Sábado de manhã no café, a cena é quase um cliché. Um grupo de habitués de cabelo grisalho senta-se na mesa grande junto à janela, canecas fumegantes à frente, jornais abertos, a conversa a saltar dos resultados do futebol para as notícias de ontem à noite. Os telemóveis estão nas malas ou nos bolsos, esquecidos. Não estão curvados sobre ecrãs; inclinam-se uns para os outros, a rir tão alto que o barista não consegue evitar sorrir.
Na mesa ao lado, três jovens de hoodie, com auriculares sem fios, fazem scroll em silêncio. Os cafés arrefecem. Quando um deles finalmente levanta os olhos para dizer alguma coisa, os outros nem dão conta, perdidos em loops do TikTok e em notificações a apitar. O contraste é quase brutal, e sente-se no estômago.
Quem é que parece estar realmente a desfrutar da vida naquele momento?
1. Conversas reais, não notificações sem fim
Pergunte a pessoas na casa dos 60 o que mais valorizam, e muitas dirão alguma versão da mesma coisa: “Nós ainda falamos.” Não é mandar mensagens, não é reagir com emojis, não é deixar um áudio e desaparecer. Falar. Telefonam a um amigo, tocam à campainha de um vizinho, ou sentam-se à mesa da cozinha até o café ficar morno e, em vez disso, a conversa aquecer.
Esse hábito parece antiquado ao lado de chats de grupo e DMs a piscar 24/7. Ainda assim, a qualidade emocional está a anos-luz de distância. Não se sente o cheiro do cigarro de alguém numa mensagem de WhatsApp. Não se vê aquela micro-pausa antes de partilhar uma má notícia. Não se sente aquele silêncio em que as duas pessoas sabem o que está realmente a ser dito, mesmo que ninguém o diga em voz alta.
Os estudos sobre solidão repetem discretamente a mesma coisa todos os anos: estamos mais ligados e mais isolados ao mesmo tempo. As gerações mais velhas, que cresceram com telefones fixos e visitas inesperadas, ainda seguem esta regra simples: se é importante, vai-se ver a pessoa ou liga-se. Esse esforço extra é onde mora a intimidade. A tecnologia está sempre a dizer-nos que não temos tempo. As conversas reais provam que temos.
2. Caminhar sem headphones, sem scroll, sem contador de passos
Um dos hábitos antigos mais subestimados pode ser o mais simples: caminhar só por caminhar. Sem app a contar a distância, sem smartwatch a vibrar com “objetivo concluído”, sem podcast a acelerar a produtividade. Muitas pessoas nos seus 60 e 70 ainda fazem o que os pais faziam: “vou dar um passeio” depois do almoço, ou “vou dar uma volta ao quarteirão” ao fim da tarde.
O meu vizinho, 72, sai todos os dias por volta das quatro. Sem telemóvel na mão. Casaco, chaves, talvez um lenço dobrado. Faz sempre o mesmo percurso, acena à florista, pára para olhar o céu, às vezes conversa com um lojista. Para um jovem obcecado por tecnologia, isso provavelmente parece tempo perdido. Para ele, é o contrário: é um reset diário em que nada lhe é exigido.
As tendências modernas de bem-estar embrulham isto como “mindfulness” ou “grounding”, mas para ele é apenas o que se faz. O cérebro precisa de tempo ocioso, o corpo precisa de movimento, os sentidos precisam de input real do mundo - não de píxeis. O passeio não tem objetivo, e é exatamente por isso que funciona. Chega-se a casa com os ombros mais leves e as pernas mais pesadas e, de alguma forma, as preocupações ficam mais baixas, mesmo que nada tenha mudado.
3. Guardar papel: diários, receitas, cartas e listas
Abra uma gaveta da cozinha em muitas casas de pessoas mais velhas e encontrará um pequeno tesouro: receitas amareladas, escritas à mão com tintas diferentes, algumas manchadas de óleo ou chocolate. Pode haver cartões de aniversário atados com uma fita, ou um caderno com anos de pequenas entradas: “Choveu hoje. Os tomates não gostaram.” Parece desarrumado. Também é um arquivo pessoal de uma vida que não foi vivida através de um ecrã.
As gerações mais novas têm notas espalhadas por apps, drives na cloud e e-mails esquecidos. É conveniente - até deixar de ser. Tente encontrar a receita de lasanha que fez screenshot há três telemóveis. Entretanto, a senhora de 70 anos só estende a mão à gaveta e tira o mesmo cartão manchado que a mãe usava. Essa continuidade faz algo ao sentido de identidade que uma notificação “Neste dia” gerada por algoritmo nunca consegue bem replicar.
Há também o ato físico de escrever. Caneta no papel abranda-nos. Escolhe-se o que importa o suficiente para ficar registado. As suas próprias palavras parecem mais reais quando as pode tocar. E quando alguém morre, ninguém se reúne à volta de um disco rígido antigo. Reúnem-se à volta de cartas, cadernos e cartões de receitas que ainda guardam a marca da mão da pessoa.
4. Comer a horas regulares, numa mesa a sério
Pergunte a alguém de 25 anos o que jantou e talvez ouça: “Ah… sobras no sofá a ver Netflix.” Pergunte a alguém nos seus 60 e é muito mais provável que descreva uma refeição a sério, comida sentado, mais ou menos à mesma hora todos os dias. O hábito parece pequeno, quase aborrecido. Mas cria um ritmo que segura o dia.
Muitos adultos mais velhos cresceram com horários de refeição rígidos, por vezes impostos por pais severos ou por orçamentos apertados. Hoje, mantiveram a estrutura mas baixaram a pressão. A mesa pode ter apenas sopa e pão, ou uma omelete simples. A TV pode estar ligada ao fundo, mas os pratos e talheres continuam a sinalizar: “Isto é um momento.” Sem swipes, sem responder a meio da garfada, sem parar para fotografar o prato para o Instagram.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. A vida mete-se no caminho. Ainda assim, quem mantém mesmo uma versão “solta” deste ritual costuma dizer que se sente mais “assente” e menos apressado. O corpo gosta de previsibilidade. A mente também. Quando se sabe que o jantar é às sete, planeia-se inconscientemente em função disso. A mesa torna-se um compromisso diário consigo e com quem partilha a sua vida, e não apenas mais um cenário para conteúdo.
5. Arranjar e reutilizar em vez de clicar em “Comprar agora”
Se a máquina de lavar avaria e o primeiro impulso é abrir uma app de compras, não está sozinho. Muitos jovens nunca aprenderam a reparar coisas, porque tudo - da moda aos telemóveis - é desenhado para ser descartável. Quem hoje está nos seus 60 e 70 cresceu noutro mundo. As coisas eram caras, e deitá-las fora parecia quase imoral.
Esse mindset deixou marca. Ainda cerzem meias, cosem botões, colam pernas de cadeiras partidas e afiam facas em vez de as substituir. Nem sempre fica bonito, e não tem a ver com uma ideia romântica de “vintage”. É um respeito silencioso pelos objetos, pelo dinheiro e pelo esforço que existe em ambos. Esse respeito muitas vezes transborda para a forma como tratam pessoas também. Não se “descarta” alguém só porque está um pouco “partido”.
Há ainda uma satisfação profunda em consertar algo com as próprias mãos. Um estilo de vida obcecado por tecnologia treina-nos para tocar, fazer swipe e esperar pelo pico de dopamina de uma entrega. Os hábitos antigos oferecem uma recompensa mais lenta. Senta-se à mesa, ferramentas espalhadas, talvez com o rádio ligado, e luta-se. Depois, o candeeiro volta a acender. Essa pequena vitória pode parecer absurdamente grande num dia mau, porque lembra que é capaz - não é apenas um utilizador.
6. Proteger o tempo de silêncio: manhãs, noites, domingos
Um hábito que muitos adultos mais velhos defendem com unhas e dentes: o seu tempo de silêncio. Manhãs cedo com um café e o jornal. Tardes de domingo em que o telefone vai para o voicemail. Fins de tarde de verão na varanda, a fazer “nada”. Não lhe chamam autocuidado. Chamam-lhe “a minha rotina” e guardam-na como uma fronteira.
A cultura jovem tende a adorar estar ocupado. Cada intervalo entre tarefas é preenchido: playlists no duche, podcasts no trajeto, scroll antes de dormir. A mente nunca assenta. Pessoas nos seus 60 e 70 lembram-se de quando o tédio era normal. Esperar na paragem de autocarro só com os próprios pensamentos. Sentar-se numa sala de espera do médico simplesmente… sentado. Esses espaços vazios eram onde ideias e memórias tinham espaço para se mexer.
Uma professora reformada disse-me:
“Deixei de responder a e-mails à noite quando saí do trabalho. E quando me reformei, não substituí esse tempo por redes sociais. Substituí-o por silêncio. Ao início foi estranho. Depois percebi que tinha andado cansada durante 30 anos.”
Muitas vezes apoiam-se em algumas regras simples:
- O telemóvel fica noutra divisão durante a primeira hora do dia
- Sem ecrãs pelo menos 30 minutos antes de dormir
- Um dia por semana sem grandes planos nem obrigações
Isto não são truques glamorosos. São limites. E os limites são o que impede que a sua vida interior seja constantemente colonizada por notificações, alertas de notícias e dramas dos outros.
O que estes hábitos “antigos” dão que a tecnologia não dá
Quando se põem todos estes hábitos lado a lado, aparece um fio comum. São todos low-tech, quase aborrecidos, e teimosamente físicos. Conversa à mesa. Caminhar sem objetivo. Escrever com caneta. Comer à mesma hora. Reparar coisas. Proteger o silêncio.
Nada disto vai ficar viral no TikTok. Não dá para gamificar, empacotar facilmente ou monetizar com uma subscrição premium. Talvez seja precisamente por isso que pessoas nos seus 60 e 70 se agarram a estes hábitos. São zonas onde os algoritmos quase não entram. Zonas onde não se conseguem recolher “dados de engagement” porque a única coisa envolvida é um ser humano, com outro ser humano, ou com os seus próprios pensamentos.
Não tem de desistir do smartphone nem apagar as suas redes sociais para aprender com isto. Pode manter a música em streaming e as apps de mensagens e, ainda assim, decidir que três noites por semana o jantar é sem ecrãs. Que uma vez por semana liga em vez de escrever. Que todos os dias caminha dez minutos sem headphones, só a ouvir os próprios passos. A pergunta escreve-se quase sozinha: que hábitos é que os futuros septuagenários vão olhar para trás e dizer “foi isto que me manteve feliz”?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Conversas reais | Dar prioridade a chamadas e momentos cara a cara em vez de mensagens intermináveis | Relações mais profundas, menor sensação de isolamento |
| Rotinas simples | Refeições regulares, passeios diários, tempo de silêncio protegido | Humor mais estável, melhor sono, menos stress |
| Âncoras físicas | Diários em papel, receitas manuscritas, reparar objetos | Maior sentido de identidade e competência |
FAQ:
- Pergunta 1 Tenho de abdicar do meu smartphone para beneficiar destes hábitos à moda antiga?
- Pergunta 2 Qual é um pequeno hábito que posso começar esta semana se a minha vida parece demasiado digital?
- Pergunta 3 Como crio “tempo de silêncio” quando o meu trabalho espera que eu esteja online constantemente?
- Pergunta 4 Estes hábitos podem mesmo ajudar com ansiedade e problemas de sono?
- Pergunta 5 Como convenço jovens à minha volta a experimentar algumas destas práticas?
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