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Cientistas descobrem um objeto de outro sistema solar a aproximar-se de nós a uma velocidade recorde.

Cientista sentado em laboratório, usando luvas e analisando amostras com um telescópio, livro aberto com esboços.

A alerta chegou pouco depois das 3 da manhã, numa sala de controlo silenciosa no Havai. Uma jovem astrónoma, meio adormecida sobre uma caneca de café frio, viu uma linha branca e fina atravessar o ecrã. Ao princípio, pareceu apenas mais uma rocha espacial, mais um ponto anónimo num céu infinito. Depois os números foram recalculados, a órbita atualizou-se e toda a gente na sala endireitou-se nas cadeiras.

O objeto não estava a dar voltas ao Sol. Estava a atravessar o nosso bairro cósmico a direito, como uma pedra a saltar à superfície de um lago.

Uma rocha de outro sistema solar, a avançar na nossa direção a uma velocidade recorde.

Uma bala cósmica que não pertence aqui

Nos mapas do céu, parece quase tímida: apenas uma ténue mancha a mover-se uma fração de grau a cada noite. Mas por detrás desse brilho suave esconde-se algo espantoso. O novo objeto, temporariamente identificado por uma sequência de letras e números, está a mover-se tão depressa que a gravidade do Sol não o consegue prender.

Os astrónomos chamam a estes viajantes “objetos interestelares”. A última vez que vimos um com esta clareza foi o estranho ‘Oumuamua, em forma de charuto, em 2017. Este é mais rápido, mais brilhante e aproxima-se numa trajetória mais inclinada.

Não é daqui.

Num dos principais observatórios do mundo, a descoberta não chegou com aplausos. Chegou com dúvidas.

O primeiro investigador que viu os dados pensou que o telescópio tinha falhado. A velocidade estava fora de escala: dezenas de quilómetros por segundo, muito para além do lento deslizar dos asteroides normais ligados ao Sol. Voltaram a correr o software. E depois uma terceira vez. O rasto manteve-se teimosamente igual.

Em poucas horas, outros observatórios apontaram os seus espelhos para a mesma zona do céu. O mesmo intruso, a uma velocidade vertiginosa, apareceu também nas imagens deles. A mensagem era clara: algo vindo de muito além do nosso sistema solar acabara de se impor à nossa atenção.

A explicação, estranhamente, é física simples. Todos os objetos ligados ao nosso Sol seguem um percurso curvo, como uma bola de gude a rolar dentro de uma taça. Há uma velocidade máxima a que essa bola pode rolar sem sair disparada.

Este novo objeto excede essa velocidade de escape por uma margem generosa. O seu caminho não faz um laço: corta. Em vez de orbitar, está apenas de passagem - como um viajante de longa distância que apanha um voo de ligação e nunca sai do aeroporto.

Essa é a assinatura simples de um visitante interestelar: uma velocidade e uma trajetória que ignoram o domínio do Sol.

Como os cientistas estão a correr contra o relógio

No momento em que os astrónomos perceberam o que estavam a ver, começou uma corrida invisível. Não contra o próprio objeto, mas contra o tempo.

Visitantes interestelares atravessam o nosso céu depressa. Semanas ou meses, não anos. Por isso, equipas por todo o mundo estão agora, discretamente, a negociar tempo de telescópio, a encaixar pedidos urgentes em agendas já saturadas. Cada hora extra significa mais dados: a cor, a rotação, a forma como a luz do Sol se reflete na superfície.

O objetivo é simples: extrair todas as pistas possíveis deste hóspede fugaz antes que desapareça de volta no espaço profundo.

Por detrás das grandes manchetes e das animações dramáticas, o trabalho é surpreendentemente frágil. Uma faixa de mau tempo sobre o Chile pode roubar noites preciosas. Um pequeno problema mecânico num telescópio espacial pode apagar uma janela crucial de observação.

Os cientistas também lutam contra algo menos óbvio: as nossas próprias expectativas. O último grande visitante interestelar tornou-se uma história global, completa com teorias selvagens sobre tecnologia alienígena. Desta vez, os investigadores estão a esforçar-se para não repetir esse circo. Sabem como é fácil dados iniciais e incompletos escorregarem para a fantasia.

Sejamos honestos: quase ninguém lê as letras pequenas da incerteza científica quando um mistério cósmico está em alta nas redes sociais.

Há o risco de dois erros opostos. De um lado, desvalorizar a descoberta até parecer apenas mais uma rocha. Do outro, transformar qualquer anomalia numa grande revelação.

A realidade sóbria fica algures no meio. Um objeto vindo de outro sistema solar já é extraordinário, mesmo que seja “apenas” poeira gelada e rocha. A sua composição pode dizer-nos como outros sistemas planetários se constroem. O seu caminho pelo espaço pode apontar para uma estrela há muito perdida, onde mundos se formaram e talvez tenham morrido.

“As pessoas imaginam drama no sítio errado”, disse-me um cientista planetário. “O drama não são os extraterrestres. O drama é que finalmente estamos a apanhar pedaços de outros sistemas solares em tempo real.”

  • Do que é feito - pode revelar gelos ou metais exóticos nunca vistos nos asteroides locais.
  • Como roda - dá pistas sobre colisões violentas ou longas viagens silenciosas entre estrelas.
  • O seu percurso exato - pode permitir identificar o berçário estelar onde nasceu.
  • As mudanças de brilho - podem mostrar se tem jatos, poeiras ou uma forma estranha.
  • O seu perfil de velocidade - ajuda a refinar com que frequência estes visitantes interestelares passam por perto.

O que este visitante significa realmente para nós

O choque silencioso por detrás desta descoberta não é medo. É perspetiva.

Cada vez que aparece um objeto destes, lembra-nos que o nosso sistema solar não é uma ilha isolada. É um cruzamento numa velha e gasta autoestrada interestelar. Pedaços de outros mundos terão, provavelmente, atravessado os nossos céus durante milhares de milhões de anos - despercebidos, não registados, a arder silenciosamente sobre algum oceano antigo.

Agora, finalmente, temos instrumentos suficientemente apurados para os apanhar em flagrante.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Velocidade interestelar O objeto move-se demasiado depressa para ficar ligado ao Sol Ajuda a perceber por que motivo os cientistas dizem que vem de outro sistema solar
Curta janela de observação Semanas ou meses para o estudar antes de desaparecer Explica o sentido de urgência e a vaga de manchetes
Pistas sobre outros mundos Composição, rotação e trajetória revelam como sistemas distantes se formam Liga esta rocha abstrata a perguntas reais sobre vida e planetas

FAQ:

  • Pergunta 1 Este objeto é perigoso para a Terra?
  • Resposta 1 Os cálculos atuais não mostram risco de colisão. O seu percurso atravessa o sistema solar a alta velocidade, mas segue uma trajetória limpa e aberta que passa a uma enorme distância do nosso planeta.
  • Pergunta 2 Poderá ser uma nave extraterrestre?
  • Resposta 2 Não há indícios de sinais artificiais, motores ou manobras controladas. Os dados até agora são compatíveis com um objeto natural, como um cometa ou asteroide, mesmo que a sua origem seja interestelar.
  • Pergunta 3 Como é que os cientistas sabem que vem de outro sistema solar?
  • Resposta 3 A sua velocidade e trajetória são “hiperbólicas”, o que significa que a gravidade do Sol não o consegue capturar. Esse excesso de velocidade, acima do que os objetos locais têm, é a prova decisiva de uma origem interestelar.
  • Pergunta 4 Alguma vez o visitaremos com uma nave espacial?
  • Resposta 4 Com a tecnologia atual, lançar e alcançar o objeto a tempo é extremamente difícil. Existem alguns conceitos de missão no papel, mas este visitante em particular quase de certeza partirá antes de qualquer sonda o conseguir atingir.
  • Pergunta 5 Porque é que os objetos interestelares são tão importantes?
  • Resposta 5 São amostras naturais de outros sistemas planetários, entregues diretamente à nossa “porta” cósmica. Estudá-los permite comparar o nosso sistema solar com sistemas distantes, sem precisarmos de viajar anos-luz.

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