves de tema, menos exposição emocional.
- Observa quem te faz perguntas a sério e quem apenas espera pela sua vez de falar.
- Confia no peso que sentes depois de certas conversas; isso é informação.
- Dá mais energia a quem partilha o holofote em vez de o agarrar.
A verdadeira pergunta por trás das frases egocêntricas
Quando começas a ouvir estas nove pequenas frases no discurso do dia a dia, o mundo muda ligeiramente de cor.
Reparas com que frequência as pessoas se centram nelas próprias, e quão raramente algumas fazem uma pergunta de seguimento sincera.
Talvez também repares em algo menos confortável: os momentos em que tu próprio/a usas essas frases.
Todos usamos, especialmente quando estamos cansados, inseguros, ou desesperados por ser vistos.
A diferença está no que acontece a seguir.
Dobramos a aposta e defendemos as nossas frases, ou prestamos atenção às caras à nossa frente?
As conversas são pequenas trocas de poder disfarçadas de conversa de circunstância.
Quem fica com o microfone?
De quem é que a história se torna o ponto de referência?
Pessoas egocêntricas puxam o foco de volta, muitas vezes sem perceber o custo.
À volta delas, as pessoas vão ficando caladas - ou tornam-se cheerleaders permanentes, a bater palmas na deixa certa enquanto as próprias vidas desaparecem para segundo plano.
A certa altura, cabe-te a ti decidir que papel estás disposto/a a desempenhar.
Não tens de diagnosticar toda a gente nem começar a distribuir rótulos de personalidade.
Podes simplesmente perguntar-te, depois de uma conversa: senti-me visto/a, ou senti-me usado/a como cenário?
Essa única pergunta é um filtro silencioso.
Com o tempo, podes descobrir que o teu círculo se desloca para as pessoas que dizem coisas como: “Conta-me mais”, “Como é que isso te fez sentir?” ou “Queres conselhos ou só alguém para te ouvir?”
Essas frases não soam vistosas.
Não agarram o holofote.
Fazem algo melhor: partilham-no.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Frases de holofote | Expressões que redirecionam constantemente o foco de volta para quem fala | Ajuda-te a identificar rapidamente padrões egocêntricos |
| Impacto emocional | Estas frases encolhem discretamente os teus sentimentos e experiências | Valida o teu desconforto e trava a auto-culpabilização |
| Opções de resposta | Pequenos limites, feedback específico e partilha seletiva | Dá-te formas práticas de proteger a tua energia |
FAQ:
- Pergunta 1 Como sei se alguém é mesmo egocêntrico/a ou se está apenas a ter um mau dia?
- Pergunta 2 E se eu perceber que uso algumas destas frases também?
- Pergunta 3 Devo chamar as pessoas à atenção diretamente quando dizem estas coisas?
- Pergunta 4 Como protejo a minha energia sem desaparecer (ghosting) por completo?
- Pergunta 5 Comunicadores egocêntricos conseguem mesmo mudar ao longo do tempo?
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